Terça-feira, Julho 31, 2007

Fato

"A vida de muitas pessoas é uma bebedeira cuja ressaca e sobriedade só serão atingidas depois da morte, se tanto."

Alexandre Soares Silva

Segunda-feira, Julho 30, 2007

De quem é?

Com Lost, Sopranos e House, entre outras, as séries para TV já alcançaram um patamar que, em termos de realização artística, supera a maioria dos filmes em cartaz recentemente. E quando se observa a estrutura narrativa e a eficácia dessa estrutura narrativa para potencializar o conteúdo emocional e simbólico, Lost, por exemplo, é um bilhão de vezes mais interessante do que qualquer filme que eu tenha visto nos últimos meses. Mas ainda não se atrelou às séries a idéia de um autor. Demorou um tempo até que um filme deixasse de ser apenas um filme e fosse um filme de Bergman, que morreu hoje, ou um filme de Clint Eastwood. De quem é Lost? J.J.Abrahams, o mesmo diretor de Felicity? Ouvimos falar bastante dos criadores das séries. Uma nova produção vai estrear e a divulgam como "dos mesmos criadores de tal série". Mas isso de criadores está longe de ter o mesmo peso da idéia de autor. Tanto que, via de regra, nunca se atenta para quem afinal são os tais criadores. Talvez isso torne um seriado como Lost ainda mais universal, mais aberto, mais fascinante. The Waste Land seria ainda mais forte não soubéssemos que quem o escreveu foi T.S.Eliot, um americano que se naturalizou inglês, profundamente católico e bastante idiossincrático. Nisso o esforço dos métodos de abordagem textual que proliferaram no século passado insistindo na autonomia da obra em relação ao autor era pertinente: no deixar o sujeito a sós com a obra, sem outras pistas que não as da própria obra, não havendo outro remédio que não entrar cuidadosamente naquele espaço ficcional e tentar entender o que diabos está acontecendo. Mas o gesto desses métodos, a postura de ignorar o autor, acabava sendo apenas mais uma ficção. É inevitável, no caso de um poeta como Eliot ou de um cineasta como Bergman, que, diante de uma obra deles, nos coloquemos cheios de suspeitas, desconfianças e expectativas não raro estupidificantes. A obra acaba sendo relegada mais para terreno da opinião do que da apreciação. A felicidade é que, se a obra for grande, nem um autor embaraçoso consegue constrangê-la. É o caso de A Mulher Chorando, de Picasso, que, provavelmente, entre uma lágrima e outra, desejava que Picasso batesse logo as botas. Dito tudo isso, o que quero saber é: será que essa história do autor um dia vai colar com os seriados de TV? Na falta de Tirésias, resta apenas o tempo para nos dar uma resposta.

Sábado, Julho 28, 2007

The Unknown Citizen
by W. H. Auden


He was found by the Bureau of Statistics to be
One against whom there was no official complaint,
And all the reports on his conduct agree
That, in the modern sense of an old-fashioned word, he was a saint,
For in everything he did he served the Greater Community.
Except for the War till the day he retired
He worked in a factory and never got fired,
But satisfied his employers, Fudge Motors Inc.
Yet he wasn't a scab or odd in his views,
For his Union reports that he paid his dues,
(Our report on his Union shows it was sound)
And our Social Psychology workers found
That he was popular with his mates and liked a drink.
The Press are convinced that he bought a paper every day
And that his reactions to advertisements were normal in every way.
Policies taken out in his name prove that he was fully insured,
And his Health-card shows he was once in a hospital but left it cured.
Both Producers Research and High-Grade Living declare
He was fully sensible to the advantages of the Instalment Plan
And had everything necessary to the Modern Man,
A phonograph, a radio, a car and a frigidaire.
Our researchers into Public Opinion are content
That he held the proper opinions for the time of year;
When there was peace, he was for peace: when there was war, he went.
He was married and added five children to the population,
Which our Eugenist says was the right number for a parent of his generation.
And our teachers report that he never interfered with their education.
Was he free? Was he happy? The question is absurd:
Had anything been wrong, we should certainly have heard.



