Segunda-feira, Abril 30, 2007

Ainda à espera da chuva de sapos

Chove sobre a cidade.

Rimbaud escreveu esse verso. Acrescentando um "docemente". Verlaine, mais tarde, repetiu: chove sobre a cidade. Décadas depois, Pessoa: chove sobre a cidade. Aparentemente, os franceses e o português por algum motivo consideravam o evento curioso e não resistiram à constatação metereológica. O que é meio estranho, já que provavelmente chove bastante em Paris e em Lisboa. Não há nada demais. O espírito inquieto de Pessoa explica o interesse na previsão do tempo - o sujeito queria saber de tudo. Já o caso francês é mais complicado. Talvez tenha acontecido de o casal ficar sem assunto: recorram às biografias.

Agora está chovendo em Fortaleza. Este, sim, é um evento que merece uns versos. E com tom jornalístico:

chove sobre a cidade!
chove sobre a cidade!
chove sobre a cidade!

Mas sapo algum cai pela chaminé imaginária no canto esquerdo da sala de estar. No hope yet.

Domingo, Abril 29, 2007

Literatura Brasileira

Viva o povo brasileiro
, de João Ubaldo Ribeiro, foi considerado o melhor romance nacional dos últimos vinte e cinco anos, segundo enquete feita pelo site No Mínimo. O resultado me espantou. João Ubaldo Ribeiro é o tipo de escritor que provavelmente nunca vou ler na vida. Numa entrevista, ele diz que não quer ter cara de escritor, por isso sempre faz aparições de chinelo e sem camisa. Mas isso é exatamente a imagem que eu tenho de escritor. De escritor baiano. Mais escritor baiano, impossível. Melhor cair no clichê do escritor universal - com mão no queixo, olhar contemplativo, semblante levemente entristecido ao pensar nas agruras do mundo. Pelo menos nos salva de uma cara de quem não escovou os dentes depois de acordar.

Agora, cá entre nós, será que não há mesmo nenhum romance, ou mesmo coletânea de contos, melhor do que esse em 25 anos de literatura? Meu conhecimento de literatura brasileira contemporânea é bastante pobre, confesso. Eu nem devia estar escrevendo sobre isso. Li apenas uns livros recentes do Dalton Trevisan, que já deu o que tinha que dar e podia estender a reclusão também para os textos que ainda inventa de escrever, um romance do Flávio Moreira da Costa, O Equilibrista do Arame Farpado, que achei divertido - principalmente o capítulo em que ele invoca Brás Cubas para fazer o prefácio do livro -, Onde Andará Dulce Veiga?, do Caio Fernando Abreu, que é bem monótono; uns contos do Daniel Galera, que não me interessaram; dois livros do João Gilberto Noll, provavelmente os dois livros mais chatos jamais escritos; dois livros de contos do Érico Nepomuceno, de que até gostei; e, mais recentemente, A Coisa Não Deus, do Alexandre Soares Silva, que provavelmente ficaria bem mais divertido numa versão em inglês para o cinema.

De qualquer jeito, deve haver coisa melhor que Viva o povo brasileiro. Tenho vontade de ler Joca Reiners Terron e Antônio Fernando Borges, apesar de Memorial de Buenos Aires ser um trocadilho de gosto meio questionável. Mas, enfim, um livro envolvendo Borges e Machado deve ser pelo menos agradável de se ler.

Por outro lado, esse discussão é meio inútil para mim, que nem li Tolstoi ainda. E mais inútil agora que estão lançando livros do Evelyn Waugh. E ainda mais inútil porque eu gosto mesmo é de poesia. Romance é pra ralé.

