Sábado, Junho 30, 2007

Zanon

O texto que segue abaixo é um comentário de Fábio Zanon neste fórum sobre violão erudito. Fábio Zanon é considerado o maior violonista erudito do país. O comentário é um pouco extenso e em geral ninguém gosta de ler um post demasiado longo. Mas, se alguém estiver passando por aqui, sugiro que leia o que Zanon diz. Vale a pena.

"O que sempre me reconfortou na Europa é um sentimento de que a música que toco é parte da vida das pessoas. Mesmo quem não aprecia e não pratica sabe o que é. É o mesmo com a arquitetura, o patrimônio histórico e artistico. Há um denominador cultural comum, que dá liga à sociedade. Mesmo em cidades relativamente pequenas e desimportantes há gente estudando arte a sério; as pessoas têm respeito e se sentem unificadas pelo próprio passado, pelo fato de que chegaram até ali depois de tanto tempo, por terem esse passado comum.
Isso, mais do que a indústria algo cosmética de uma suposta alta cultura que a gente vê nos festivais, é o que torna tão interessante tocar para o público europeu e, para quem tem essa sorte, passar algum tempo estudando lá, ou voltar regularmente. Esse é um sentido muito profundo que a gente não tem aqui no Brasil, e pouco tem nos EUA e na Austrália.
Eu acho que isso se reflete no dia-a-dia, no respeito à coisa pública, nesse não admitir o que é inadmíssivel, que a gente não vê aqui.
Talvez seja uma visão de quem tem um vínculo com a Grã-Bretanha há 16 anos. Muita gente faz troça dos europeus, acha os ingleses distantes, os franceses estressados, os alemães rígidos, e não é nada disso. É o que eles têm, que nós não temos, que a gente critica. Quando eu saí do Brasil já tocava bastante bem, até mais limpo e cuidadoso do que toco hoje, então não encontrei nada que não tivesse dentro de mim, essa intransigência quando se trata de música, mas acho que ter morado tanto tempo lá me fez prezar mais essa busca artística. Quando alguém aponta em mim algum traço que adquiri morando lá, eu não me envergonho, pelo contrário, fico orgulhoso, porque isso me torna melhor como brasileiro.
A Alemanha e a Holanda, em particular, chamam a atenção pelo capricho nas coisas. Você anda por uma cidade no interior como Koblenz e não tem uma casa caindo aos pedaços, uma pintura descascada. As pessoas cobram civilidade, um papel não fica impunemente no chão, sem ser punido com o olhar dos transeuntes. Aqui, o Presidente joga papel de bala atrás do sofá.
Tenho uma amiga artista plástica que fez um projeto muito interessante com imigrantes na Inglaterra, bancado pelo Conselho das Artes. Há muita gente que vem de Bangladesh, de Barbados ou da Colômbia e não conhece sequer os pontos turísticos de Londres. Nunca esteve no Parlamento, no Big Ben, não sabe o que significa a Abadia de Westminster ou a Torre de Londres, nunca andou no Hyde Park. Ela leva essas pessoas para conhecer estes lugares e os fotografa.
Entendem o que é cidadania num sentido pleno? O espaço público pertence a todos, todos se sentem unificados por ele e cuidam. Mesmo quem não tem o menor interesse por música clássica na Inglaterra defende a necessidade de se manter a Sinfônica de Londres. É isso que faz com que a total alienação dos imigrantes pareça tão chocante. Aqui em são Paulo, muita gente tem essa mesma alienação - só que no lugar onde nasceu e cresceu".

Segunda-feira, Junho 25, 2007

Uma proposta melhor para o novo milênio

Eu tenho uma idéia; bem, essa idéia pode se tornar uma estória ou um poema. Mas eu tenho apenas o começo e o fim. Então eu tenho de inventar ou tramar de algum modo o que acontece no meio, e aí faço o meu melhor. Mas, em geral, quando eu tenho esse tipo de inspiração, eu faço de tudo para resistir, mas ela segue me incomodando, então eu tenho de escrevê-la de algum modo.

Jorge Luis Borges, numa entrevista , em 1980.