From Another Time by W. H. Auden

Eu nunca dei muita atenção a Auden. Por nenhum motivo específico. Por hora, ele é como um conhecido distante, por quem nutro grande simpatia, que vez ou outra encontro por acaso e cumprimento, com um aceno ou mesmo com um cordial aperto de mãos. Dele ouvi os melhores comentários, já mesmo o vi em algumas situações em que sua postura e seus modos me agradaram. Mas - por falta de uma oportunidade definitiva - nunca nos sentamos para conversar. Prevejo que um dia, nos encontrando em outro tempo, conversaremos largamente, como amigos de longa data e até lamentaremos não ter feito isso antes. Mas terá sido melhor não ter acontecido antes. É preciso dar algum tempo para a afeição. Sem falar que, não raro, e sem querer forçar um paradoxo, conhecemos melhor uma pessoa quando ela ainda é um semi-estranho. Depois que a conhecemos melhor, tendemos a tentar impôr nossas expectativas sobre ela, até que a pessoa suma por detrás do que desejamos dela. Talvez por isso seja tão bom ler Auden casualmente. Quando do nada me dá vontade de ler um bom poema, procuro algum título dele que me agrade e pronto. Mas ainda chega o dia em que conversaremos mais demoradamente.

Sexta-feira, Julho 27, 2007

Poor Little Me

Apesar de já estar um pouco cansado de ouvir seguidas vezes o Hino Nacional, gosto de acompanhar o Panamericano. Gosto de esportes em geral. E, como Fitzgerald, que sonhara ser um ídolo do futebol americano, gostaria de ter sido jogador de futebol. E tinha grandes chances. Sempre joguei bem. Às vezes me pego pensando como Marlon Brando em Sindicato dos Ladrões: "I could've been a contender, I could've been somebody!". O que não gosto quase sempre é da cobertura da imprensa, da idiotice dos repórteres. Hoje, por exemplo, o mesa-tenista brasileiro Gustavo Tsuboi perdeu nas quartas-de-final para um dominicano. Ao final, chorou por ter perdido tão cedo. Não só chorou, estava inconsolável. Apesar de não aprovar muito o chororô, aprovo menos a postura maternal da repórter que foi entrevistá-lo. Mas, ah, a senhorita ficou completamente perdida ao perceber que o mesa-tenista não queria ser consolado com clichês do tipo "ah, mas foi uma boa participação". É uma característica essencial do brasileiro: a pressa em minimizar as derrotas, tentando atrapalhadamente anular a competitividade. É a mania de tratar todo mundo como coitadinho. O mesa-tenista, mesmo chorando, não queria que ninguém o tratasse como coitadinho. Estava inconsolável porque sabe que o que importa é vencer, que só vale a pena vencer. Não queria ninguém lhe passando a mão na cabeça. Até porque ser tratado como coitadinho nunca fez com que alguém avançasse. O senso comum nacional aceita a idéia de que, com as agruras, se aprende. Mas, previsivelmente, nunca está disposto a encarar isso na prática. Parecem ignorar que, ao minimizá-la, a dor se torna inútil, improdutiva - vira uma porcaria com a qual não sabemos o que diabo fazer, porque perde qualquer sentido. Ela só serve para alguma coisa se for intensamente sentida, absorvida e, finalmente, transcendida. É preciso avisar a imprensa que o golpe mais baixo que se pode dar em qualquer atleta é inutilizar-lhe a dor.

