No cinema
Há muitas manias estranhas. Há tantas manias estranhas quanto há pessoas estranhas que as pratiquem. A sala de cinema, como a própria arte do cinema, parece ser um espaço privilegiado no que diz respeito a pequenas rupturas com a normalidade. Lembro uma música velha de Caetano Veloso (se já citei até Clarice Lispector por aqui, cito Caetano Veloso também, pas de problème) que explica que de perto ninguém é normal. Parodiando-o (que desgraça parodiar Caetano Veloso) digo que no escuro ninguém é normal. Poderia dizer também, já que se trata do semi-escuro do cinema, que no escuro ninguém é invisível. E digo isso devido a estranha e lúdica postura de uma moça que sentou quase ao meu lado durante o último filme que assisti no cinema. Não faz muito tempo.
Ela não tinha vinte anos, tenho certeza. Era muito branca, os cabelos eram muito pretos. Era magra. Mas isso não importa muito. O que importa é que a moça não permitiu que eu visse o filme (e qual era o filme, você, curioso, me pergunta, mas qual era o filme também não importa), porque depois de apenas dez minutos de projeção a moça virou de costas para a tela e, como alguém que espreita de uma trincheira os inimigos à frente, ela se pôs a observar atentamente os outros espectadores.
Ela e eu estávamos em uma das primeiras filas; atrás de nós, os outros. Não me iludo, por mais que o queira: eu também seria parte dos outros, mas a falta de poltronas permitiu que, naquela noite, eu observasse a observadora, uma experiência peculiar que me deixou, ao final, satisfeito como se tivesse visto um filme sobre os inocentes, de Truffaut.
É preciso dizer que não havia nada de espetacular, exceto o fato de que ela estava de costas para a tela. Obviamente, estava mais interessada na expressão das pessoas ao assistirem o filme do que no próprio filme. Talvez já o tivesse visto. Talvez visse sempre duas vezes: a primeira como Doctor Jekill, acompanhando as imagens, a segunda como Miss Hide, desprezando-as. Há outras possibilidades e eu, observando-a, pensava em todas elas: talvez ela odiasse cinema, talvez fosse uma anacrônica comunista que virava as costas para todos os filmes como protesto. Mas ela era bonita, de maneira que descartei a possibilidade do comunismo. Outra alternativa: ela não odiava filmes; odiava pessoas: tinha uma arma escondida e assistia àqueles rostos sonolentos hesitando entre desprezá-los ou destrui-los. Não demorei muito tempo para concluir que essa idéia era absurda demais e retornei à realidade: ora, ela era apenas uma moça que, como muita gente, tinha a curiosidade natural de observar outras pessoas em atividades corriqueiras. Como eu também tinha. Lembrei do professor em Sociedade dos Poetas Mortos subindo sobre a mesa, procurando outra perspectiva, lutando para escapar ao afogamento. Senti-me inspirado (dê-me violinos!) e quis eu também voltar as costas para o filme e olhar, escondido na minha trincheira, os outros: talvez houvesse um namorado dormindo sobre o ombro da namorada (o filme era daqueles que chamamos de filme de arte), talvez um velho compenetrado com a mão no queixo, muito solene, e talvez Nicole Kidman estivesse, surpreendente, entre os espectadores e eu levasse um susto de felicidade.
Mas pensei bem e desisti e não imitei a moça - abafem os violinos. Sou egocêntrico e temi que meu gesto levasse os outros à mesma decisão, o que culminaria na expressão de espanto do rapaz do projetor - mas, mas, mas o que foi que eu fiz?
A sessão decorreu e a moça, durante os últimos quinze minutos de filme, voltou-se para a tela. Olhando, sorrateiro, percebi uma expressão de tristeza no rosto dela. Não quis raciocinar sobre uma razão exata para a tristeza, porque razões exatas empobrecem tudo, mas julguei, com pessimismo, que observar os outros só pode nos levar à melancolia. Senti-me tenebroso e mudei o olhar: ora, às vezes ficamos melancólicos ao final de uma experiência intensa. Eu estava de bom-humor: ela passara por uma experiência intensa através daqueles apáticos rostos. Essa explicação geral apaziguou meus pensamentos e eu deixei a sala, ainda observando a moça. O tumulto na porta, no entanto, me fez perdê-la. Talvez para sempre. Talvez para a próxima sessão.
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Nota: pensei em terminar este post assim: E lá fora, sob as luzes, todos eram invisíveis, mas achei muito pomposo.