Imagino que essas inspirações incontornáveis e não requisitadas devam ser mesmo uma espécie de infortúnio para um escritor envelhecido e já bastante celebrado. Pelo menos no caso de escritores como Jorge Luis Borges, bem distantes de uma visão de literatura como missão ou coisa do tipo. Uma vez já escritas as grandes obras que salvarão o nome da mudez do tempo, interessa, para um sujeito de oitenta anos, aproveitar o pouco de vida que lhe resta, dedicando-se ao que mais aprecia: a contemplação das moças, a caça às tartarugas, os livros, no caso do argentino, o que seja. Deve ser um incômodo estar a ser solicitado por musas impertinentes, lhe exigindo que escreva, quando não lhe apetece mais perder tanto tempo escrevendo, quando podia estar lendo Nabokov ou assistindo House. Por outro lado, é possível que, através de força de vontade, um escritor possa vencer sua obcecada musa, batendo-lhe a porta na cara ou fingindo-se de doido. Nesse caso, pode ver mais um episódio sobre um músico com um problema engenhoso no cérebro, mas os leitores perdem um possível grande conto ou poema. Mas, venhamos e convenhamos, com tantos séculos de literatura, um grande conto a mais ou a menos é realmente necessário? Quero dizer: um novo conto muito bom é sempre bem-vindo, mas não é exatamente imprescindível. Pelo menos não por um tempo. Talvez eu não esteja sozinho na opinião de que não seria de todo mal se houvesse uma espécie de trato universal entre escritores e possíveis escritores, no sentido de dar um tempo nessa coisa de escrever por, talvez, digamos, 50 anos. Um intervalo. Um silêncio prolongado para que possamos ficar em dia com as leituras mais urgentes do passado (mesmo do passado recente). Acredito que esse trato seria um grande bem para a literatura. Uma prova de amor e dedicação a ela mais valiosa do que escrever cem romances. Aliás, não se faz muito bem em ser freqüentemente gentil com as musas. Como disse o poeta, love’s pleasure drives his love away.

Domingo, Junho 24, 2007

Domingo com poesia

Já é senso comum retornar a Montaigne, no ensaio sobre os canibais, no intuito de sugerir conexões com as idéias de Oswald de Andrade sobre antropofagia cultural. Mas Pedro Sette Câmara mostra que nem era necessário ir à França, bastava retornar a Portugal. A Camões , mais precisamente.

Sexta-feira, Junho 22, 2007

Esclarecimento

La Rochefoucauld deixou de escrever essa máxima, mas eu tomo a liberdade de escrevê-la, porque essa manhã acordei com o espírito de esclarecer o mundo para as pessoas: um amor intransigente à ordem, aos olhos de si mesmo, será sempre confundido, aos olhos dos outros, com a desorganização mais relaxada. É por um excesso de zelo à ordem que perco dias e dias de atividade. Se me acontece, por um desastre, de acordar às oito e seis de uma manhã na qual eu me propusera a acordar às oito em ponto, qualquer possibilidade de ordenamento do caos já foi pelo ralo, de modo que a única coisa a se fazer é passar o resto do dia abraçado infantilmente ao aborrecimento como a um travesseiro, à espera de uma nova chance. Um tal zelo, ao olho do vulgo, é a boa e velha preguiça. Não é. O caso é que as virtudes têm esse defeito de fábrica: quando intensas demais, tornam-se vícios. Por sorte, minha devoção à ordem é bastante defeituosa. Se não o fosse tanto, um despertador que não tocasse suspenderia não um dia, mas um semestre. E se nada tivesse de defeituosa, suspenderia a vida.

Quinta-feira, Junho 21, 2007

Blockbusters

"Mas os ‘Sopranos’ foram a certeza de que o cinema, o grande cinema, emigrara definitivamente para a televisão. Hoje, quem procura ficção adulta, encontra-a mais facilmente num episódio de ‘Dr. House’, ‘Nip/Tuck’ ou ‘Anatomia de Grey’ do que nas dezenas de colheitas adolescentes que intoxicam as nossas salas."


Comentando o último episódio dos Sopranos, o Coutinho
escreve essa verdade simples de que compartilho. Para quem gosta de bom cinema, o melhor a fazer é sentar no sofá, ou deitar, se for confortável (o meu sofá, lamentavelmente, é uma droga). Só não concordo em citar House ao lado de Grey's Anatomy, que, pelo bem da verdade, não se afasta muito das colheitas adolescentes.

Sábado, Junho 16, 2007

Bloomsday

There I saw one I knew, and stopped him, crying 'Stetson!'
You who were with me in the ships at Mylae!'
That corpse you planted last year in your garden,
Has it begun to sprout? Will it bloom this year?'


(The Waste Land, 1922, T.S.Eliot)

Sexta-feira, Junho 15, 2007

Uma pergunta para Gerardo Mello Mourão

Qual a finalidade da literatura?

