Sábado, Novembro 04, 2006

Ontem eu lia o capítulo sobre impressionismo de A História Social da Arte*, do Hauser e, em determinado ponto, ele citava uns versos do poema A Viagem, do Baudelaire, aqueles que fecham o poema e dizem da morte, vieux capitaine. Bem, fiquei com vontade imediata de reler o poema e fui buscar minha edição de poemas de Baudelaire na escrivaninha, onde ela dormia há semanas, abandonada. Mas não estava lá. Eu tinha certeza de que tinha de estar lá, logo abaixo do livro sobre Eliot, do Frye. Mas não estava. O que era natural. Tudo se perde na minha casa. Tudo some. Em geral a culpa é da empregada, que jamais sabe onde coisa alguma está. Mas eu não estava muito inclinado apenas a me lamuriar sobre o sumiço do livro e os péssimos serviços da empregada. Convoquei toda a casa, mãe, irmã e irmão para vasculhar cômodo por cômodo. O livro tinha de estar aqui. E teríamos de encontrá-lo. O mais rápido possível. Eu me senti bem quando disse "quero todo mundo procurando esse livro!". Um Jack Bauer quase. As pessoas ouviram e obedeceram. Pensei: é assim que tem de ser, é assim mesmo. Mas depois de dez minutos de busca nervosa, lembrei que emprestara o livro. Eu nunca empresto esse livro do Baudelaire. Mas lembrei que tinha feito um exceção. Daí eu gritei a todos, meio encabulado: "Cessem as buscas, cessem as buscas, eu emprestei o livro!". E Jack Bauer foi vaiado.

* o julgamento do Hauser sobre alguns escritores e sobre as motivações de alguns grupos artísticos é meio intragável, pelo tom moralista. Mas há passagens muito boas, principalmente o capítulo sobre maneirismo.