Logo nas primeiras páginas de Obrigado, Jeeves você se afeiçoa por Bertram Wooster e por seu mordomo de um modo franco, absoluto. Você, de imediato, abandona todas as suas concepções sobre como se portar em relação a si próprio e aos outros e, de bom grado, passa a acreditar em tudo o que eles acreditam. E é tão bom acreditar no que eles acreditam, tão apaziguador.
Bertram, ou mais intimamente Bertie, por exemplo, não põe dúvidas sequer por um segundo de que praticar disciplinadamente seu simpático banjolele é o que há de primordial e inadiável na sua rotina. Treinar a execução de I Want An Automobile With A Horn That Goes Toot-Toot é mais importante e justo do que qualquer convulsão frenética que possa estar a ocorrer nos apartamentos vizinhos. Jeeves, o sábio Jeeves, por sua vez, demonstra com eloquência ter muito clara para si a certeza de que uma citação literária apresentada no momento apropriado enobrece vastamente a nossa linguagem, o que só pode nos elevar (o que me leva a dizer que continuo acreditando, principalmente depois de assistir a filmes como A Má Educação, que elevação é a meta razoável para as minhas horas de apreciação artística, embora a idéia toda, sob o olhar do vulgo, possa parecer anacrônica).
Aqui me detenho um pouco mais, porque é justamente um dos pontos que mais me seduziram no livro de Wodehouse: a joie de vivre reflete-se com exatidão na conversação elegante, joie de parler. Bertie e Jeeves, quando dialogam (e eles dialogam muito e você quereria que eles o fizessem ainda mais), estão sempre à procura da mot juste, com bom humor e cumplicidade irônica.
Acompanhar essa cumplicidade irônica, sutil, entre Bertie, o patrão, dândi desmiolado segundo a opinião pública inglesa, e Jeeves, o mordomo de talhe nobre e cérebro brilhante (que tanto cita Keats quanto passa calças perfeitamente) é acompanhar a história por trás do enredo, ou melhor, o comentário sagaz e despreocupado por trás do enredo: Bertie e Jeeves estão sempre dentro e fora da trama, ora atuando ora medindo os atos, acertando as conclusões. Seja qual for a situação, mesmo quando Bertram parece atordoado com a possibilidade de ser obrigado a casar-se, os dois sugerem sempre uma aura de invulnerabilidade, como se, a qualquer instante, caso se entediassem, pudessem apenas dar de ombros e abandonar as inquietações.
O que é tudo o que nós gostaríamos de ter - essa invulnerabilidade, os protocolos e os códigos que protegem estes amáveis aristocratas (porque Jeeves, mesmo de bandeja na mão, não perde sequer por um segundo sua nobreza subjugadora). Talvez por isso seja tão bom ler Wodehouse: enquanto o lemos, as apoquentações se minimizam - a música, a expressão correta, o café da manhã divino, tais são as prioridades. E, claro, é preciso dizer: as gargalhadas, as muitas e inevitáveis gargalhadas.
P.s: eu apenas lamento não poder, ao fechar o livro, tocar a sineta e pedir a Jeeves que me traga logo o próximo volume, s' il vous plaît.