A finalidade da literatura é a verdade. Mais claramente: é a beleza da verdade. O escultor Brancuse perguntou um dia a Pound o que ele buscava em seu trabalho. O poeta respondeu: a beleza. Brancuse, que era oficial do mesmo ofício comentou: "Beauty is difficult". Por isso, Lautréamont advertia: "A missão da poesia é difícil. Ela não se mete nos acontecimentos da política, na maneira pela qual se governa um povo, não faz sequer alusão aos períodos históricos, aos golpes de Estado, aos regicídios, às intrigas da corte. Não trata nem mesmo das lutas que excepcionalmente o homem trava consigo próprio, com suas paixões. O que ela faz é descobrir as leis que dão corpo e vida à política teórica, à paz universal, às refutações de Maquiavel, aos corneteiros da obra de Proudhon, à psicologia da humanidade". Por isso mesmo, Novalis lembrava as origens apolíneas da poesia nos oráculos de Delfos. Ela junta as palavras e os sons que compõem a magia de sua mensagem logicamente incompreensível, claros enigmas que se dão ao conhecer na zona incontaminada do conhecimento intuitivo. Do conhecimento mágico. A Sibila Délfica, ao proferir certa vez um oráculo a um capitão de Atenas, foi por ele solicitada a interpretá-lo. Respondeu: "Apolo não ensina. Apolo revela." Assim, a poesia. Ela não ensina. Ela apenas revela, e isto é tudo.

Ler mais trechos da entrevista aqui

Quarta-feira, Junho 13, 2007

Bookish Kid

Livros não são caros, são caríssimos. Daí porque visitas a sebos são como revanches malignas contra as grandes livrarias. Como ontem, quando encontro Pomas, um tostão cada, de Joyce, edição bilíngue da Iluminuras, por módicos cinco reais. Destaco o livro rapidamente da pilha de autores desimportantes e o seguro como uma segredo sujo e maravilhoso, que ladrões de todo tipo desejassem tomar das minhas mãos. Mas, passado esse momento de possessão febril (my precious, my precious), chega a segunda fase do processo: você olha para o vendedor e se regojiza, supondo-o idiota por vender um Joyce novinho por quantia risível. O que é um paradoxo, se consideramos injustos os preços oficiais de livros. Mas o raciocínio do coração não é chegado a coerências: você se julga mais esperto - porque você precisa dessa revanche, de tempos em tempos. O humilde vendedor do sebo já não é apenas um humilde vendedor do sebo, é a própria encarnação da Siciliano, da Livraria Cultura, da Saraiva, da Amazon. E você vai mostrar pra ele. Passar a perna no velhaco. Dessa vez a raposa que coma o próprio rabo. Sigo as buscas num silêncio de escafandrista, mergulhado na poeira dos livros empilhados, inquieto em meio a peixeis pequenos, procurando obcecado outro valioso tubarão branco. E encontro: Canto do Destino e outros cantos, de Hölderlin, edição bilíngue também da Iluminuras, novo em folha, contendo ensaio gigantesco. A maré está para peixe. Para baleias até, melhor dizendo. Iluminado pela Iluminuras, encontro De Produnfis, coletânea com poemas de Georg Trakl, poeta nascido em Salzburgo, uma das vozes mais peculiares da poesia moderna para a qual eu permanecia surdo até a madrugada de hoje, quando li demoradamente os poemas. Aprendi uma palavra em alemão: abendland, terra do entardecer. Escreverei depois sobre Trakl. O mergulho (foi preciso fôlego para algumas horas de perseguição ahabiana) ainda me valeu outras preciosidades: O Matrimônio do Céu e do Inferno, de Blake, um livro de ensaios excelentes de Octavio Paz, A Educação Estética do Homem, de Schiller, Cães Negros, de Ian McEwan (já estava na hora de conhecer a fase macabra do homem) e um estudo sobre Kafka, Limites da Voz, de Luiz Costa Lima. Como se não bastasse, um mimo: A Vida de Shelley, biografia escrita por André Maurois, em tradução de Manuel Bandeira. Saldo: nove livros, 45 realidades bem empregadas. Saio da livraria para o centro da cidade como que carregando barras de ouro. Caminho pelas ruazinhas apertadas de gente, atravesso apressado a praça do Banco do Nordeste e nenhum malandro repara que estou rico. Acabei de aplicar o golpe do século. Um homem e 9 segredos.

Domingo, Junho 10, 2007

Um país sem Mourão

Na paisagem uma árvore. E seu lance
desferido no espaço não se parte
do chão - fonte raiz semente infância.

Assim vivemos nós: daquele lírio
do hálito aquele: sopro para sempre
nas flautas de escutar anoitecer.

Assim vivemos nós: daquele dia;
não se cansam as mãos de lenço e brisa
de tanto desperdir-se e não partir.

Assim se aclara o quarteirão à noite
e a luz que cresce e sobe pelos muros
do coração da lâmpada é que existe.