Segunda-feira, Julho 23, 2007

Enfim, um parâmetro

Vi ontem, pela primeira vez, Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Quando o filme terminou, não foi com a mesma serenidade com que escrevo agora que percebi que, por todo esse tempo, eu vinha vivendo em erro. Não foram raras as exceções em que me meti a escrever algo sobre cinema aqui neste sítio. Mas como escrever sobre cinema, mesmo o comentário mais banal, sem ter visto Os Imperdoáveis? Para falar sobre cinema, você precisa de dois parâmetros: o do pior cinema possível, e este eu já tinha, porque me aconteceu de assistir a alguns filmes de Pedro Almodovar e à Pierrot Le Fou, de Godard, e o do melhor cinema possível. Este eu ainda não tinha. Vi excelentes filmes durante estes vinte e quatro anos, mas eram apenas isso, excelentes filmes. Não impunham um parâmetro. Bem, Os Imperdoáveis impõe um parâmetro. Daqui para frente, julgo um filme pelo o quanto ele se afasta de Pedro Almodóvar e o quanto ele se aproxima de Clint Eastwood. Os Imperdoáveis funciona assim como um ideal, quase como os preceitos da Igreja Católica: não podendo segui-los a todo o tempo, que pelo menos nos sirva de inspiração - é uma indicação: olhem lá, o melhor cinema.

Quarta-feira, Julho 18, 2007

Literatura e Covardia

A história da literatura é uma sequência de resignações. Todos os poetas depois de Shakespeare, mesmo um Keats (ou principalmente um Keats), devem ter pensado que o poema que acabavam de escrever, mesmo um triunfo artístico como Ode to a Nightingale, era ainda uma espécie de fracasso, porque não era Shakespeare. Mas o divulgavam. E, assim, de complacência em complacência, avança a literatura. Esse avanço nunca tem a ver com melhorias ou refinamentos. Não dá pra melhorar Shakespeare. Embora em muitos aspectos haja convergências essenciais entre arte e ciência, nesse aspecto elas se afastam: o novo objeto artístico não torna o anterior obsoleto. Pelo contrário, ele engradece toda a arte anterior (Sabato diz algo parecido em O Escritor e seus fantasmas). Mas essa idéia de fracasso é crucial na mente de qualquer grande artista. Um desgosto intransigente de ser menor é o que conduz um homem a uma grande obra. Num primeiro momento, o sujeito necessita agarrar-se ao orgulho, à vaidade de não ser o segundo. Depois, para dar luz à obra, precisa submeter-se à indulgência, ao cansaço, à fraqueza. Toda obra de arte é assim o produto de uma interrupção. Não houvesse essa interrupção, a obra de arte ficaria confinada na mente do artista. Pessoa entendeu isso melhor do que ninguém. No Livro do Desassossego, o semi-heterônimo Bernado Soares escreve:

"Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação da vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia".

Grande arte nasce da consciência dessa covardia. O grande artista jamais se acostuma a isso. Viverá em desgosto e poderá ser brilhante. Hoje em dia, o quadro é outro. Os artistas parecem ter-se acostumado à covardia e já não se esforçam pelo primeiro lugar. Publicam sem vergonha, cada vez mais cedo, um produto cada vez mais tosco. Já não se envergonham de ser o último lugar. Isso é mal. Em literatura, não cabe a máxima dos esportes, de que o importante é participar. Em literatura, o importante é vencer a todo custo. Por isso é importante conhecer seus adversários - a tradição literária. Caso contrário, o sujeito só precisa vencer a própria vergonha de publicar. E essa vitória tem sido alcançada com esforços cada vez menores.

Quinta-feira, Julho 12, 2007

Fitz X Hem

Ando lendo Lolita, do Nabokov. Estava lendo Adeus às Armas, do Hemingway, mas, por algum motivo obscuro, larguei o livro em qualquer canto esquecido do meu quarto e nunca mais voltei à guerra. Mas estava gostando. Pretendo voltar algum dia. Será a última coisa do Hemingway que lerei. Irrita-me que o Hemingway tenho contado aquela história patética sobre o Fitzgerald em Paris é uma Festa. Em vez de dar um testumunho realmente valioso sobre a obra ou pelo menos sobre a pessoa mesmo do Fitzgerald, coisa que ele podia fazer, já que conviveu com ele em anos decisivos, preferiu mediocremente contar uma anedota cuja falta de veracidade e a abundância de ressentimento salta aos olhos. Em outros tempos, quando um grande artista morria, os outros lhe escreviam elegias. Hemingway prefiriu contar uma piada suja e mesquinha. Tudo é postiço em Hemingway. Tanto o pessimismo, quanto o humanismo. Cada vez mais começo a achar O Velho e o Mar um melodrama constrangedor. E um amigo me diz que em Conrad encontramos de modo verdadeiro tudo o que em Hemingway soa falso. Depois de Lolita, vamos à Conrad - um itinerário meio imprevisível, mas é assim que se lê.

