Sexta-feira, Abril 29, 2005

No cinema

Há muitas manias estranhas. Há tantas manias estranhas quanto há pessoas estranhas que as pratiquem. A sala de cinema, como a própria arte do cinema, parece ser um espaço privilegiado no que diz respeito a pequenas rupturas com a normalidade. Lembro uma música velha de Caetano Veloso (se já citei até Clarice Lispector por aqui, cito Caetano Veloso também, pas de problème) que explica que de perto ninguém é normal. Parodiando-o (que desgraça parodiar Caetano Veloso) digo que no escuro ninguém é normal. Poderia dizer também, já que se trata do semi-escuro do cinema, que no escuro ninguém é invisível. E digo isso devido a estranha e lúdica postura de uma moça que sentou quase ao meu lado durante o último filme que assisti no cinema. Não faz muito tempo.

Ela não tinha vinte anos, tenho certeza. Era muito branca, os cabelos eram muito pretos. Era magra. Mas isso não importa muito. O que importa é que a moça não permitiu que eu visse o filme (e qual era o filme, você, curioso, me pergunta, mas qual era o filme também não importa), porque depois de apenas dez minutos de projeção a moça virou de costas para a tela e, como alguém que espreita de uma trincheira os inimigos à frente, ela se pôs a observar atentamente os outros espectadores.

Ela e eu estávamos em uma das primeiras filas; atrás de nós, os outros. Não me iludo, por mais que o queira: eu também seria parte dos outros, mas a falta de poltronas permitiu que, naquela noite, eu observasse a observadora, uma experiência peculiar que me deixou, ao final, satisfeito como se tivesse visto um filme sobre os inocentes, de Truffaut.

É preciso dizer que não havia nada de espetacular, exceto o fato de que ela estava de costas para a tela. Obviamente, estava mais interessada na expressão das pessoas ao assistirem o filme do que no próprio filme. Talvez já o tivesse visto. Talvez visse sempre duas vezes: a primeira como Doctor Jekill, acompanhando as imagens, a segunda como Miss Hide, desprezando-as. Há outras possibilidades e eu, observando-a, pensava em todas elas: talvez ela odiasse cinema, talvez fosse uma anacrônica comunista que virava as costas para todos os filmes como protesto. Mas ela era bonita, de maneira que descartei a possibilidade do comunismo. Outra alternativa: ela não odiava filmes; odiava pessoas: tinha uma arma escondida e assistia àqueles rostos sonolentos hesitando entre desprezá-los ou destrui-los. Não demorei muito tempo para concluir que essa idéia era absurda demais e retornei à realidade: ora, ela era apenas uma moça que, como muita gente, tinha a curiosidade natural de observar outras pessoas em atividades corriqueiras. Como eu também tinha. Lembrei do professor em Sociedade dos Poetas Mortos subindo sobre a mesa, procurando outra perspectiva, lutando para escapar ao afogamento. Senti-me inspirado (dê-me violinos!) e quis eu também voltar as costas para o filme e olhar, escondido na minha trincheira, os outros: talvez houvesse um namorado dormindo sobre o ombro da namorada (o filme era daqueles que chamamos de filme de arte), talvez um velho compenetrado com a mão no queixo, muito solene, e talvez Nicole Kidman estivesse, surpreendente, entre os espectadores e eu levasse um susto de felicidade.

Mas pensei bem e desisti e não imitei a moça - abafem os violinos. Sou egocêntrico e temi que meu gesto levasse os outros à mesma decisão, o que culminaria na expressão de espanto do rapaz do projetor - mas, mas, mas o que foi que eu fiz?

A sessão decorreu e a moça, durante os últimos quinze minutos de filme, voltou-se para a tela. Olhando, sorrateiro, percebi uma expressão de tristeza no rosto dela. Não quis raciocinar sobre uma razão exata para a tristeza, porque razões exatas empobrecem tudo, mas julguei, com pessimismo, que observar os outros só pode nos levar à melancolia. Senti-me tenebroso e mudei o olhar: ora, às vezes ficamos melancólicos ao final de uma experiência intensa. Eu estava de bom-humor: ela passara por uma experiência intensa através daqueles apáticos rostos. Essa explicação geral apaziguou meus pensamentos e eu deixei a sala, ainda observando a moça. O tumulto na porta, no entanto, me fez perdê-la. Talvez para sempre. Talvez para a próxima sessão.

*

Nota: pensei em terminar este post assim: E lá fora, sob as luzes, todos eram invisíveis, mas achei muito pomposo.

Quinta-feira, Abril 28, 2005

Na locadora - um fragmento de conversa

Eu já perambulava na locadora há cerca de dez minutos, quando um rapaz e uma moça entraram conversando, e se puseram a escolher um filme ao acaso. Ele devia ter vinte anos. Ela talvez tivesse um pouco menos. Quem por indiscrição se aproximasse e ouvisse a conversa dos dois compreenderia sem demora que ambos ainda se tateavam: desconfiados e dispostos, faziam-se perguntas, investigavam possíveis preferências em comum, ora se revelavam, ora se mascaravam. Se não estivessem tão preocupados em causar boa impressão, talvez sentissem as setas de Cupido instaladas de maneira escandalosa em suas costas.

