É impossível existir crítica literária sem que haja um certo consenso a respeito do que é escrever bem. Escrever bem não apenas no sentido de concatenar adequadamente frases e selecionar estilisticamente palavras, mas num sentido mais geral que também englobe estruturação da narrativa, elaboração de situações e personagens que convençam - não apenas no sentido de personagens psicologicamente realistas - e, claro, a capacidade imaginativa do autor e, mais claro ainda, sua inteligência, que envolve o ter alguma coisa a dizer, pressupondo que o autor pensou em algo e realmente acredita, senão nas conclusões, pelo menos nas perguntas que se fez.
Mas, depois de todas as teorias que cercaram o tema da linguagem no século passado, já não se pode dizer que um livro é mal escrito. Já não parece haver consenso algum. O que é apenas uma fachada. Na verdade, há consenso. O consenso está apenas encabulado. Se um sujeito escreve "Em redor do buraco tudo é beira", como na paródia de um rock que o Ariano Suassuna canta, e chama isso de conto ou de poema, e põe um título e publica, haverá sempre a chance de alguém dizer que, sim, isso é boa literatura. E pior: o sujeito terá diversas saídas relativistas para justificar por que "Em redor do buraco tudo é beira" é boa literatura. E a argumentação pode ser tão lógica, embora parta de um absurdo, que convencerá outros de que, sim, é boa literatura. E o autor de "Em redor do buraco tudo é beira" dará entrevistas e falará a estudantes de todo o país sobre o ofício do escritor.
É algo que não acontece quando o assunto é música, por exemplo. Mesmo depois de todos os movimentos de vanguarda na música do século XX, se um sujeito canta terrivelmente desafinado, não há teoria musical que o justifique. E ainda que esse sujeito consiga encontrar um público que goste dele, esse público gostará dele sabendo que é ruim musicalmente. Dirão: "eu gosto...e daí?", mas não ficarão vaidosos, achando-se os entendidos em música. Gostar de lixo é totalmente compreensível. Defender que lixo é bom é idiota. Isso não acontece, porque, na música, ainda reina o sadio senso comum de que música é para quem tem talento. Simples assim.
Mas na literatura não é tão simples. Hoje, você pode gostar de lixo e ainda argumentar que bom mesmo é lixo. E argumentar tão bem a ponto de convencer pessoas. Não precisa ter talento. A literatura brasileira hoje, por exemplo, parece uma agência de modelos golpista: a mãe leva lá a menina gordinha e banguela e os agentes a convencem de que sim, sua filha tem um futuro promissor nas passarelas.
Mas, no fim das contas, o senso comum ainda vale, subterraneamente. Todos sabem o que é escrever bem. Assim como todos sabem que o sujeito está cantando desafinado. Só estão intimidados com as argumentações que pairam no ar. Vez ou outra alguém se cansa de tanta condescendência e argumentação fajuta e diz em alto e bom tom: pelo amor de Deus, esse livro é uma bosta! Será visto como reacionário ou totalitarista sem argumentos. Às vezes, até como ingênuo, por acreditar no senso comum que diz que Montaigne, Wordsworth e Proust foram grandes escritores.