Terça-feira, Julho 10, 2007

Braços abertos sobre a Guanabara

O Cristo Redentor não é lá uma maravilha, mas, como já sugeriram as canções populares, ganha alguma força trágica no gesto de abrir os braços para uma cidade cuja violência já se tornou caricata. O contraste deve ter fascinado os membros do júri. Agora o dever dos cariocas parece ser esse: manter a cidade do jeito que está, para que o Cristo não perca seu posto. Se a vida na cidade melhora, o Cristo fica menos maravilhoso.

Segunda-feira, Julho 09, 2007

Crappy mood

O que me incomoda com a poesia, digamos, minimalista, principalmente a que é escrita nos dias de hoje e especialmente a que é escrita no Brasil, é a falta de presença de espírito, de ambição, de vontade mesmo de dizer alguma coisa. Mesmo no Parnasianismo, os poetas pareciam estar se esforçando como podiam para dizer alguma coisa. Os poetas minimalistas de hoje parecem estar sempre apenas olhando abestalhadamente para o vazio, provavelmente babando na gravata, como dizia o Nelson Rodrigues. Vejamos, por exemplo, um poema de Manoel Ricardo de Lima, retirado do livro de título sugestivo, Embrulho (a angústia intestinal por vezes nos põe assim abobalhados, como esperando uma saída para o infortúnio, mas sempre à espera do desastre):

Manhã

Ontem
o canto
da cotovia

esta manhã
: canto
de pardal

respingo
verão
porta aberta

boas vindas
a quem custa
chegar

Quer dizer, é muito complacência consigo próprio, ao meu ver. Se for para escrever um poema assim tão sem recursos, que seja para dizer o máximo dizendo o mínimo. Mas o caso aí é o mínimo dizendo nada mais nada menos do que o mínimo. "Respingo/ verão/ porta aberta". Não, né? E o arremate do poema não está no nível sequer dos bons chistes de uma ou outra música popular.

E há muita gente escrevendo assim. Muita gente mesmo. Nada contra. Que escrevam. Só não espalhem como poesia, porque desvaloriza o ofício. Não vejo diferença alguma entre o sujeito que publica um poema como esse e o sujeito que arma uma banquinha no meio da praça, dizendo-se médico e receitando comprimidos de farinha.

Qualquer pessoa que tenha lido Keats uma vez na vida não vai aceitar esse tipo de poema. Não estou sugerindo que se deva escrever como Keats. Mas é que o sujeito que leu Keats ou Baudelaire ou Bandeira ou Gullar uma vez na vida vai pensar: opa, peraí, onde foi que eu dormi no ponto? Agora é isso aqui que é poesia? Desde quando? Cadê minha carteira? Alguém tem uma aspirina? My heart aches.

Parece-me que a maioria dos poetas brasileiros que escrevem assim, escrevem com algo como isso em mente: "William Carlos Williams é muito massa, ó, e essas comédias do e.e.cummings, putz, e é bem facinho!". Pensam assim delinquentemente, embora aparentem intelectualismos cheios de aparatos. É bem facinho.

Mas não era fácil. Não é fácil. Nunca é. Por isso, insisto na minha proposta para esse novo milênio. Acho que vejo aí uma saída.

