Quinta-feira, Setembro 27, 2007

Senso comum

É impossível existir crítica literária sem que haja um certo consenso a respeito do que é escrever bem. Escrever bem não apenas no sentido de concatenar adequadamente frases e selecionar estilisticamente palavras, mas num sentido mais geral que também englobe estruturação da narrativa, elaboração de situações e personagens que convençam - não apenas no sentido de personagens psicologicamente realistas - e, claro, a capacidade imaginativa do autor e, mais claro ainda, sua inteligência, que envolve o ter alguma coisa a dizer, pressupondo que o autor pensou em algo e realmente acredita, senão nas conclusões, pelo menos nas perguntas que se fez.

Mas, depois de todas as teorias que cercaram o tema da linguagem no século passado, já não se pode dizer que um livro é mal escrito. Já não parece haver consenso algum. O que é apenas uma fachada. Na verdade, há consenso. O consenso está apenas encabulado. Se um sujeito escreve "Em redor do buraco tudo é beira", como na paródia de um rock que o Ariano Suassuna canta, e chama isso de conto ou de poema, e põe um título e publica, haverá sempre a chance de alguém dizer que, sim, isso é boa literatura. E pior: o sujeito terá diversas saídas relativistas para justificar por que "Em redor do buraco tudo é beira" é boa literatura. E a argumentação pode ser tão lógica, embora parta de um absurdo, que convencerá outros de que, sim, é boa literatura. E o autor de "Em redor do buraco tudo é beira" dará entrevistas e falará a estudantes de todo o país sobre o ofício do escritor.

É algo que não acontece quando o assunto é música, por exemplo. Mesmo depois de todos os movimentos de vanguarda na música do século XX, se um sujeito canta terrivelmente desafinado, não há teoria musical que o justifique. E ainda que esse sujeito consiga encontrar um público que goste dele, esse público gostará dele sabendo que é ruim musicalmente. Dirão: "eu gosto...e daí?", mas não ficarão vaidosos, achando-se os entendidos em música. Gostar de lixo é totalmente compreensível. Defender que lixo é bom é idiota. Isso não acontece, porque, na música, ainda reina o sadio senso comum de que música é para quem tem talento. Simples assim.

Mas na literatura não é tão simples. Hoje, você pode gostar de lixo e ainda argumentar que bom mesmo é lixo. E argumentar tão bem a ponto de convencer pessoas. Não precisa ter talento. A literatura brasileira hoje, por exemplo, parece uma agência de modelos golpista: a mãe leva lá a menina gordinha e banguela e os agentes a convencem de que sim, sua filha tem um futuro promissor nas passarelas.

Mas, no fim das contas, o senso comum ainda vale, subterraneamente. Todos sabem o que é escrever bem. Assim como todos sabem que o sujeito está cantando desafinado. Só estão intimidados com as argumentações que pairam no ar. Vez ou outra alguém se cansa de tanta condescendência e argumentação fajuta e diz em alto e bom tom: pelo amor de Deus, esse livro é uma bosta! Será visto como reacionário ou totalitarista sem argumentos. Às vezes, até como ingênuo, por acreditar no senso comum que diz que Montaigne, Wordsworth e Proust foram grandes escritores.

Quarta-feira, Setembro 26, 2007

O caçador de borboletas

Entrevista com o Nabokov.

"My loathings are simple: stupidity, oppression, crime,
cruelty, soft music. My pleasures are the most intense known to
man: writing and butterfly hunting".


Esse é o melhor tipo de humor, o que diz algo engraçadíssimo e um tanto absurdo com um tom sério, compenetrado. É o humor de alguns esquetes do Monty Pynthon. Essa entrevista é curta e vale a pena ler. Muito boa.
Sei contar até cinco

1. Um today's fortune como esse devia ser motivo suficiente para abandonar de vez o orkut:

Today's fortune: Behind an able man, there are always other able men.

2. Também tenho grandes esperanças a respeito do Cansei de Ser Sexy, mas Maria Callas só é possível ouvir se você estiver baleado. Se bem que ser baleado não é lá uma situação exemplarmente dramática. Na hipótese de um balaço, os pensamentos prováveis são do tipo "pronto, agora fui baleado, that's really nice". Não combina muito com La Traviata.