Quinta-feira, Abril 26, 2007

Um intervalo diarístico

Ontem eu sonhei que queriam me arrastar para um julgamento. Diziam que minha presença lá era de algum modo importante. O sonho durou um bom pedaço. Eu não queria ir de jeito nenhum. Na verdade, não é que eu não quisesse: na minha cabeça, eu não podia. E explicava para as pessoas que eu não podia pelo simples fato - e essa era a grande questão do sonho - de que eu era apenas um heterônimo de Fernando Pessoa. Sendo apenas um heterônimo, não havia sentido em testemunhar num julgamento que envolvia pessoas reais. De modo que, lembrando agora, eu era um heterônimo em crise, duvidoso da minha existência, sem muita fé. Por mais divertida que a idéia de ser alguém inexistente me pareça, é triste nunca poder existir de verdade. Pelo menos senti isso, enquanto sonhava. Talvez por isso, meio amargurado, mesmo com todas as pessoas insistindo comigo e tentando me convencer de que eu era importante, eu me recusei a ir ao julgamento. Talvez essa seja a grande amargura secreta de todos os personagens inesquecíveis. A grande amargura de Dom Quixote, que, por não existir, criou todo um mundo inexistente para si, dentro do mundo inexistente criado por Cervantes, que existia. Como se dissesse: cala-te, que de inexistência entendo eu, senhor (eu sinto mais saudade de Dom Quixote do que de todos os meus amigos de infância). Depois eu acordei e existia, como existem os porteiros dos prédios vizinhos e o motorista do Borges de Melo II, que passa em frente à minha casa, todos os dias, a partir das seis da manhã.

Terça-feira, Abril 24, 2007

Venus

Às vezes me acontece de ficar ranzinza, daí decido assim muito de súbito pôr a cartola e o monóculo, e finjo ignorar todos os acontecimentos culturais dos últimos 100 anos. Mas é quando ouço algo como Venus, do Air - muito atrasadamente, por sinal - que me lembro por que gosto de música pop.

Segunda-feira, Abril 23, 2007

Gregor e o Mcdonalds

Perto da casa da minha namorada há um Montmartre e um Mcdonalds. O Montmartre está sempre abarrotado de gente. Em geral, velhas senhoras e casais de namorados - as velhas senhoras sempre conversando confusamente; os casais de namorados sempre simetricamente distraídos, reparando na decoração do lugar, irremediavelmente atolados na própria pasmaceira, eventualmente compelidos a conversar pelo barulho das senhoras - e sempre aliviados quando a comida chega. Já o Mcdonalds está sempre meio vazio. A vizinhança tem uma queda pela França. De modo que o Mcdonalds é o lugar mais civilizado das redondezas. Eu gosto de sentar lá, olhar os carros passando na Dom Luís, enquanto molho a batatinha no catchup. Com uma bandeirola imaginária dos EUA balançando frivolamente ao vento, conectada como uma anteninha ao meu boné também imaginário (porque boné é ridículo e eu não uso). Nessas ocasiões, eu penso: que inseto engraçadinho, de uma antena só, eu sou.

Domingo, Abril 22, 2007

Dirty Things

"Ulysses made Joyce famous, although not always in a manner to his liking. When a fan approached him and asked, 'May I kiss the hand that wrote Ulysses?' Joyce said, 'No, it did lots of other things too'". (retirado de um artigo da Times sobre as 100 pessoas mais importantes do século passado)

Sábado, Abril 21, 2007

Ceremony

Maria Antonieta
é excelente. Dizem que foi vaiado em Cannes. Mas, segundo a diretora, não foi uma vaia unânime - foi a expressão bárbara de apenas parte da platéia. Eu acho estranho conservarem esse costume de vaiar filmes. Porque a cena é meio estúpida: um bando de gente crescida vaiando umas imagens projetadas numa tela - buuu, buuu, buuu. O próximo passo depois disso é imitar afetadamente os personagens do filme, com trejeitos e rebolados, numa afronta pessoal à Maria Antonieta e ao delfim francês. O jogar tomates eu entendo: é sempre divertido atirar coisas nas pessoas. E, no entanto, ninguém mais joga tomates em ninguém, quando há chance. Preferem vaiar. Jogar tomates deve ter sido mais uma das coisas bacanas do mundo que a Revolução Francesa aboliu.