Era um casal simpático e curioso. Não tenho problemas em admitir que sou irresistivelmente indiscreto e que me esforcei para acompanhar a conversa o quanto pude, sempre fingindo distração. Fingi tão bem, vejam só, que cheguei a segurar um filme de Pedro Almodóvar, o que eu só faria estando distraído. Ou com raiva. A conversa dos dois, do ponto onde alcancei até o momento em que tive de abandoná-los, sob o risco de ser descoberto, foi essa:

- Você acredita em Freud? - quis saber a mocinha, anacrônica, meio sem propósito, segurando Persona, de Bergman. Ela usava tênis all star cor de rosa, cano longo, uma fofura.
- Há coisas mais interessantes pra acreditar - o rapazola respondeu, grosso assim. Mas ele não era grosso de verdade.
- Que coisas? - a moça perguntou, sem ressentimento na voz, devolvendo o Bergman à prateleira. Estavam na sessão de filmes de arte e eu pude julgar que estavam muito satisfeitos com isso, o que é muito corriqueiro em jovens que acabam de entrar na universidade. Eu não tinha certeza, mas desconfiava de que eram universitários.
- Muitas coisas, Raquel: de duendes e unicórnios a funcionários públicos felizes.

Raquel, o nome dela era Raquel. Talvez ela tenha achado esse papo de unicórnio um tanto boiola. Eu achei. A piada ficaria suficientemente engraçada apenas com a participação dos duendes e dos funcionários públicos. Mas seguiram:

- Você acha que não há funcionários públicos felizes, Saul?

Saul, o nome dele era Saul. Eu achei esquisito.
- Não, não existem - ele respondia sempre com um tom muito decidido, como se suas opiniões sempre fossem conclusões extraídas de longas reflexões anteriores. Ninguém hoje em dia dedica-se a longas reflexões, de modo que qualquer pessoa inteligente perceberia que ele estava improvisando, seguindo a regra do bom-humor com alguma sagacidade. A moça talvez não percebesse, mas não se pode julgá-la: ela tinha uma seta instalada nas costas.
Em todo o caso, nesse ponto da conversa, ela o desapontou, temporariamente:

- Meu pai é funcionário público e é feliz - ela disse, sem sorrir. A única pertinência em dizer isso seria dizê-lo com um sorriso, uma tímida risada - ih ih. Mas ela não riu. O que pretendia? Constrangê-lo? Eu pude imaginar o que se passava na cabeça do rapaz: ó, ela não é inteligente o bastante pra perceber que brinco, ao menos inteligente o bastante para não me levar totalmente a sério? Mas tanto eu quanto ele a tínhamos tomado por tola precipitadamente, porque logo em seguida ela consertou tudo:

- Não precisa ficar assim feito boboca, eu só brinco - ela disse isso e sorriu, pegando um filme de Godard, lendo a sinopse. Ele respirou aliviado e a seta se acomodou melhor à sua carne. No entanto ele detestava Godard, porque imediatamente segurou a mão dela, com delicadeza, tomou o filme e recolocou na prateleira, com uma expressão de desgosto afetado - arght. Os dois se olharam e sorriram.

- Você detesta Godard?
- Eu gosto mais de outros sujeitos.
- Tipo?
- Não são tipos, são sujeitos. Godard é um tipo.
- Seu boboca - ela dizia a palavra boboca de um modo que soava como meu bebê: ele devia estar adorando aquilo. Eu estaria. Se ele não estivesse, era um boboca soando a boboca mesmo.
- Não é arrogância, mas é que desde que o Renato Russo citou o Godard em Eduardo e Mônica, o diretor perdeu todos os créditos.

Aqui temos de concordar que, procurando ser engraçado, ele só conseguiu ser banal. Eu o perdoei. Acho que ela também.

- Ah, não fale assim: Eduardo e Mônica é uma música bonita - ela disse isso e em seguida começou a emular o contrabaixo da canção, com uns dubidubas graciosos. No lugar dele, ou eu sairia correndo pra comprar uma camiseta com a cara barbuda do Renato Russo estampada ou a beijaria imediatamente como se ela fosse a Kim Novak e eu fosse James Stewart - ambos desfalecendo sob a mesma nítida vertigem. Mas ele foi mais forte e se controlou.
Abandonaram a sessão de arte e foram aos clássicos. Por um segundo, ele reparou nela dos pés à cabeça, e sorriu: deve ter adorado o modo como, vez ou outra, ela ficava na ponta dos pés, tentando enxergar os filmes das prateleiras mais altas. Sugeriu então algum filme com Audrey Hepburn. Ela sugeriu algum filme em Paris. Eu, que ouvia tudo sempre e que tinha nas mãos Cinderela em Paris, não resisti e fui colocá-lo de volta na prateleira, bem em frente aos dois. Reparei que me olhavam enquanto eu me afastava, depois se entreolharam e pegaram o filme.

Não pude ouvir o que conversaram diante do balcão, esperando para serem atendidos, mas fiquei satisfeito de ter, de certa forma, escolhido o filme pelos dois. É sempre bom estar ao lado de Cupido, porque o anjinho arqueiro é perigoso, basta lembrar o que ele fez com o todo-poderoso Apollo e a toda beleza Dafne. Segundos depois, no entanto, me lastimei: se não me intrometesse, provavelmente eu ganharia mais alguns minutos de boa distração, satisfeito na milenar ocupação de ouvir a conversa alheia.

Ainda os vi deixar a locadora, de mãos dadas. Ela recomeçou o contrabaixo, dubiduba, só pra fazê-lo rir. Olhei mais um ou dois minutos para as prateleiras fartas de filmes, considerando a possibilidade de um Brando. Talvez um brandy, eu pensei, e sorri comigo, bobo.