3. Visitas ao oculista seriam mais legais se as letrinhas não fossem embaralhadas. Se fossem frases do tipo: "é, você está apenas quase cego!" ou "those are pearls that were your eyes, sucker!".

4. O Alexandre posta Paulo Francis e há quem se dê ao trabalho de ir apontar erros textuais na coluna. Os erros do sujeito eram ou mais inteligentes ou mais divertidos do que a chatice dos corretores. Tenha dó.

5. E a propósito de chatices: nada no mundo é tão chato quanto escrever um projeto de mestrado.

Sábado, Setembro 22, 2007

Tempos Sinistros

"Things have also changed in terms of Oxford’s eccentrics. Rarely do we now hear stories such as the Dean of Keble who bit the Bishop of Oxford’s leg during a heated academic dispute, or the elderly Merton don who was so depressed he gave up wearing clothes".

Há algo errado numa época em que já ninguém se deprima a ponto de desistir de usar roupas.

Daqui.

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

Waugh

Entrevista do Evelyn Waugh, na Paris Review, abril de 1962:

"Experiment? God forbid! Look at the results of experiment in the case of a writer like Joyce. He started off writing very well, then you can watch him going mad with vanity. He ends up lunatic".

Se você ler o conto Os Mortos e depois saltar logo para o Finnegans Wake, provavelmente vai concordar que o autor enlouqueceu. Ou que pelo menos levou uma boa pancada na cabeça, perdendo o jeito de concatenar letras, frases, parágrafos. Deve haver um grande livro escondido em Finnegans Wake. Mas é como um quebra-cabeça. Você teria que montar todinho.

"P.G.Wodehouse affected my style directly".

P.G.Wodehouse devia ter afetado o estilo da maioria dos escritores do mundo.

"I think that Hemingway made real discoveries about the use of language in his first novel, The Sun Also Rises. I admired the way he made drunk people talk".


Infelizmente, quem afetou o estilo da maioria dos escritores do mundo foi o miserável do Hemingway. O sol também se levanta seria um livro perfeito se todos os personagens lá pelas tantas não tivessem tido a mesma idéia idiota: deixar Paris e viajar para a Espanha. Por que diabos alguém faria isso na década de vinte?

"I enjoyed the first part of Tender is the Night. I find Faulkner intolerably bad".

Meio difícil de engolir esse comentário blasé em relação ao Scott Fitzgerald. Se há outro autor no século XX que se aproxima de Waugh, tanto em qualidade literária quanto em conteúdo, é Scott. E acho que ninguém me chamaria de louco se eu sugerisse uma aproximação entre as duplas Nick e Gatsby, de O Grande Gatsby, e Ryder e Sebastian, de Brideshead Revisited. Acho que nesse tom quase indiferente há um pouco da boa e velha ansiedade da influência acontecendo. Tal como quando Nabokov diz detestar Thomas Mann na entrevista para a mesma Paris Review.

"I reverence Catholic Church because it is true, not because it is established or an institution".


E faz muito bem.

"An artist must be a reactionary. He has to stand out against the tenor of the age and not go flopping along; he must offer some little opposition".

Uma tradução livre para flopping along seria rodando a bolsinha? Talvez, talvez.

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

Imperfeições

Por que abrir Quatro Casamentos e um Funeral com uma versão horrenda de But Not For Me, na voz do intragável Elton John, quando se tinha à mão a sobriedade elegante e melancólica de Chet Baker? Optar por Elton John no lugar de Chet Baker é crime suficiente para condenar um diretor ao ostracismo - seria natural enviá-lo para algum lugar inóspito no continente negro, para fins meditativos e penitentes. Mas o resto do filme é tão agradável que é quase possível perdoá-lo.

Algo parecido se dá com Todos Dizem Eu Te Amo, de uncle Woody. Que é o melhor filme do velhinho depravado, está claro e não se discute, seguido, em ordem, por Manhattan, Annie Hall, A Rosa Púrpura do Cairo e Zelig. Agora, não era o caso de dispensar aquela piadinha infame sobre o filho ter um problema cardíaco, daí sua súbita faceta republicana? Não é, dentro de uma obra-prima, ceder espaço para o chiste barato, com endereço certo - o senso de sarcasmo vagabundo dos idiotas?

