Será, afinal, uma felicidadeBeber até morrer é um modo de largar a bebida. Morre-se bêbado como se morre sóbrio: a diferença está em quão animado será o banquete dos vermes. E se é para morrer, que seja uma festa, não? Mariana nunca concordou comigo neste e nem em muitos outros tópicos irrelevantes que eu lançava ao acaso sobre a mesa de jantar, mas ela jamais moveu um dedo ou lançou um prato contra a parede na esperança de me demover de minhas convicções. Já esta puta com quem vivo há seis meses não passa um dia santo sem que grite e gema que sou apenas um bêbado. Ora, eu sei muito pouco sobre o mundo, mas sei que sou um bêbado. Jamais precisei que alguém me informasse disso, muito menos aos gritos. Mesmo na tenra idade dos nove anos, depois de enxugar às escondidas uma meia garrafa de vinho para almoço do meu embriagado pai, eu tinha consciência de que era um bêbado. Era, aliás, o único fato sobre o qual eu tinha plena consciência. Falavam-me da gravidade, que nos empurra para baixo, mas o que sentia em mim era um força dispersiva que me levava para as nuvens; palestravam diante de mim sobre como o planeta é redondo, e eu, bêbado, era muito mais minucioso e o acreditava espiralado. Quando saía para as longas caminhadas com meu pai, em busca do último boteco aberto da madrugada, tinha pavor de que eventualmente a espiral acabaria e eu cairia lá de cima por dentro dos círculos sobrepostos, perdendo-me no espaço. Meu pai talvez compartilhasse comigo o mesmo medo, porque, depois de longos quarteirões e esquinas, apertava mais forte a minha mão, como se a queda fosse eminente. Um dia, de fato, caí – de uma roda gigante, aos pés de Mariana. Disse-lhe com ternura alcólica: posso ter quebrado todas as costelas e rachado o crânio, mas não estou louco: és a mulher mais bonita que vi em toda a minha vida. Levou-me para casa. Vivemos juntos por dez anos – ela trabalhava como enfermeira em um hospital, eu bebia. À noite, ela me contava das dezenas de mortos da noite, que dirigiam embriagados. Eu dizia: por isso não dirijo. Ela falava de doenças do fígado, eu falava de doenças do coração, deste amor que me põe febril dentro do teu umbigo, Mariana – a taça de Salomão. No décimo ano, na milésima garrafa, na mesma eterna embriaguez, ela disse que eu tinha de ir embora. Eu estava bêbado demais para entender suas razões ou mesmo para capturar completamente as conseqüências da sua orientação, mas acatei e saí da casa com a roupa do corpo. Érica, a puta, me encontrou na mesma noite, deitado entre dois cães de rua. Atirou-me sobre a cabeça uma moeda, a pretexto de caridade. Bêbado de gim e de sono, eu lhe gritei puta, eu tenho muito mais do que moedas. Acolheu-me, então, nesta casa que está sempre imunda, porque Érica bebe como eu. Cadela bêbada. Hoje, finalmente, gastei os últimos centavos de minha herança numa garrafa de cachaça. Beberei, depois avisarei Érica de que ela está pobre de novo. Pobre e bêbada. E que não me peça uma dose. Será, afinal, uma felicidade.
Da coleção de contos "Problemas com a bebida e outros problemas", no prelo.