Deixei a locadora sem alugar filme algum: eu precisava fazer um telefonema.


Quarta-feira, Abril 27, 2005

Leio na internet a notícia de que um remake de Os Pássaros, de Hitchcock, está sendo produzido. Não posso imaginar algo mais desnecessário (na verdade, posso, basta imaginar o nascimento do Djavan ou da Marisa Monte, mas isso não me interessa). Um bem maior para a humanidade seria lançar o filme outra vez no circuito comercial. Se você vai a um shopping onde Os Pássaros, na versão original, está em cartaz, tenha certeza: sua qualidade de vida melhorou, mesmo se você for idiota demais para perceber isso. Entre os passantes, você caminha distraidamente, contorna as mesas da praça de alimentação, repara em um tênis bonito na vitrine. Faz tudo isso como já o tinha feito em outras ocasiões, e no entanto o ar está mais fresco, a iluminação está mais nítida: porque Hitchcock está em cartaz, até os livros na prateleira da Siciliano são melhores. É o milagre de Os Pássaros, o milagre de Tippi Hedren, como a folgosa Melanie. Ou melhor: seria o milagre. Seria Tippi Hedren. O que vem por aí é um remake que só promete piorar a sua vida, mesmo se você for idiota demais para perceber isso.

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Eu cometi um pecado no post anterior. Citei um trecho de um poema de Shelley e, dentro do contexto, passo a impressão de que a mulher do poema de Shelley é menos interessante do que a mulher do poema de Baudelaire. Isso não é verdade e quero deixar isso claro. Reproduzo outra vez a primeira estrofe do poema, que se chama She Walks In Beauty:

She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that 's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes.

Primeiro: não há tradução satisfatória. Nunca há tradução satisfatória para poesia. É exatamente como assistir a um filme dublado. É possível assistir a um filme de Woody Allen dublado? Não há quem suporte. Uma das razões para se assistir um filme de Woody Allen é justamente ouvir aquela voz vacilante, e não qualquer voz. Sem ela, o filme vira qualquer coisa como um trambolho, um troço de mal gosto. O mesmo para a poesia: traduzir esses versos de Shelley é como entrar num silencioso salão aristocrático e se pôr a rebolar, entoando: "Eu amo a minha Bahia!".

Mas volto à defesa do poema: preciso dizer alguma coisa? Não preciso, mas digo, porque me entusiasmo: She Walks In Beauty, apenas esse verso, é capaz de deixar um espírito sensível tecnicamente atrofiado: oh my, she walks in beauty. E a delicadeza, o cuidado, o esmero da descrição é comovente:

And all that 's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes.

O que mais gosto nestes versos é a escolha do palavra aspecto. Eu imagino imediatamente uma silhueta esbelta, altiva, aristocrática. Toda a poesia do Alto Romantismo inglês foi escrita como odes antecipadas para Nicole Diver, de Tender Is The Night, e para Daisy, de The Great Gatsby, os dois grandes romances de Fitzgerald - sim, sempre retorno a esses romances: estou eternamente bêbado deles. A musa compõe um movimento sutil, que tentamos acompanhar com um olhar obsessivo, mas algo sempre nos escapa. Essa ausência está em cada verso de Shelley.

And her eyes.
Ah, seus olhos, seus olhos, doces olhos: ela, que passeia envolta em beleza.

É uma pena que toda a idéia do Romantismo tenha se tornado tão vulgar. É uma pena que toda a vida tenha se tornado tão vulgar: bebemos cerveja e dançamos em lugares sujos e abafados. Eu não sei. Não quero ser melodramático. Talvez eu esteja precisando ver outro episódio de Seinfeld para recompor o meu sarcasmo.

Enfim, poetry, poetry: seja em verso ou em prosa.




.

Domingo, Abril 24, 2005

PERCA SEU TEMPO COM LITERATURA


Há muitas tradições dentro da literatura: ao longo dos séculos, alguns escritores decidiram escrever sobre guerras, outros preferiram estórias sobre dráculas ou sobre don juan, e outros - menos imaginativos - optaram por dramas de ansiosos burgueses na cidade. São várias perspectivas de observar o bicho da terra tão pequeno: os cantores da guerra observam o que há de grandioso e heróico; os contistas do sobrenatural abordam o que há ali atrás de você, escondido no escuro (run, you idiot!); já os crônistas citadinos abordam o que a vida parece ser, sob um ângulo pessimista - nem todos os estudantes que leram Nietzsche fervorosamente matariam a velhinha sangue-suga, mas estes são desinteressantes demais para a literatura. Há outras tradições. Ou apenas uma tradição: Shakespeare, para aquele crítico tristonho, Harold Bloom, é toda a literatura ocidental, sendo constantemente atualizado. Não sei, no entanto, se Shakespeare inicou a tradição sobre a qual quero escrever aqui. Não é exatamente uma tradição: é um motivo literário, uma pequena tradição, por assim dizer. Até onde investiguei, ela começa em Baudelaire, aquele poeta francês de talento exuberante que vez ou outra é reduzido a um poema sobre uma carniça. Uma coisa: esse post provavelmente ficará um tanto longo, de maneira que dou licença pra você me abandonar agora. Se quer ir, vá. So long. I won't miss you. Pode ir mesmo. Anda, anda. Nem estou olhando. Não quer ir? Quer ficar? Jura? That's great. Ok, então. Deixa eu ver por onde começo.