Nos meus filmes favoritos acontece sempre de uma ou outra imperfeição interromper momentaneamente minha felicidade e satisfação contínuas. Mas parece certo que seja assim. Conhecemos as imperfeições daqueles de que realmente gostamos. Quando se trata do que não gostamos, sequer percebemos o que há de torto: só desejamos que passe logo, que vá embora, e a idéia de perfeição ou imperfeição sequer entra em jogo, já que o que temos é uma sensação geral de erro, de coisa que não devia existir. Mas quando se trata do que gostamos, as imperfeições são o lugar onde nos reconhecemos por oposição. E, caso tentássemos sublimá-las, ou se fosse possível mesmo erradicá-las, apenas nos afastaríamos do objeto de afeto (ou, em muitos casos, de obsessão).

Sexta-feira, Setembro 14, 2007

Paris é uma festa móvel

Assisti hoje a The Lost Generation, um documentário sobre a Paris e os escritores da década de vinte. Foi bom ver Scott Fitzgerald se mexendo, rindo, embora os registros fossem curtinhos, incluindo o que Woody Allen usou em Zelig, o filme mais engraçado dele. Reparei também pela primeira vez que Gertrude Stein é idêntica a Henry James - é como o Henry James do Mundo Bizarro: um Henry James mulher e experimentalista. O documentário só cita muito rapidamente o T.S.Eliot, que ouvimos recitando The Waste Land, com uma voz cavernosa. Fala-se muito de Hemingway. Queria saber mais sobre Sylvia Beach, dona da Shakespeare & Company, a livraria que abrigava todos esses poetas e prosadores. Há aquela foto clássica dela, na porta da livraria, com Joyce fazendo pose, de bengala. Na foto, Sylvia esquelética, cabelo despenteado na altura dos ombros, parece um pouco doida. Mas muito adorável. Uma sacerdotisa da arte. Trabalhou como enfermeira na guerra, depois abriu a livraria em Paris. Tirava fotos de todos os escritores e pendurava na parede, entre as estantes de livros. Publicou Ulysses, heroicamente. Essa Paris só durou até 1927, 1928. Pouco depois, turbas de americanos a invadiram para brincar de artistas expatriados. Fitzgerald disse que a imagem dos navios chegando cheio de americanos era sinistra. A vida imitando estupidamente a arte, como à época do lançamento de Os Sofrimentos do Jovem Werther. Mas dessa vez não queriam morrer, queriam viver intensamente, viajar até a Espanha, como Hemingway, correr com os touros e escrever um grande livro. Nem é preciso dizer que ninguém escreveu nada.

Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Para quem não precisa acordar cedo

A entrevista de Larry David com David Letterman vai ao ar hoje. Letterman entrevistará também Danny DeVito, o eterno Pingüim (preferia dois blocos com o Larry David). O convidado musical será a Avril Lavigne, de quem sou fã confesso.

Hey you, hey you, I know that you like me.

Vi hoje mais cedo O Incrível Homem Que Encolheu - priceless. Amanhã escrevo sobre (se tiver tempo). Tão bom quanto The Little Shop of Horrors, onde consta a primeira aparição de Jack Nicholson no cinema, fazendo um depravado que vai ao dentista na esperança de ser torturado: parece que os produtores olhavam para Jack e não imaginavam outro papel que não o de alguma espécie de maluco - um masoquista, um bêbado, um possuído, um obsessivo-compulsivo.

E hoje fiquei sabendo que a terceira temporada de Weeds vai ao ar em novembro. Mal podemos esperar.

Nota: não abandonaremos o trema.
When you're 64

Help the aged,
one time they were just like you,
drinking, smoking cigs and sniffing glue.


Jarvis Cocker, ali por volta de 1998. Esses anos finais dos 90's têm o mau gosto de não se distanciar. São sempre ontem.