Sexta-feira, Abril 20, 2007

Um rapaz brincar de tiro ao alvo numa universidade da Virginia, dando cabo de 33 criaturas sonolentas e ferindo outras tantas, só mostra que o mundo segue no mesmo compasso, sem grandes surpresas. Por outro lado, Inglaterra se comportando com um poder de ação equivalente ao do Brasil, no caso dos marinheiros sequestrados, já aponta para uma transformação radical. Quando Inglaterra é tão incisiva quanto Brasil, é porque há algo errado. Mas a notícia boa para os brasileiros é que, se continuam a cambiar os valores, talvez aconteça a grande reviravolta de surgir uma literatura no Brasil. Não As Sementes de Flowerville de Sérgio Rodrigues, com um personagem que se chama Victorino Peçanha e que é bem ganancioso e malvado. Eu leio o nome Victorino Peçanha e fico entediado para o resto do dia. Talvez a melhor saída seja mesmo continuar contribuindo para a degradação geral, assim Inglaterra vira Brasil mais rápido e, na sorte, Brasil vira Inglaterra - ou Escócia, pelo menos, que tem bons poetas por lá. Há sempre a chance de alguém, irritado com tanto livro chato, resolva, só de birra, escrever um bom.

Terça-feira, Abril 17, 2007

Crítica Literária

Hoje eu abri por acaso uma edição de As Flores do Mal da biblioteca de um colégio. Acima de alguns dos poemas, um aluno tinha ecrito um condescendente "ok". Para além da objetividade, sempre bem-vinda quando se trata de crítica literária, o que me impressionou foi a coragem do crítico. Afinal, era Baudelaire, um dos catalizadores da poesia moderna, imensamente estudado e louvado e tudo mais. E o rapaz não se intimidou. Leu, analisou rigorosamente, e conclui, sereno, que o poema, afinal, era "ok". Não era exatamente um grande poema, um momento maior das letras francesas, mas era "ok". Temos aí uma mente meticulosa a ser esquadrinhada.

Segunda-feira, Abril 16, 2007

Completei 24 anos na última sexta-feira 13. Deixo para trás os early twenties e chego a essa região sombria e sem esperança dos middle twenties. O olhar dos meus pais é cada vez mais desconfiado; o julgamento dos meus irmãos cada vez mais injusto; meus amigos sorriem com condescendência. E no entanto o barco segue leve sobre as águas, ou alguma coisa desse tipo. Cheers.

Sábado, Abril 07, 2007

A função da poesia

A função da poesia é deleitar os que gostam de poesia. Não é para jogadores de futebol. É para jogadores de futebol que gostam de poesia. Não é para donas de casa, mas exclusivamente para aquelas que, ao longo da vida, se habituaram a ler versos - por nenhum motivo específico: simplesmente aconteceu. Deram sorte. Não acho improvável que haja algo genético nisso. E não vejo outra função além dessa - ser a felicidade de quem gosta de poemas. Talvez uma boa educação possa levar uma pessoa a gostar de poesia. Mas boa educação não é o fator decisivo. O fator decisivo é inexplicável.

Outro poema de Stevens:

To the Roaring Wind

What syllable are you seeking,
Vocalissimus,
in the distances of sleep?
Speak it.



Sexta-feira, Abril 06, 2007

Uma só ponte, vários sentidos

Depois de ler muito T.S.Eliot, chega o momento em que você inevitavelmente sente vontade de ler Wallace Stevens. A primeira metade do século XX pertenceu a Eliot - tanto em termos de aclamação da própria poesia quanto em influência sobre a poesia de outros poetas. A segunda parece pertencer a Stevens - principalmente no que diz respeito à influência. Depois do tom sublime alcançar píncaros no Alto Modernismo - Eliot, Rilke, Pessoa, Yeats -, os pulmões dos poetas pareciam não mais sustentar tanto fôlego e - vamos dizer - tanta transcendência de romantismo tardio, e relaxaram: os poetas foram buscar o sublime em visões menos elevadas, moments of light rapidamente interrompidos. Observamos, claro, momentos de grande elevação em Stevens e mesmo momentos de imagismo minimalista em Eliot. Como ambos eram gênios, nunca saem do âmbito da grande poesia. Mas se enxerga bem onde cada um alcançou maiores feitos - senão em termos de qualidade, que era, em qualquer caso, sempre altíssima - certamente na influência sobre a tradição.