Bem, a pequena tradição desse motivo literário começa com Baudelaire perambulando por Paris, por volta de 1857. Um tumulto: imagine a multidão fluindo de um lado a outro: é a cidade e tudo é alegoria pour le poète maudit. Baudelaire, num certo sentido, inventou a poesia da modernidade. Por poesia da modernidade, compreenda poesia do efêmero. É ele também o poeta enquanto persona por excelência - aquela coisa sobre o poeta ser um fingidor: o lirismo de Baudelaire é sempre ficcional, surge dentro de uma situação dramática, e a situação dramática é o caos da cidade, que cresce a seus sentidos - estou sendo muito chato? Se estou, dou licença mais uma vez para você ir embora. Mas continuo para os que ainda resistem e ficam: de súbito, all of sudden, de dentro do tumulto, surge, majestosa, a visão, o símbolo irresistível, la belle: Baudelaire avista, entre o fluxo de transeuntes, a mulher que passa. Oh my. Ele não pode respirar e você também não poderia. Desde que existem homens, mulheres e cidades, houve um homem que avistasse a bela mulher que passava. Mas Baudelaire ficcionalizou o sentimento num quadro exato, e dentro de um contexto particular, totalmente novo: o das cidades modernas, em que tudo aparece apenas para desaparecer um segundo depois, como um fantasma. Leia o poema. Ponho primeiro em francês, mas logo em seguida ponho uma tradução para os infelizes que não lêem absolutamente nada en français:


A Une Passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit ! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?

Ailleurs, bien loin d'ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais !


*

A Uma Passante


A rua em derredor era um ruído incomum.
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão suntuosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que embala e o prazer que mata.

Um relâmpago e após a noite! - Fugitiva beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes meu destino, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais!


A tradução é de Ivan Junqueira, que traduziu integralmente As Flores do Mal. Você lê o poema e é tão fascinante que tudo o que eu disse acima parece baboseira - e realmente o é. Mas eu preciso me distrair de alguma forma, de maneira que babo ainda mais: a dor insuportável da situação dramática é que o poeta - você! - tem plena consciência de que ela - ela! - que passa e se afasta sabe muito bem que você a teria amado, que você teria se subjugado à mais sutil carícia que ela, distraída, lhe oferecesse. Há uma diferença crucial entre a mulher do Alto Romantismo e a passante de Baudelaire. Shelley, poeta inglês romântico, antes de Baudelaire, escreveu:


"She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that 's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes.
(...)
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!"

Mas o amor da passante de Baudelaire não é inocente: é destruidor. A visão da bela que passa provoca, para além do encanto de Shelley, ansiedade. Baudelaire é o primeiro a tratar a angústia diante da fugacidade e do caráter aleatório dos acontecimentos na vida moderna. Depois de Baudelaire, muitos poetas irão ficcionalizar o mesmo sentimento, através do mesmo motivo, quase sempre sem a mesma força, criando essa tradição desse motivo literário. No Brasil, um exemplo é Vinicius de Moraes, neste poema:


A Mulher Que Passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Seu dorso frio é campo de lírios,
Tem sete cores nos seus cabelos
sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas,
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

(...)

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.


A fugidia beleza de Baudelaire aqui é expressa como a mulher que tem raízes como fumaça: a ansiedade é o tom, there's no time: o poeta, em vez de descrever a mulher, tenta apreendê-la através da linguagem, procura guardá-la, mantê-la. E é inútil.

No filme, "Closer", há a sugestão do quadro da mulher que passa. Mas um carro a atropela e ela (olha o eco...), que passaria, permanece: ele, por sorte, ganha a chance de guardá-la, ao som de Damien Rice.

Sugiro, para quem por questão de honra ainda me lê, o poema A Uma Passante Pós-Baudeleriana, de Carlito de Azevedo, que procura abandonar justamente esse tom de urgência, suavizando a cena dramática. Deve haver na internet em algum lugar. Não vou entregar tudo de bandeja. Há também um poema de Walt Witman sobre o mesmo tema, mas a perspectiva é outra: Walt Witman é um poeta tão fundador quanto Baudelaire e poetas fundadores instauram suas próprias mitologias.

Eu já escrevi demais. Tinha outras coisas a dizer, todas sem importância, como as que disse acima. Direi em uma próxima ocasião. Mas só um detalhe: em Un long dimanche de Fiançailles, cujo título em português virou Eterno Amor (arght!), um ex-combatente recita a primeira estrofe de um poema de Baudelaire, O Albatroz. Vale a pena ler o poema, e vale a pena ver o filme.

Agora, como Mário disse: tem mais não.




.

Quinta-feira, Abril 21, 2005

O que mais gosto nestes esparsos dias de nuvens carregadas é o guarda-chuva. O meu guarda-chuva é tradicional: preto, como o de um velho compenetrado. Sinto-me bem quando me sinto como um velho compenetrado. Não gosto daqueles velhinhos que olham para um casal de namorados com um sorriso saudoso desenhado na boca abobalhada. Velhos devem olhar com desdém para os jovens casais de namorados. Pois bem: com o meu guarda-chuva preto em punho, me imagino assim, um velho de gestos nobres, caminhando por alguma alameda entardecida. Na verdade, imagino que o guarda-chuva é uma bengala. Bengalas são charmosas. Ao atravessar uma praça ou o bosque da Universidade, imagino-me dispersando uma rude turba de estudantes revolucionários a bengaladas. Nada de gestos desajeitados e apressados: tudo muito calculado e sóbrio. Uma bengalada neste boboca com camisa de Che Guevara, outra bengalada neste paspalho recitando um poema com obscenidades gratuitas a cada estrofe. Imagino isso e me sinto bem. Oscar Wilde, se tivesse vivido para envelhecer, teria sido o mais compenetrado dos velhos. Há poucos velhos compenetrados hoje em dia. É difícil encontrar algum, seja de 80 anos ou de 22. Por isso, se você me vir atravessando a rua, segurando o meu guarda-chuva tradicional, use sua criatividade e imagine que ali vai um raríssimo exemplar de velho compenetrado. Será quase uma epifania.