Segunda-feira, Setembro 10, 2007

Os livros que não mudaram sua vida

Correu durante a última semana na blogosfera portuguesa uma proposta de cada blogueiro fazer a sua lista de livros que não lhe mudaram a vida (se interessar, por curiosidade, você pode encontrar vários links para as listas neste post da Carla Hilário). O que me surpreendeu, e surpreendeu também a blogueira supracitada, é a presença constante de livros como Em Busca do Tempo Perdido, Ulysses e Moby Dick. Fiquei mesmo com uma impressão de ressentimento quase generalizado em relação a essas obras que, coincidentemente, chamam a atenção também pelo volume. Talvez as pessoas sintam-se meio perseguidas e pressionadas a lerem esses livros gigantes, porque são clássicos, e então lêem por desencargo de consciência, com mau humor, daí não conseguirem apreciá-los. Porque você não lê esses livros numa tarde. Leva-se algum tempo e é de supor que, durante o tempo em que você consome a lê-los e a vivenciá-los, algo aconteça com a sua percepção de mundo. Não é o caso de adotar uma perspectiva de vida, por exemplo, melvilliana. Mas acredito que sua consciência, se não a respeito do mundo, se não a respeito das pessoas, no mínimo a respeito da literatura, enlarguece. E, para quem lê regularmente, um enlarguecimento da consciência a respeito da literatura é uma mudança relevante. Então afirmar de pronto que a leitura de Em Busca do Tempo Perdido em nada mudou sua vida me parece uma constatação um tanto quanto suspeita ou puramente provocativa, senão, como já disse, ressentida de algum modo. Não se trata de dizer que a leitura de tal livro lhe fez comprar um carro ou destruir a TV ou passar a gostar de Bjork (se há tal livro, queime, hehe). Eu entendo quando citam que um livro como A Náusea não mudou em nada sua vida, por conta de um certo esquematismo do livro, um ranço de tese filosófica, não muito diferente em intuito de romances naturalistas do século XIX - é um livro que tenta impor de maneira meio óbvia demais uma certa visão de mundo. Mas um livro como Moby Dick ultrapassa qualquer esquematismo. É irredutível a qualquer mesquinharia. O único caso de um livro como esse não mudar em nada sua vida é se você for um sujeito que odeia literatura e não quer saber de livros. Por outra via, houve também quem dissesse que livro algum muda a vida de uma pessoa. Com o que discordo também. Novamente, não se está falando de epifanias e súbitas iluminações espirituais - acho que esse tipo de coisa só acontece, se acontece, como resultado de uma acumulação de experiências as mais variadas (ler um livro incluso). Mas depois de se ler, por exemplo, Dom Quixote, é inevitável que você adicione ao seu repertório, não apenas um dado cultural que lhe servirá para exibicionismos de botequim, mas uma janela, um ponto de vista por onde observar o mundo - algo como uma peça no quebra-cabeça. Negar isso é negar que a literatura tenha qualquer efeito.
O Anjo

Quem é esse? Qual? Esse que vejo
Esconder-se atrás de tuas retinas.
Não sei, vive aí, cheio de desejo,
Dir-se-ia um Anjo entre ruínas.

Um Anjo? E por que o confinas
Assim, dentro de ti, como percevejo
Que te dilacera com garras finas?
Não sei, por maldade, talvez, ou pejo...

Pior que se ao espelho não aparece
Sinto-me por um filho abandonado.
É caso para conjuro! Ou para prece...

Talvez, e talvez sempre cá tenha estado,
Sonhando o Inferno dentro de mim.
Ou Paraíso? Talvez. Um além triste, sem fim.

by ludovico himself, numa faceta poeta decadentista português do século XIX, e em saudações a Stevenson e Philip K Dick, hehe.

Domingo, Setembro 09, 2007

I only speak right on

"I come not, friends, to steal away your hearts:
I am no orator, as Brutus is;
But, as you know me all, a plain blunt man,
That love my friend; and that they know full well
That gave me public leave to speak of him:
For I have neither wit, nor words, nor worth,
Action, nor utterance, nor the power of speech,
To stir men's blood: I only speak right on;
I tell you that which you yourselves do know;
Show you sweet Caesar's wounds, poor poor dumb mouths,
And bid them speak for me: but were I Brutus,
And Brutus Antony, there were an Antony
Would ruffle up your spirits and put a tongue
In every wound of Caesar that should move
The stones of Rome to rise and mutiny"


O que assombra em Shakespeare é a ambição. E, claro, a capacidade de realização. Eu não consigo sequer imaginar qual era seu estado de espírito antes de escrever o discurso de Marco Antônio diante do cadáver de César. Não bastava um discurso inflamado, contundente, emocionante. Era preciso um discurso que fosse tudo isso e ainda contivesse uma estratégia racionalíssima que invalidasse as justificativas de Brutus para o assassinato, uma estratégia que não fosse destruída pela massa possessa, que resistisse a toda tensão. Era preciso que o pensamento, contido, desconfiado, fizesse a emoção atingir o mais alto grau - uma comoção coletiva. Era um desafio e tanto. Qualquer grande poeta poderia tremer diante dessa necessidade. E Shakespeare consegue de tal modo que é impossível imaginar um melhor discurso. Provavelmente não houve artista mais ambicioso do que Shakespeare. Exceto Dante.

