Quinta-feira, Maio 18, 2006

V de Natalie Portman

Já há alguns anos o único critério para julgar a qualidade de um filme é a iluminada presença ou a famigerada ausência de Natalie Portman no elenco. Não me venham falar das feridas políticas que o filme eventualmente incomoda, e muito menos das profundas reflexões sobre a inadequação do indivíduo na sociedade contemporânea que a fita brilhantemente retrata. Só me diga uma coisa: Natalie Portman está no filme? Se a resposta, felizmente, é positiva, então estamos falando da melhor produção cinematográfica desde que os irmãos Lumière acharam de filmar um tremzinho. A qualidade do roteiro, naturalmente, é medida pelo número de cenas em que Natalie está diante das câmeras. E o trabalho de câmera é tanto melhor quanto mais objetivamente nos revela os dentinhos brilhantes de Natalie. Porque Natalie Portman nos faz este bem: divide o mundo entre o certo e o errado - o certo é o que ela achar que é certo, e o errado, o que ela entender que é errado. Viva.


O Vermelho e o Negro e o Amarelo

Estou concluindo O Vermelho e o Negro, de Stendhal (de quem mais poderia ser, né), mas já desde o início da trama me pareceu que o jovenzinho Julien Sorel merecia uma história melhor para viver. Toda aquela lenga-lenga com a senhora da província, e depois toda a celeuma com a filha do Marquês, nunca chega a ser aborrecido de se ler, mas Julien, o melindroso Julien, merecia mais. Com toda a ambição do jovenzinho, acho que ele deve ter sorrido amarelo para Stendhal ao final da trama. Mas, enfim, talvez seja mesmo esse o efeito que o autor pretendeu.


Julien Sorel e Álvaro de Campos

"'Afinal de contas, sou uma criatura vulgar, bastante aborrecida para os outros, bastante insuportável para mim mesmo". Sentia um desgosto mortal de todas as suas qualidades, de todas as coisas que amara com entusiasmo; e, nesse estado de imaginação transtornada, ele pretendeu julgar a vida através da imaginação. Esse erro é de um homem superior."

(Stendhal, O Vermelho e o Negro)

"E vou escrever esta história para provar que sou sublime."

(Álvaro de Campos, Tabacaria)