Quarta-feira, Abril 20, 2005

Quem por gosto aprecia um quadro de Cézanne ou de Gustav Klimt, quem inevitavelmente se emociona ao ouvir o segundo movimento da décima sexta sonata de Beethoven, quem lê Walt Whitman noite adentro até os olhos cansarem pode, por vezes, num misto de satisfação pela excentricidade e de desconforto, crer-se parte preciosa de uma minoria, de um seleto grupo que aparentemente se torna cada vez mais sufocado pela gritaria e pela irritante movimentação de milhões e milhões de pessoas (sic) por toda parte, a toda hora, milhões e milhões que, de um modo ou de outro, acabam por dar um jeito de se enfiarem todas no apartamento imeditamente junto ao seu, com o infame intuito de ouvir em desatino a nova canção de algum ícone do mau gosto. É noite e o rapaz, ávido por encontrar-se com a pálida imagem de Nicole Diver, folheando com apego as páginas de Tender Is The Night, de súbito vê-se obrigado a fechar o livro, deixá-lo sobre a cama e ir jogar a paciência pela janela.

Alguns resmungos e algumas cabeçadas contra a parede depois, a turba no apartamento ao lado se dissipa e se aquieta, e o rapaz, abalado, pode voltar aos campos elísios da leitura. O que por vezes escapa a esse sujeito judiado pelos capangas da baixa cultura é uma certa verdade sutil, que talvez o orgulho trate de recalcar: ele, por mais absurdo que possa parecer, é, na verdade, parte de uma maioria. Sempre foi, sempre será. Sozinho em seu apartamento, assistindo a filmes antiquíssimos - porque sabe assistir a filmes antiquíssimos -, ele é parte de uma maioria. Pode até se contrariar e correr à livraria mais próxima afim de comprar As Metamorfoses, de Ovídio, para ler compulsivamente: ele ainda é parte de uma maioria.

Há muitas décadas atrás, alguém de coração jovem abria Tender Is The Night e vigiava os passos de Nicole. Sim, podemos imaginá-lo com mãos apressadas (repare como é atrapalhado!), colhendo a poesia que a musa, sem pudor, entornava no chão. Se pudéssemos avançar muitas décadas no tempo, encontraríamos outro coração jovem, de mesma índole, sofrendo com a mesma intensidade à aparição de Nicole. A História de todos esses silenciosos apreciadores da Arte tem de ser, por lógica, a história de uma maioria.

Para ser excêntrico, portanto, os passos são simples: cultive modos grosseiros, não leia nada a não ser revistas e bulas de remédios para micoses, dance freneticamente ao som de alguma rude batucada, exatamente como um macaco reagiria - as letras, rigorosamente, devem rimar amor e dor. Seguindo com minúncia essas intruções, você se integra a uma regular minoria que, apesar do disfarce de maioria, sempre desaparece, minguada, frouxa, sem deixar saudade.

Mas se você, por outro lado, quer estar entre as massas, se deseja ser apenas mais um, leia Homero, o poema da guerra e o poema do mar. Leia todos eles: Shakespeare, Cervantes. E leia, com gosto, Tender Is The Night: encontre você mesmo a beleza e os gestos nobres de Nicole Diver, na Riviera Francesa, naqueles fabulosos anos 20.




.

Segunda-feira, Abril 18, 2005

Há poetas íntimos das flores, ainda que não haja poetas e ainda que não haja flores.















Você lembra.



.

Domingo, Abril 17, 2005

Cansei de tanta arrogância. Vou tirar um cochilo.





















.

Sábado, Abril 16, 2005

ABOUT TV

Não, eu não vou desligar a TV e ler um livro. Vou aumentar o som. Por que diabos incentivar as pessoas a desligarem a TV e irem ler um livro? É grosseria para com a Literatura. A Literatura não precisa que idiotas desliguem a TV e abram um livro. A Literatura dispensa tais idiotas. É simples: quem quiser, que leia. Quem não quiser, que permaneça estúpido, escavando o grude do umbigo.

E ainda na TV, entre fanáticos e curiosos, um rapazinho gorducho de voz afeminada me diz que cearenses de verdade têm de gostar da Natália Nara. Ok, cearenses de verdade têm de gostar da Natália Nara, mas vamos falar que gostamos dela com voz de macho, por favor, assim se justifica.

Por último: vou ver Audrey Hepburn agora. Na TV. Two For The Road. Seres humanos de verdade têm de gostar de Audrey Hepburn.



...