Vou postar aqui um dos meus poemas preferidos de Stevens, que é bem característico do seu estilo. Posto também uma tradução que fiz do poema, caso algum eventual leitor deste blog tenha problemas com o inglês (e quanto a quem não tem qualquer problema com a língua do Doutor Jhonson, dispenso que apontem os problemas que tenho eu, se julgarem má a tradução).


METAPHORS OF A MAGNIFICO


Twenty men crossing a bridge,
Into a village,
Are twenty men crossing twenty bridges,
Into twenty villages,
Or one man
Crossing a single bridge into a village.

This is old song
That will not declare itself . . .

Twenty men crossing a bridge,
Into a village,
Are
Twenty men crossing a bridge
Into a village.

That will not declare itself
Yet is certain as meaning . . .

The boots of the men clump
On the boards of the bridge.
The first white wall of the village
Rises through fruit-trees.

Of what was it I was thinking?

So the meaning escapes.

The first white wall of the village...
The fruit-trees...

Metáforas de um Magnífico

Vinte homens cruzando uma ponte
Em direção a uma vila
São vinte homens cruzando vinte pontes
Em direção a vinte vilas,
Ou um homem
Cruzando uma única ponte em direção a uma vila.

Isto é canção velha
Que jamais se revela...

Vinte homens cruzando uma ponte
Em direção a uma vila
São
Vinte homens cruzando uma ponte
Em direção a uma vila.

Isso não se revela
No entanto é exato em sentido...

As botas dos homens pisam forte
Nas tábuas da ponte.
O primeiro muro branco da vila
Surge entre as árvores.

O que era isso em que eu pensava?

O sentido escapa.

O primeiro muro branco da vila...
As árvores...


Wallace Stevens


*Magnífico é um título dado aos nobres em Veneza.

Quinta-feira, Abril 05, 2007

Eu não sei. Uma vez que você começa, você não pára mais. O problema é que a única coisa que eu começo é a acompanhar seriados. Scrubs, House, Monk, Desperate Housewives. Eu nunca tinha visto Desperate Housewives até um dia desses. Eu até tinha a impressão, pelas propagandas, de que a série devia ser boa. Tem a ruiva republicana. Tem a Lois Lane, imortalizada num episódio de Seinfeld ("they're real and they're spectacular!"). E tem aquele clima cômico, agradável e sinistro de que eu gostei tanto em Beleza Americana. Mas estou cheio de dúvidas: o desmemoriado matou mesmo alguém? Qual é a daquela velhinha? Quem é a vozinha que narra a série? Por que não tenho eu uma vozinha no final do dia para fazer o balanço dos eventos? Enfim. Dúvidas, dúvidas. O fato é que provavelmente virarei telespectador fiel do programa. Mas House e Monk ainda são meus preferidos. Eu gostaria que os dois se encontrassem para uma conversinha. Mas o que queria mesmo era que House fosse no hospital de Gray's Anatomy e destruisse tudo a bengaladas. Bando de impostores.

Terça-feira, Abril 03, 2007

Eliotiana n#1

"Deve estar claro que o 'desenvolvimento do gosto' é uma abstração. Colocar diante de si o objetivo de se tornar capaz de apreciar, na particular ordem objetiva de mérito, toda boa poesia, é perseguir um fantasma, uma busca que deve ser abandonada para aqueles cuja ambição é ser 'refinado' ou 'civilizado', para quem a arte é um artigo de luxo e sua apreciação, uma realização. Pois o desenvolvimento do gosto genuíno, fundado em genuína sensibilidade, é inextricável do desenvolvimento da personalidade e do caráter. Gosto genuíno é sempre um gosto imperfeito - mas nós somos, de fato, pessoas imperfeitas; e o homem cujo gosto em poesia não testemunha a expressão de sua personalidade particular, de modo que haja diferenças no que ele gosta e no que nós gostamos, bem como semelhanças, e diferenças no modo de gostar da mesma coisa, está apto a ser uma pessoa muito desinteressante com quem se discutir poesia".

(The Use of Poetry and The Use of Criticism - 1932)