Domingo, Julho 08, 2007

Um classicista nos esportes

Federer acaba de vencer Nadal e conquistar pela quinta vez o torneio de Wimbledon. Eu já estava preocupado. Da última vez que se enfrentaram, Nadal tinha vencido. Minha simpatia é sempre por Federer. O sueco joga com frieza, precisão e nunca perde a postura aristocrática, um certo tédio essencial. Já Nadal é o aposto: um tanto temperamental, tem bastante garra. Mas garra me entedia. E desde que Zidane se aposentou, Federer é meu esportista predileto. Essa vitória histórica é uma nota feliz no domingo.

Quinta-feira, Julho 05, 2007

A Arte de Ridicularizar

A literatura tem uma desvantagem crucial em relação às outras artes: é mais fácil de ridicularizar. Se um sujeito começa a dançar feito noviça solta no campo a colher amoras a sexta sinfonia do velho Beethoven, os tomates vão para o sujeito. Beethoven apenas franze a sobrancelha e dá de ombros. Se outro sujeito, a propósito de uma fotografia, põe um par de chifres no pensador de Rodin, é o sujeito que sentimos vontade de espancar e largar sem dentes no meio-fio. Mas se qualquer retardado lê um soneto de Camões ou um poema de Ferreira Gullar com voz gentilmente afeminada, Camões cai por terra, Gullar vira palhaço. A depender de quem estiver presenciando a coisa toda, continuaremos achando o sujeito idiota. Mas o poema terá sentido o golpe baixo. Nós recolheremos o poema do chão sujo do sarcasmo grosseiro, espanando-lhe a poeira dos versos e lhe dando tapinhas nos ombros, "não foi nada, não foi nada". Mas foi. É fácil ridicularizar a literatura. Por isso ela funciona melhor em épocas civilizadas. No começo do século XX, por exemplo, quando os duelos entre cavalheiros ainda não haviam desaparecido de todo, o trabalho de disseminar pastiches e avacalhar era da própria literatura. Mas, claro, havia alguma elegância na avacalhação, basta pensar nos poemas de Joyce em Música de Câmara, onde se parodia e sutilmente rebaixa todo um modo semi-morto de fazer poesia amorosa. Mas, ao longo do século XX, à medida que a civilização ia se tornando mais grosseira e mal-educada, o que antes era um recurso da própria literatura começou a se voltar contra ela. A avacalhação deixava de ser uma estratégia textual para ser a moeda corrente na sociedade. Diante dessa reviravolta, os escritores ficaram meio perdidos. Alguns resolveram acompanhar o ritmo da esculhambação, outros preferiram tentar manter alguma fibra e não empurrar o morto ladeira abaixo de vez. Mas já não havia muito o que fazer. A partir do momento em que a avacalhação é o único modo de ser e de estar em sociedade, o sentido em abrir um livro desaparece. Estranhamente, alguma vaidade ainda se apega à imagem do escritor. Daí ainda há gente que se diga escritor e escreva e publique. Não sei qual a estratégia desse gente, mas a minha é, antes de abrir um livro, tentar me deslocar para um estado mental em que os duelos entre cavalheiros é ainda uma possibilidade permanente.

