Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

Entre as inumeráveis vantagens de ser um desenho animado, há uma em particular que muito me anima (trocadilhos, trocadilhos): sendo um desenho animado, ao ser esmagado ou achatado pelo peso insustentável da vida (ou pelo meu modo idiota de observar a vida), bastaria que eu soprasse o dedão de minha mão direita (ou da esquerda, tanto faz) para que de novo eu me insuflasse e voltasse ao normal - talvez até flutuasse alguns centímetros acima do chão, a depender do meu fôlego. Fácil, fácil. Sem dúvida há algum azar em não ser um desenho animado. Ser um personagem de uma tirinha também seria legal. Tipo, por pior que tudo pudesse ser, só duraria três quadrinhos. Dá para respirar e esperar passar, tranquilo.

only fools rush in, only fools rush in

Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

Há certos textos literários que, de tão ruins, são como velhos fusquinhas. O crítico tem de descer e empurrar, para ver se a caranga arranca.

(Mas fusquinhas velhos têm charme)

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Tenho de ler Clarissa, de Érico Veríssimo, para uma disciplina da faculdade. Parece-me o fecho de ouro: para sair completamente enjoado do curso, me obrigam a ler o romance de estréia de um escritor do Rio Grande do Sul, sobre uma menina-moça. Terem simplesmente me preparado uma emboscada e me espancado com volumes de Clarissa seria menos doloroso.

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For the price of a cup of tea
You'd get a line of coke
For the price of a night with me
You'd be the village joke

Não tenho muitas esperanças de que esse refrãozinho saia da minha cabeça. É possível que desapareça subitamente. Mas não creio.

Terça-feira, Janeiro 10, 2006

Ando com taquicardia. Semana passada julguei por alguns instantes que estava tendo um bom e velho ataque do coração. Não foi exatamente o melhor momento da minha vida. Uma amiga, no auge da preocupação, foi comprar uma coca-cola - para ela, não para mim. Seria uma boa oportunidade - provavelmente a última - de treinar o meu estoicismo: pedir uns goles de coca-cola no momento que poderia ser o definitivo. Na falta de uma boa frase (como a de Henry James: ''ah, here it comes, the big thing"), uns goles de coca-cola certamente não deixariam por menos.

Tudo isso me fez lembrar o clichê que as pessoas gostam de sacar quando o assunto é adoecer: há um lado positivo, coloca você em perspectiva. É algo realmente estúpido de se pensar. Se o sujeito está sofrendo do coração, ele está é por perder toda e qualquer perspectiva - isso se não cremos no bom sonho do Paraíso, onde lá poderíamos continuar com esse hábito de ter perspectivas. Mas o contrário também é possível. O moribundo, às portas de perder todas as perspectivas, lança-se ao encontro de todas elas, abraçando-as todas: o moribundo é o promíscuo das perspectivas. Assim sendo, o clichê ainda falha: não há nada positivo em estar desesperado.

Para minha sorte, no entanto, não há de ser nada. Apenas estresse da vida moderna agindo sobre meu ritmo, meu swing. Passa fácil com natação, relaxamento e tudo. É Ano Novo ainda.

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

Um ano em cujo terceiro dia há aulas para assistir não promete muito. Muito menos se uma das aulas a assistir ameaça trazer más notícias, como um desastre numa prova de literatura. No entanto, se o chamam Ano Novo, e se assim também o chamo, quero fazer justiça à expressão, ainda esperançoso na pertinência das palavras, de modo que este ano terá de ser de grandes novos projetos. Um deles será ler Tolstoi. Faz-se tanto caso. Eu também faço caso (não é segredo que sou do tipo que faz caso por essas coisas). Então lerei. Outro projeto é ler Proust. Tenho consciência do número de volumes. O que me anima nos dois é que nunca li uma página de nenhum deles (li alguns poemas de Proust e alguns trechos esparsos de boa prosa, mas nada que me desse uma noção de quem afinal é Marcel). Então é todo um mundo de personagens e paisagens completamente novo para mim. Fortaleza é muito chata. Eu realmente preciso disso.

Há ainda outros projetos, menos ambiciosos, como continuar sem perder episódios de LOST, assim como tentar não esquecer de assistir a Weeds, só porque Mary-Louise Parker, meu Deus, é linda. No campo do cinema, entretanto, não há nada traçado. Ontem fui assistir a Os Produtores e foi fisicamente insustentável. Com uma hora de projeção eu já estava com dor de cabeça e, se ouvisse mais uma vez a conversa de I want to be a producer, eu assassinaria alguém dentro do cinema. Sério.

Na música, continuarei tentando ser um geniozinho pop. Provavelmente sem grande sucesso.

If you want to shine
I got a car for you
I got a scar for you

Por fim, há outros projetos menos importantes, como arranjar um jeito de ganhar a vida (ou pelo menos a parte chata dela), decidindo por um mestrado, por um concurso, por alguma coisa. Tudo se ajeita. Por vias das dúvidas, continuo esperando pelo PHD em Psicologia que escreverá o livro Por Favor Não Perturbe Seu Filho Até Os 30 Anos Porque A Adolescência No Mundo Caótico De Hoje Se Estende Por Um Período Infinitamente Maior Do Que Há Décadas Atrás. É sem dúvida um título bastante aguardado e, logo que sair, comprarei para papai e para mamãe.

Feliz Ano Novo.