Sábado, Outubro 31, 2009

Take-out girls, take-out future,
packed in bags,
so there will be no mixing up.

You're good to go.

Remember we’re taping it,
so don’t look away when you hit it:
it’s just what you can handle.


Eddie Humble, Shake Well Before Opening, 1983.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Será, afinal, uma felicidade

Beber até morrer é um modo de largar a bebida. Morre-se bêbado como se morre sóbrio: a diferença está em quão animado será o banquete dos vermes. E se é para morrer, que seja uma festa, não? Mariana nunca concordou comigo neste e nem em muitos outros tópicos irrelevantes que eu lançava ao acaso sobre a mesa de jantar, mas ela jamais moveu um dedo ou lançou um prato contra a parede na esperança de me demover de minhas convicções. Já esta puta com quem vivo há seis meses não passa um dia santo sem que grite e gema que sou apenas um bêbado. Ora, eu sei muito pouco sobre o mundo, mas sei que sou um bêbado. Jamais precisei que alguém me informasse disso, muito menos aos gritos. Mesmo na tenra idade dos nove anos, depois de enxugar às escondidas uma meia garrafa de vinho para almoço do meu embriagado pai, eu tinha consciência de que era um bêbado. Era, aliás, o único fato sobre o qual eu tinha plena consciência. Falavam-me da gravidade, que nos empurra para baixo, mas o que sentia em mim era um força dispersiva que me levava para as nuvens; palestravam diante de mim sobre como o planeta é redondo, e eu, bêbado, era muito mais minucioso e o acreditava espiralado. Quando saía para as longas caminhadas com meu pai, em busca do último boteco aberto da madrugada, tinha pavor de que eventualmente a espiral acabaria e eu cairia lá de cima por dentro dos círculos sobrepostos, perdendo-me no espaço. Meu pai talvez compartilhasse comigo o mesmo medo, porque, depois de longos quarteirões e esquinas, apertava mais forte a minha mão, como se a queda fosse eminente. Um dia, de fato, caí – de uma roda gigante, aos pés de Mariana. Disse-lhe com ternura alcólica: posso ter quebrado todas as costelas e rachado o crânio, mas não estou louco: és a mulher mais bonita que vi em toda a minha vida. Levou-me para casa. Vivemos juntos por dez anos – ela trabalhava como enfermeira em um hospital, eu bebia. À noite, ela me contava das dezenas de mortos da noite, que dirigiam embriagados. Eu dizia: por isso não dirijo. Ela falava de doenças do fígado, eu falava de doenças do coração, deste amor que me põe febril dentro do teu umbigo, Mariana – a taça de Salomão. No décimo ano, na milésima garrafa, na mesma eterna embriaguez, ela disse que eu tinha de ir embora. Eu estava bêbado demais para entender suas razões ou mesmo para capturar completamente as conseqüências da sua orientação, mas acatei e saí da casa com a roupa do corpo. Érica, a puta, me encontrou na mesma noite, deitado entre dois cães de rua. Atirou-me sobre a cabeça uma moeda, a pretexto de caridade. Bêbado de gim e de sono, eu lhe gritei puta, eu tenho muito mais do que moedas. Acolheu-me, então, nesta casa que está sempre imunda, porque Érica bebe como eu. Cadela bêbada. Hoje, finalmente, gastei os últimos centavos de minha herança numa garrafa de cachaça. Beberei, depois avisarei Érica de que ela está pobre de novo. Pobre e bêbada. E que não me peça uma dose. Será, afinal, uma felicidade.

Da coleção de contos "Problemas com a bebida e outros problemas", no prelo.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Every Dickhead

O que me consola a respeito de José Saramago é que, como tenho 26 anos, quando contar ali pelos 40 (caso não seja precipitadamente colhido pelos eventos), ninguém mais o lerá, como ninguém mais lê a maioria dos escritores que venceram o prêmio Nobel. Escrevem dissertações e teses sobre o autor português, mas o velho só possui duas idéias na cabeça: o capitalismo é o diabo e Deus é ruim. Quando se cansa da própria ladainha palavrosa sobre uma delas, pergunta-se: o que mais tenho na cabeça?, e, claro, vira-se confortavelmente para a outra. Se é para termos um ateu imperando na literatura lusófona, por que não temos um que não esteja intelectual e criativamente morto há décadas, por que não um Philip Roth?

