O texto que segue abaixo é um comentário de Fábio Zanon neste fórum sobre violão erudito. Fábio Zanon é considerado o maior violonista erudito do país. O comentário é um pouco extenso e em geral ninguém gosta de ler um post demasiado longo. Mas, se alguém estiver passando por aqui, sugiro que leia o que Zanon diz. Vale a pena.
"O que sempre me reconfortou na Europa é um sentimento de que a música que toco é parte da vida das pessoas. Mesmo quem não aprecia e não pratica sabe o que é. É o mesmo com a arquitetura, o patrimônio histórico e artistico. Há um denominador cultural comum, que dá liga à sociedade. Mesmo em cidades relativamente pequenas e desimportantes há gente estudando arte a sério; as pessoas têm respeito e se sentem unificadas pelo próprio passado, pelo fato de que chegaram até ali depois de tanto tempo, por terem esse passado comum.
Isso, mais do que a indústria algo cosmética de uma suposta alta cultura que a gente vê nos festivais, é o que torna tão interessante tocar para o público europeu e, para quem tem essa sorte, passar algum tempo estudando lá, ou voltar regularmente. Esse é um sentido muito profundo que a gente não tem aqui no Brasil, e pouco tem nos EUA e na Austrália.
Eu acho que isso se reflete no dia-a-dia, no respeito à coisa pública, nesse não admitir o que é inadmíssivel, que a gente não vê aqui.
Talvez seja uma visão de quem tem um vínculo com a Grã-Bretanha há 16 anos. Muita gente faz troça dos europeus, acha os ingleses distantes, os franceses estressados, os alemães rígidos, e não é nada disso. É o que eles têm, que nós não temos, que a gente critica. Quando eu saí do Brasil já tocava bastante bem, até mais limpo e cuidadoso do que toco hoje, então não encontrei nada que não tivesse dentro de mim, essa intransigência quando se trata de música, mas acho que ter morado tanto tempo lá me fez prezar mais essa busca artística. Quando alguém aponta em mim algum traço que adquiri morando lá, eu não me envergonho, pelo contrário, fico orgulhoso, porque isso me torna melhor como brasileiro.
A Alemanha e a Holanda, em particular, chamam a atenção pelo capricho nas coisas. Você anda por uma cidade no interior como Koblenz e não tem uma casa caindo aos pedaços, uma pintura descascada. As pessoas cobram civilidade, um papel não fica impunemente no chão, sem ser punido com o olhar dos transeuntes. Aqui, o Presidente joga papel de bala atrás do sofá.
Tenho uma amiga artista plástica que fez um projeto muito interessante com imigrantes na Inglaterra, bancado pelo Conselho das Artes. Há muita gente que vem de Bangladesh, de Barbados ou da Colômbia e não conhece sequer os pontos turísticos de Londres. Nunca esteve no Parlamento, no Big Ben, não sabe o que significa a Abadia de Westminster ou a Torre de Londres, nunca andou no Hyde Park. Ela leva essas pessoas para conhecer estes lugares e os fotografa.
Entendem o que é cidadania num sentido pleno? O espaço público pertence a todos, todos se sentem unificados por ele e cuidam. Mesmo quem não tem o menor interesse por música clássica na Inglaterra defende a necessidade de se manter a Sinfônica de Londres. É isso que faz com que a total alienação dos imigrantes pareça tão chocante. Aqui em são Paulo, muita gente tem essa mesma alienação - só que no lugar onde nasceu e cresceu".