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

Copa

Não entendo a indignação do público da Copa de Literatura Brasileira em relação à resenha da Renata Miloni sobre o Mãos de Cavalo, de Daniel Galera. Criticar o mau português do livro foi o ponto alto da resenha. Livros, já foi dito, são bem ou mal escritos, eis tudo. Sim, pode ser o estilo do autor. Mas é aceitável, ou melhor, é necessário condenar um autor por escolher um estilo ruim. Essa idéia de que "ah, é um personagem falando, então pode falar com português ruim" destrói a literatura brasileira há muito tempo. A idéia não é criar um espaço ficcional? Por que não criar um em que tudo seja dito de modo legível? Não é isso que todo bom escritor faz? Será que todos os ingleses falam como falam os personagens de Ian McEwan? Não basta inventar um estilo - o essencial é inventar um bom. Parece que, para que a literatura brasileira progrida, a crítica literária brasileira precisa voltar 100 anos no tempo e insistir que é preciso escrever em bom português.

Terça-feira, Setembro 04, 2007

Profissão: Repórter

The Passenger, de Antonioni, ia muito bem até que a personagem de Maria Schneider entrasse no filme. A primeira aparição dela, em Londres, sentada num banco, prometeu muito. Mas, a partir do momento em que o casal se firma e partem juntos em viagem, o filme perdeu um pouco do interesse (para mim, está claro). Antes de Schneider, a trama parecia bem mais estimulante: a princípio, você não sabe ao certo por que Jack Nicholson assumiu a personalidade do traficante morto. É possível que ele esteja querendo fugir de tudo - o início do filme, no desconforto do deserto africano, espécie de metonímia para o desconforto interior, me lembrou outro filme que toca o tema, O Céu que nos protege, de Bertolucci -, mas também é possível que ele tenha farejado uma boa pista para uma reportagem revolucionária: algo que nenhum outro repórter tinha feito antes, assumir outra personalidade, entrar mesmo dentro da investigação, não apenas como observador, mas como agente. Eu imaginei que o filme sustentaria essa ambiguidade - o personagem fugindo de si e ao mesmo tempo realizando uma instância de si ao extremo: ao mesmo tempo que fugia, caçava. Um filme ao mesmo tempo estimulante intelectualmente e divertido de acompanhar. Mas eis que Maria entra em cena e o filme perde força com diálogos vagos, auto-indulgentes. O que Antonioni estava conseguindo com uma situação concreta preferiu trocar por uma conversa abstrata sobre fugir de si e sobre a multiplicidade de eus. Claro, foi uma escolha deliberada e consciente: o próprio personagem de Jack Nicholson a certa altura irrita-se com a insistência da personagem de Maria Schneider em sustentar aquele estado de espírito reflexivo, cheio de cisma, meio onírico e um tanto quanto forçado. E, nisso, surpreendi a mim mesmo gostando mais do silêncio do começo do filme do que da conversa infinita. O filme não chega a ficar ruim. No final, principalmente, melhora bastante. Tem um final muito bonito justamente porque as ambiguidades do começo do filme todas voltam à tona, de modo dramático e silencioso. O movimento final, com a câmera aproximando-se das grades da janela até que as apague, provavelmente, vai ficar gravado na minha memória cinéfila. Mas não consigo não lamentar por um filme que poderia ser ainda melhor. De qualquer jeito, apagou bastante a má imagem que eu tinha de Antonioni, por conta de O Eclipse, que me fez dormir.

Domingo, Setembro 02, 2007

Buried on Sunday

Solomon Grundy,
Born on Monday,
Christened on Tuesday,
Married on Wednesday,
Took ill on Thursday,
Worse on Friday,
Died on Saturday,
Buried on Sunday,
And that was the end of Solomon Grundy.