Palpitamos. E a vida e a morte como
sombra que toma o pulso de uma chama,
tomam o pulso desse dia - infância -

pulso da aurora, pulso até o fim.

Gerardo Mello Mourão, 1917 - 2007.


Quando eu era jovem e lia bastante Gabriel Garcia Márquez e Pablo Neruda (ainda gosto dos Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada), eu me perguntava como países do porte da Colômbia ou do Chile podiam ter um escritor nacional tão bom e o Brasil não. Porque, naquela época, o que eu conhecia de literatura brasileira resumia-se ao romance de 30, os poetas do modernismo oficial e alguns escritores mais recentes, como o Rubem Fonseca e o Dalton Trevisan. E, venhamos e convenhamos, Rubem Fonseca e Dalto Trevisan, juntos e com todas as ferramentas sanitárias possíveis, não podem sequer limpar as solas dos sapatos de Garcia Márquez. Havia, claro, o Machado de Assis, mas eu o lia como algo muito distante, um escritor do século XIX, cujo único mérico parecia ter sido inaugurar o realismo no Brasil (porque a isso o reduzem a grande parte dos professores de literatura do ensino médio). De modo que a descoberta de Gerardo Mello Mourão, no primeiro ano de universidade, foi uma espécie de revanche contra a América Hispânica. Uma revanche esmagadora. Uma covardia, mesmo. Gerardo Mello Mourão era tão infinitamente superior a tudo que me pareceu natural que ele fosse como que invisível no Brasil. Num país de cultura saudável - se o modernismo de Mário de Andrade e Oswald de Andrade não tivesse sido levado tão a sério e o ressentimento marxista não fosse o estado mental constante dos 'intelequituais' nacionais-, provavelmente uma espécie de coroação oficial para o poeta nacional haveria de ter sido institucionalizada apenas para que se pudesse dar o título para Gerardo Mello Mourão. Mas como o atrofiamento intelectual no Brasil vai avançado, nosso maior poeta permanece pouco editado, comentado, celebrado. Mas há que se fazer algumas justiças. Alceu Amoroso Lima sempre ergueu o nome de Gerardo às alturas. Wilson Martins também - ler este texto. Bruno Tolentino é outro que tem consciência do que Gerardo representa: está
aqui . E o próprio Carlos Drummond de Andrade, que tinha razão de ser humilde, escreveu a Gerardo nos seguintes termos: "O País dos Mourões merecia não uma segunda edição, mas edições contínuas, em escala nacional, para que o Brasil nele se aprendesse a si mesmo, gravado a fogo e palavra indestrutível". Mas mesmo com seus maiores críticos e poetas tentando lançar luz sobre Gerardo, o país parece se recusar continuamente a aceitar um poeta tão bom. Em Escócia, um poeta menor como Edwin Morgan é celebrado nacionalmente, dá conferências disputadíssimas, recebe sucessivas edições caprichadas, até visita escolas, como se fosse político. No Brasil, o maior poeta da América (na opinião de Ezra Pound, por carta), morre quase esquecido no Rio de Janeiro. É provável que o país não estivesse preparado. É provável que a intelectualidade nacional esteja atualmente comprometida com a mediocridade antes de qualquer princípio. E é provável que Peru ou Chile soubessem dar mais valor a um poeta tão superior. Mas é certo que Gerardo descansa na eternidade. Os anos, os séculos serão gentis com ele. Como dizia Baudelaire, os gênios surgem a contragosto das nações. Mas eles sempre vencem. É nessas horas que eu gostaria que existissem máquinas do tempo: entre visitas apressadas aos muros de Tróia ou à corte de Maria Antonieta, eu visitaria o Brasil, séculos adiante, quando Gerardo for finalmente compreendido como o nosso Pessoa (para se restringir ao século XX) e ficaria satisfeito de meu país.

Sexta-feira, Junho 08, 2007

Bye

Hoje foi um dia feliz na história da tv. Acabou Girlmore Girls. Nunca mais mãe e filha conversando naquele tom de voz enjoento, nunca mais aquele brutamontes com o boné para trás. A vida vai seguir de modo mais agradável daqui pra frente.

Segunda-feira, Junho 04, 2007

O Brasil incomoda

Já é incômodo demasiado viver em um país cujo novo passatempo é engolir desaforos constantes de países do porte da Bolívia e da Venezuela. E o fato do Planet Hemp fazer apresentações para os estudantes-grevistas (ou grevistas-estudantes) na USP só torna tudo mais dramático. Sério. Planet Hemp? Venezuela? PSTU?

Sexta-feira, Junho 01, 2007

Madrugada

Que cheiro de flor e chuva era aquele ontem à noite sobre a velha aldeota?