Sexta-feira, Abril 15, 2005

Seinfeld voltou ao início hoje. Ontem foi o último episódio, de uma hora de duração, com boa parte das vítimas dos quatro personagens mais engraçados da TV prestando depoimento contra eles. Já vi provavelmente todos os episódios duas vezes e - nada posso fazer - verei uma terceira. Recentemente, saiu o livro Seinfeld e a Filosofia. Vários ensaios de vários autores apontando semelhanças entre o pensamento de Seinfeld, Kramer, Elaine e George e filósofos ocidentais. Pretendo comprá-lo, vale pela curiosidade. Todos os bons livros valem essencialmente pela curiosidade. Crime e Castigo? Vale pela curiosidade. Príncipe Hamlet? Vale pela curiosidade. O sentido da crítica literária é justamente tornar o livro mais curioso ainda. Seinfeld e a Filosofia possivelmente consegue deixar a série mais curiosa. Se não, é só fechar o livro.

- Você acha Seinfeld tão valioso quanto Shakespeare?!
- Não, não acho.
- Eu acho que você acha, eu!
- Seinfeld é valioso a uma e meia da tarde, quando ligo a TV na Sony.
- E Shakespeare?
- Shakespeare, por acaso, já era valioso antes de eu nascer e o continuará sendo depois que você estiver devidamente morto.
- Eu?!

Isso de ensaios sobre Seinfeld é coisa bem da nossa época. Qual o sentido de ensaios sobre Seinfeld? Não basta assistir? Já não é perda de tempo ligar a TV e assistir? Primeiro ponto: não é perda de tempo ligar a TV e assistir a Seinfeld. Julgar que isso é perda de tempo é coisa de jovenzinhos da universidade que crêem que ninguém escreveu algo inteligente além de Marx (pessoas assim confundem inteligência com bons sentimentos). É também coisa do pessoal da Psicologia, logo: é algo ruim. Segundo ponto: sim, basta assistir. Assistir é a melhor parte. Ler um livro de ensaios, no entanto, pode ser divertido também. Isso só descubro lendo. Em último caso, é uma maneira de se distrair. Terceiro e último ponto: qualquer níquel relacionado a Seinfeld é um bilhão de vezes mais curioso do que todos os episódios de Gilmore Girls, OC ou coisa do tipo sendo transmitidos simultaneamente. Seinfeld, seis anos depois, ainda merece um urro:

I LOVE MY TV!!!

E, neste domingo, maratona de LOST às três horas da tarde. Seis episódios seguidos. Já os assisti, mas quero ver uma cena ou outra de novo (o segundo episódio termina com uma canção muito bonita...queria saber de quem é!). Outra coisa: acabei de assistir a 9 Songs, do mesmo diretor de 24Hours Party People. Não me dei ao trabalho de procurar o nome do sujeito. 9 Songs é basicamente rock e sexo com um pianinho melancólico ao fundo tentando imprimir alguma emoção à promiscuidade. Cool?


"L'action n'est pas la vie, mais une façon de gâcher quelque force, un énervement" - Rimbaud disse isso.



.

Quinta-feira, Abril 14, 2005

Perca seu tempo com Literatura

Muita gente lê Oscar Wilde à procura de aforismos, o que não é exatamente uma motivação mesquinha. As Grandes Verdades de Wilde estão entre as passagens mais divertidas da literatura, como as máximas diabólicas de Blake. Um exemplo: Os que são fiéis conhecem apenas o aspecto trivial do amor. Os infiéis é que sabem das tragédias do amor. Uma frase assim é eternamente jovem e eternamente cínica, e deliciosa. O Retrato de Dorian Gray está cheio delas, a cada suspiro entediado de Lord Henry. Mas elas aparecem ainda mais abundantemente nos diálogos de A Decadência da Mentira. Qualquer pessoa de bem deveria ler A Decadência da Mentira. Reconhece-se uma pessoa má pelo fato dela ter lido, em se tratando de Oscar Wilde, apenas O Retrato de Dorian Gray. Assim age a pessoa má: delicia-se com as suntuosas descrições de Wilde, ri-se das sentenças de Lord Henry, abisma-se com o sabor clássico da conclusão trágica do romance. Logo após, fecha o livro e julga-se entendido em Wilde. Pior: julga que Wilde já lhe deu tudo o que tinha a oferecer (sem ambigüidade aqui, por favor). Eu digo: Oh my, Oh my. Vamos agir como pessoas de bem. Vamos ler mais.


*


- Você acha que tem um rei na barriga, né?
- Em verdade, mon cher, tenho o rei, a rainha, as princesas, tenho toda a cavalaria, os arqueiros e o mago Merlin.
- Seu panaca!
- Blasfeme, que Merlin lhe prepara uma magia.
- Seu panaca!
- Merlin, por favor.
De súbito, o herege metamorfoseia-se em jegue. Parece contente agora, mascando capim. Quase posso dizer que me sorri, agradecido.



*


Duas lições dos clássicos da Literatura Latina sobre o amor (já cansado de tanta balela sobre literatura? Get out of here, you bastard!):

1

E aquele que evita o amor não fica privado dos frutos de Vênus, mas antes recolhe aquilo que é agradável e sem as dificuldades. Efetivamente, o prazer que recolhe o que se conservam frios é mais puro do que o dos desvairados.
(Lucrécio, em Da Natureza das Coisas)

Wilde deve ter se contorcido de júbilo ao ler isso. Wilde era lucreciano.

