A Vida de ShelleyLi por esses dias
A Vida de Shelley, uma biografia escrita pelo francês André Maurois, na tradução de Manuel Bandeira. O próprio Maurois, que escreveu também uma biografia sobre Byron, diz numa nota que pretendeu fazer "obra de romancista, bem mais do que historiador e crítico". O livro é leve, muito agradável de ler, acompanhando a "educação sentimental" do poeta. O grande mérito do livro é esse mesmo: é lido sempre com prazer e interesse. Claro que o interesse é mérito do tema do livro, o poeta que escreveu
A Defense of Poetry, mas o prazer é mérito de Maurois. Há dois grandes defeitos no livro: a quase completa ausência de referências aos poemas (como escrever a vida de um poeta sem dar algum testemunho sobre seus poemas?) e o pouco aprofundamento na personalidade de Mary Shelley. Durante todo o livro, malgrado os elogios à inteligência e ao espírito da moça, a autora de Frankstein nunca passa de uma mulherzinha ciumenta, sem personalidade, cuja única função no mundo parecia ser a de esperar pela atenção do angelical Shelley. Apesar de a maioria esmagadora das mulheres agirem de fato desse jeito, prefiro crer que Mary Shelley não tinha essa conduta lamentável.
Lendo a biografia, entendo melhor por que T.S.Eliot detestava as idéias de Shelley. Quando ainda era um adolescente em Oxford, Shelley publicou uma espécie de panfleto intitulado
A Necessidade do Ateísmo. Foi expulso pelo Reverendo John Walker. O ateísmo e a idéia de amor livre eram as grandes questões na cabeça do jovem Shelley. Odiava o casamento e, no entanto, viu-se obrigado moralmente a se casar com Harriet Westbrook, menina de família que Shelley tentara "converter" para o seu modo de pensar progressista. Não conseguiu exatamente convertê-la, embora Harriet o admirasse muito. Em vez de transformá-la num espírito livre e filosófico como ele próprio, tornou-a uma deprimida apaixonada, sem qualquer sustentáculo moral. Harriet escreveu para Shelley: "Para que viver? Ninguém gosta de mim e não tenho ninguém de quem gostar. O suicídio será um crime para um ser inútil aos outros e insuportável para si mesmo? Uma vez que não há lei divina, pode a lei humana interdizer um ato tão natural?". Talvez nesse momento Shelley tenha percebido que cometera um erro recorrente de todos os progressistas exarcebados: não se pode impunemente embutir à força (das armas ou das idéias intransigentes disfarçadas de iluminismo) pensamentos pretensamente novos (logo, não testados nem adotados natural e sadiamente pela comunidade) na cabeça das pessoas. Qualquer transformação abrupta quase sempre levará a uma sensação de insegurança, ansiedade e angústia. Harriet, anos depois de Shelley abandoná-la por Mary, se suicidará jogando-se num rio, como num sacrifício para a princesa das garotas interrompidas, Ophélia. Mas estava tão sozinha que não tinha ninguém a quem desejar "good night, ladies, good night, sweet ladies, good night".
Shelley sentiu o baque. Com o passar dos anos e das mortes, foi compreendendo o ensinamento do Eclesiastes, de que há tempo para tudo. Leu Dante apaixonadamente e deixou um poema inacabado,
O Triunfo da Vida, que, como Eliot sugeriu, aponta para um amadurecimento. Nas palavras de Eliot:
"There is evidence not only of better writing than in any previous long poem, but of greater wisdom".Independemente das idéias, Shelley foi um poeta fortíssimo. O grande poema de Shelley, para mim, é "Adonais", a elegia escrita na ocasião do falecimento do jovem Keats, que Shelley admirava imensamente. O poema entra na tradição das grandes elegias de língua inglesa, que conta com o "Lycidas", de John Milton e, mais recentemente, o poema de Auden em homenagem à Yeats. Um dos versos mais incrivelmente belos que já li na vida consta nesse poema:
"The soft sky smiles, the low wind whispers near:
Tis Adonais calls! oh, hasten thither,
No more let Life divide what Death can join together."Não mais permita que a Vida separe o que a Morte pode unir. Isto é um verso. Talvez se Castro Alves tivesse sido influenciado por Shelley mais do que por Vitor Hugo, o romantismo brasileiro tivesse alcançado momentos de maior elevação espiritual. Fica a inutilidade da dúvida.
Para completar essa espécie de resenha, pensei em desejar uma nova edição para o livro de André Maurois. Mas, na verdade, quem diabos compraria uma biografia sobre Shelley? Acho que ninguém. Pessoa disse que "um homem deve ser realista para ser gerente de uma fábrica de tachas. Para gerir o mundo deve ser romântico". Certamente tinha em mente Shelley, que, na
Defesa da Poesia, escreveu que os poetas eram os "legisladores não reconhecidos do mundo". Hoje, infelizmente, mesmo os artistas não passam de gerentes de fábricas de tachas.