Terça-feira, Julho 03, 2007

A Vida de Shelley

Li por esses dias A Vida de Shelley, uma biografia escrita pelo francês André Maurois, na tradução de Manuel Bandeira. O próprio Maurois, que escreveu também uma biografia sobre Byron, diz numa nota que pretendeu fazer "obra de romancista, bem mais do que historiador e crítico". O livro é leve, muito agradável de ler, acompanhando a "educação sentimental" do poeta. O grande mérito do livro é esse mesmo: é lido sempre com prazer e interesse. Claro que o interesse é mérito do tema do livro, o poeta que escreveu A Defense of Poetry, mas o prazer é mérito de Maurois. Há dois grandes defeitos no livro: a quase completa ausência de referências aos poemas (como escrever a vida de um poeta sem dar algum testemunho sobre seus poemas?) e o pouco aprofundamento na personalidade de Mary Shelley. Durante todo o livro, malgrado os elogios à inteligência e ao espírito da moça, a autora de Frankstein nunca passa de uma mulherzinha ciumenta, sem personalidade, cuja única função no mundo parecia ser a de esperar pela atenção do angelical Shelley. Apesar de a maioria esmagadora das mulheres agirem de fato desse jeito, prefiro crer que Mary Shelley não tinha essa conduta lamentável.
Lendo a biografia, entendo melhor por que T.S.Eliot detestava as idéias de Shelley. Quando ainda era um adolescente em Oxford, Shelley publicou uma espécie de panfleto intitulado A Necessidade do Ateísmo. Foi expulso pelo Reverendo John Walker. O ateísmo e a idéia de amor livre eram as grandes questões na cabeça do jovem Shelley. Odiava o casamento e, no entanto, viu-se obrigado moralmente a se casar com Harriet Westbrook, menina de família que Shelley tentara "converter" para o seu modo de pensar progressista. Não conseguiu exatamente convertê-la, embora Harriet o admirasse muito. Em vez de transformá-la num espírito livre e filosófico como ele próprio, tornou-a uma deprimida apaixonada, sem qualquer sustentáculo moral. Harriet escreveu para Shelley: "Para que viver? Ninguém gosta de mim e não tenho ninguém de quem gostar. O suicídio será um crime para um ser inútil aos outros e insuportável para si mesmo? Uma vez que não há lei divina, pode a lei humana interdizer um ato tão natural?". Talvez nesse momento Shelley tenha percebido que cometera um erro recorrente de todos os progressistas exarcebados: não se pode impunemente embutir à força (das armas ou das idéias intransigentes disfarçadas de iluminismo) pensamentos pretensamente novos (logo, não testados nem adotados natural e sadiamente pela comunidade) na cabeça das pessoas. Qualquer transformação abrupta quase sempre levará a uma sensação de insegurança, ansiedade e angústia. Harriet, anos depois de Shelley abandoná-la por Mary, se suicidará jogando-se num rio, como num sacrifício para a princesa das garotas interrompidas, Ophélia. Mas estava tão sozinha que não tinha ninguém a quem desejar "good night, ladies, good night, sweet ladies, good night".
Shelley sentiu o baque. Com o passar dos anos e das mortes, foi compreendendo o ensinamento do Eclesiastes, de que há tempo para tudo. Leu Dante apaixonadamente e deixou um poema inacabado, O Triunfo da Vida, que, como Eliot sugeriu, aponta para um amadurecimento. Nas palavras de Eliot: "There is evidence not only of better writing than in any previous long poem, but of greater wisdom".
Independemente das idéias, Shelley foi um poeta fortíssimo. O grande poema de Shelley, para mim, é "Adonais", a elegia escrita na ocasião do falecimento do jovem Keats, que Shelley admirava imensamente. O poema entra na tradição das grandes elegias de língua inglesa, que conta com o "Lycidas", de John Milton e, mais recentemente, o poema de Auden em homenagem à Yeats. Um dos versos mais incrivelmente belos que já li na vida consta nesse poema:

"The soft sky smiles, the low wind whispers near:
Tis Adonais calls! oh, hasten thither,
No more let Life divide what Death can join together."


Não mais permita que a Vida separe o que a Morte pode unir. Isto é um verso. Talvez se Castro Alves tivesse sido influenciado por Shelley mais do que por Vitor Hugo, o romantismo brasileiro tivesse alcançado momentos de maior elevação espiritual. Fica a inutilidade da dúvida.
Para completar essa espécie de resenha, pensei em desejar uma nova edição para o livro de André Maurois. Mas, na verdade, quem diabos compraria uma biografia sobre Shelley? Acho que ninguém. Pessoa disse que "um homem deve ser realista para ser gerente de uma fábrica de tachas. Para gerir o mundo deve ser romântico". Certamente tinha em mente Shelley, que, na Defesa da Poesia, escreveu que os poetas eram os "legisladores não reconhecidos do mundo". Hoje, infelizmente, mesmo os artistas não passam de gerentes de fábricas de tachas.