2

Não prometas com timidez: as promessas é que prendem as mulheres; invoca o testemunho de todos os deuses que quiseres. Júpiter, lá do alto, assiste rindo aos perjúrios dos amantes e ordena aos ventos de Éolo que os desfaçam. Júpiter costumava jurar falso à Juno, invocando o Estige; agora ele se mostra favorável aos que seguem o seu próprio exemplo.
(Ovídio, em A Arte de Amar)

Só uma pessoa má consegue ler uma orientação tão calculada quanto essa de Ovídio e não sorrir, satisfeitíssimo. Os romanos antigos, como os gregos, eram exatamente como nós. Quer dizer, quase exatamente: eles escreviam grandes obras. Hoje, só temos escritores-pregadores-da-boa-moralidade, seja a boa moralidade burguesa, seja a boa moralidade que se pretende marginal. No fim das contas, é a mesma moralidade desprezível.


(algumas aspas e trechos em itálico estão faltando: meu computador é uma geringonça: me perdoem)


.

Quarta-feira, Abril 13, 2005

Pensei em escrever qualquer lamúria sobre o aniversário, mas resolvi deixar apenas um verso de Eliot, retirado de contexto, para explicar tudo:



"April is the cruellest month"




.

Terça-feira, Abril 12, 2005

A faculdade não deve ser um espaço de discussão. O professor deveria ser proibido de indagar aos alunos: "Então, pessoal, o que vocês acham?". Ninguém deveria achar nada. Se, numa infelicidade, o professor acaso esquecesse o protocolo e soltasse a maléfica pergunta, deveria imediatamente mudar de assunto, disfarçar de qualquer modo, imitar um macaco, apontar o Super-Homem voando em círculos sobre a Biblioteca: Mas, olhem, é o Super-Homem!. Os alunos voltariam os olhos ávidos para cima do prédio carcomido, consentindo o tempo necessário para o professor refazer-se da gafe com goles de água e giz-fizz. Porque os alunos nada têm a dizer, absolutamente nada a acrescentar, exatamente como os professores, em geral. As estratégias de didática, incentivando o debate, ainda vão me levar ao coma súbito dentro de uma sala de aula (o que seria uma felicidade para alguns, eu sei). Não que eu tenha algo a acrescentar - escrevo este blog apenas por petulância. Em sala de aula, conservo-me quieto, esperando que o tempo passe, que é o mais lúcido que se há para fazer. Melhor seria ficarmos todos em casa, lendo Flaubert, parando apenas para assistir aos Simpsons. Só iríamos à faculdade para comentar como foi engraçado ver o Bart escrever "U. ASS A." ou como a senhorita Bovary, mesmo tapadinha, é um bilhão de vezes mais interessante do que toda a literatura moderna ou pós-moderna (?) brasileira. Isso seria divertido e justo.

Domingo, Abril 10, 2005

"De mãos dadas, continuamos.
- Tudo isso é como um sonho - disse - e eu nunca sonho.
- Como aquele rei - replicou Ulrica - que não sonhou até que um feiticeiro o fez dormir em uma pocilga.
Acrescentou em seguida:
- Ouve bem. Um pássaro está prestes a cantar.
Pouco depois ouvimos o canto.
- Nestas terras - disse-lhe -, pensam que quem está para morrer prevê o futuro.
- E eu estou para morrer - disse ela."

(Jorge Luis Borges, "Ulrica", O Livro de Areia)

Sexta-feira, Abril 08, 2005

Neverland era um lugar muito bonito antes de Michael Jackson. Se você voasse até lá, poderia participar de aventuras inenarráveis ao lado do sempre divertido Peter Pan - aquele menininho simpático que Freud tentou estrangular. Poderia também desejar que a sininho não fosse tão pequenininha: assim ela conseguiria sustentar a flor que você sempre quis dar pra ela. Mas não. Agora tudo isso é impossível, porque a todos esses significados bonitos que se aninham na palavra Neverland vieram juntar-se as bizarrices de Michael Jackson. Há pouco tempo, eu defendia o sujeito, argumentando que quem compôs "Rock with You" podia até ser perdoado por apalpar criancinhas. Mas hoje, ao ouvir "I Didn't Understand", uma das mais delicadas canções de Elliott Smith, onde, com voz doce e magoada, ele canta "you once talked to me about love and you painted pictures of a never-neverland", eu lembrei, à revelia de meu desejo, da casa de exercícios pedófilos do negro que virou branco. Ou seja: a idéia - o ideal - resguardado na palavra Neverland, na minha cabeça, está sendo carcomido pelas diárias alusões de jornais e comentários em geral à Neverland de Michael Jackson. Não há como fugir do assunto: o assunto está por aí, te pega de surpresa. Eu gostaria muito de poder guardar minha imagem bonita da Neverland na concha de minhas mãos e me esconder em algum porão no alto de uma colina enquanto esse maldito julgamento e a polêmica em torno dele não se acabam. Mas isso também é impossível, de maneira que resto aqui, indignado, vendo a Terra do Nunca, com seus seres do nunca, ser invadida por essa gente de sempre, bizarra e doente. E em tempo: eu nunca entendi porque as pessoas se espantam com o fato de um negro ter virado branco. O que seria realmente esquisito é se o sujeito tivesse virado azul ou cor de burro quando foge.