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Devil says it's only in my head



Quando fui ao Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, passei a maior parte do tempo dentro de uma obra da canadense Janet Cardiff, em que quarenta caixas de som reproduzem uma composição polifônica de Thomas Tallis, do século XVI. Muitas pessoas vão a Inhotim, e muitas delas ficam cativas da composição de Tallis. Adentram com curiosidade a sala ocupada em círculo pelas quarenta caixas de som - uma para cada voz do coro - e sentam-se nos bancos e se esquecem prestando atenção à música; outras caminham pela sala, perseguindo a melodia de caixa em caixa. Não entendo quase nada de arte contemporânea, mas essa sala da canadense me proporcionou uma das minhas experiências mais preciosas envolvendo música. Os detratores da arte contemporânea dirão que a música de Tallis é que é valiosa. É valiosíssima, mas o contexto de recepção dela lhe dá uma outra aura, e isto não é apenas teoria, embora, quando se trata de arte contemporânea, muitas vezes seja. Em um mundo em que todos andam de Ipod no ouvido por todos os lados, ouvir música no contexto dessa obra de Cardiff é mesmo comovente - dá idéia de uma outra dimensão do que é uma experiência musical. Talvez essa seja uma das funções da arte contemporânea: criar para nós uma circunstância para vivenciar algo que hoje só é possível vivenciar auto-conscientemente, mas em um contexto em que auto-consciência não revela a deliberação vaidosa de ter grandes sentimentos, um contexto que nos desarma, que nos torna miseráveis.

A sala é branca e, com as caixas de som impessoais em círculo, tem-se a impressão de que estamos penetrando a última sala do universo, o ponto de chegada de uma longa viagem. E, uma vez lá dentro, não conhecemos nenhuma verdade sobre o cosmo e não há ninguém para nos receber. Apenas, há muito tempo atrás, instalaram as tais caixas de som, reproduzindo infinitamente uma composição do século XVI em homenagem a uma rainha morta. Mas mesmo nessa solidão infinita, somos de algum modo consolados. Na sala transbordando de vozes e música, há um sentimento intenso da ausência de Deus - é uma desilusão: há apenas dispositivos eletrônicos espalhando a música das esferas.

Mas no meio desse abismo, desse buraco negro na alma, algo cintila - a experiência é dinâmica, e a música lhe conduz a outra dimensão - da desilusão para a arte: algo que ultrapassa toda coordenação narrativa, algo que nos põe sentindo a simultaneidade de todas as nossas experiências. E quando todas essas experiências pessoais afloram, elas transbordam e misturam-se à música, tornam-se acontecimentos simultâneos do universo: nós desaparecemos. Há algo além da nossa razão, para o qual a arte por vezes consegue nos entregar. Os versos de Eliot me vieram outra vez à memória:


For most of us, there is only the unattended
Moment, the moment in and out of time,
The distraction fit, lost in a shaft of sunlight
The wild thyme unseen, or the winter lightning
Or the waterfall, or music heard so deeply
That it is not heard at all, but you are the music
While the music lasts.

Sábado, Outubro 17, 2009

Um aceno para os Campos

"Os dois primeiros livros de sua trilogia (O país dos Mourões e Peripércia de Gerardo) me levaram a descobrir um mundo - que me prometo mais e mais - que nao é tanto uma geografia e uma história, mas, no verdadeiro sentido da palavra, uma genealogia americana. Poesia das origens."

Octavio Paz, sobre Gerardo Mello Mourão (em Breve memória crítica da obra de Gerardo Mello Mourão. Edições GRD, São Paulo, 1996).

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Top 3: Christian Songs

1. Monkey gone to heaven - Pixies
2. I am the resurrection – The Stone Roses
3. God only knows – Beach Boys

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Um pouco mais de vaidade

O melhor tipo de pessoa para discutir as coisas de que gostamos - poesia, cinema, música, romances - são aquelas que gostam das mesmas coisas, mas por motivos completamente diversos, às vezes mesmo opostos. A dinâmica da conversação nunca fica estagnada, sendo sempre dinâmica: ora caminha-se para um entendimento, com ambas as partes cedendo, ora caminha-se para longe de qualquer reconciliação. A um só tempo, sua personalidade se fortalece e muda, e a compreensão do objeto se alarga. É bom exercício para trabalhar tanto a capacidade argumentativa quanto a humildade. Conversar com quem gosta das mesmas coisas que nós pelos mesmos motivos não chega a ser enfadonho, mas dificilmente é uma conversa: está mais para uma confirmação exterior das nossas convicções, uma questão de poder, que pode levar ao aprofundamento da vaidade mais estúpida que existe, que é a vaidade de gostar de certas coisas culturalmente validadas pelo simples fato de serem culturalmente validadas. Hoje em dia, há uma deturpação dessa vaidade, que é a vaidade de gostar de certas coisas culturalmente condenadas, pelo simples fato de serem culturalmente condenadas, alimentando um vago sentimento de superioridade irônica, a pretexto de uma sinceridade corajosa, mas que na verdade é apenas o desejo adolescente de enquadrar-se num grupo: qualquer coisa para nos sentirmos especiais, mesmo ser apóstolo da banalidade - really punk. O problema nisso não é sequer a vaidade, porque é impossível livrar-se dela completamente - o problema é a perda de tempo, a falta de real sinceridade, que só existe quando estamos mais atentos à nossa passagem pelo mundo do que aos olhares de interesse e reconhecimento das outras pessoas.