Quinta-feira, Abril 07, 2005

Fatigadíssimo, fatigadíssimo. Mas hoje, chegando da faculdade, permiti-me um pecadilho: pus "Stand by Me", do Oasis, e dancei. Tinha visto o clip de manhã, muito cedo, na MTV. Atravessei a jornada com a melodia corrompendo meus pensamentos sérios. A música tem um riff nitidamente surrupiado dos Beatles. Eu não reparava nisso antes. A letra é boba, a harmonia é boba, a melodia é boba. Enfim: é a canção perfeita. Em 1997, quando me transferi para essa cidade insuportavelmente clara, a MTV era divertida: Blur (Song 2), Verve (Bitter Sweet Symphony) e Oasis estavam no topo. Até o Green Day era cool na época. E eu não sabia o que era literatura, de maneira que eu podia agir como um boboca impunemente. Ainda ajo como um boboca, mas agora amparado e acossado por diversas teorias, o que torna a coisa toda mais boboca ainda. O que quase me consola é que há bobocas mais bobocas do que eu por aí, arrotando Foucault. Nessas horas, eu queria ser o Paulo Francis e bocejar: "Waaal". Mas não sou, por isso cantarolo: "So what's the matter with you? Sing me something new". E me sinto razoavelmente bem.

Domingo, Abril 03, 2005

Na livraria, Ludovico passeia os olhos pela sessão de literatura americana. Há muitos títulos pomposos e idiotas, como "A Fragrância da Enseada", porque quem organizou as prateleiras acha que literatura ruim tem nacionalidade. Literatura ruim não tem nacionalidade. Veja o Paulo Coelho, por exemplo: o próximo livro terá lançamento lá pelo Irã ou coisa que o valha. E por que? Porque escreve literatura ruim. Mas se ignora esteticamente seus romances, Ludovico, por outro lado, admira Paulo Coelho pela versatilidade: seus livros servem para pessoas tapadas se julgarem inteligentes, lendo-o, do mesmo modo que servem para pessoas não menos tapadas julgarem-se inteligentes, denegrindo-o. As não menos tapadas e certamente mais odiosas achincalham Paulo Coelho e se esbaldam com Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. Repetem: "Ah, eu adoro a Clarice, muita subjetividade, sabe? E o Caio, adoro o Caio". Subitamente cansado, Ludovico lança um olhar desdenhoso para a prateleira de literatura brasileira: Clarice Lispector é leitura para donas de casa e só os gays ainda trancafiados no armário aturam Caio Fernando Abreu. Volta os olhos para a literatura americana: entre os títulos pomposos, encontra seu querido Fitzgerald: uma nova edição para o magistral "O Grande Gatsby". Quer sentar-se e folhear o volume, reparar na tradução, mas as poucas cadeiras estão ocupadas por garotas sem livros nas mãos. A livraria fica dentro de um shopping e as garotas, serelepes, ao invés de irem sentar-se em bancos quaisquer ou no providencial raio que as partisse, tratam de ocupar as poucas cadeiras da livraria exclusivamente para irritar Ludovico, que as observa, olhando-as mexer nos cabelos e reparar nas unhas. Ludovico deseja-lhes o mal: projetos de rameiras iletradas. Sem consolo, guarda Gatsby na prateleira. Não está disposto a ficar em pé por muito tempo: meia hora antes, estufara-se com frango ao molho agridoce. Cabisbaixo, retira-se e vai sentar-se a um banco qualquer, ignorado. Na cabeça, a música é "Pissing in the Wind".

Sexta-feira, Abril 01, 2005

Eu escrevo poemas ocasionais. Não que surjam exatamente do acaso, mas também não surgem exatamente quando eu quero. João Cabral de Mello Neto compreendia a escrita do poema como um trabalho como qualquer outro. É uma idéia bem típica da nossa época: tudo é um trabalho como qualquer outro, logo, qualquer um pode escrever um poema, se se esforçar, do mesmo modo que qualquer um pode pilotar um carro de Fórmula 1, se se esforçar. A essa espécie de pensamento chamam "politicamente correto". Mas não é bem assim: eu não posso pilotar um carro de Fórmula 1 e nem todo mundo pode escrever um poema. Claro que o que Cabral queria era destruir urgentemente para o atrasado público leitor brasileiro a visão mística que se criou sobre o ato de escrever. A idéia veio do Romantismo, da estética do gênio: o poeta seria o "voyant", o profeta iluminado, a criatura "inspirada". A inspiração para os gregos antigos é coisa diferente da inspiração dos românticos. Tem a ver com os deuses e funcionava bem numa época em que havia deuses. Os românticos não possuíam deuses e o que pretendiam era divinizar o ego do poeta. Já no modernismo a idéia foi demolida - T.S. Eliot acusou os românticos de tornarem a poesia afeminada - mas Cabral, ao que parece, ainda se sentia incomodado: Cabral não queria ser um místico. O fato é que a criação de um poema, assim como de toda arte, envolve intuição e racionalização: Dioniso e Apollo nos protegem enquanto escrevemos o poema (não estou certo se o fazem a quem pilota um carro de Fórmula 1). Toda essa balela é para dizer que, depois de algum tempo sem escrever nada, veio-me um poema. Melhor dizendo: veio-me a poesia. O poema veio depois, e está aí, mais abaixo. Escrevi pensando na Paris de Baudelaire, que é também a Fortaleza de Adriano Espínola, e em sua passante perdida na eternidade. É curto: não é preciso grande sacrifício para lê-lo, talvez apenas do bom gosto. Do tempo, não.


la cité


ser íntimo das ruas
é caminhá-las:

a cidade é estar nela,
não sobrevoá-la;

tudo o mais é a mulher que passa.

(31/03/05)

(hoje é primeiro de abril. paris deve estar muito bonita. um doce clichê: april in paris. e eu vou fazer 22 anos, uma idade muito feia.)