Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

Homem Comum

Eu devia estar lendo Dickens no Natal ou assistindo a A Felicidade Não Se Compra, porque algumas coisas são lugares comuns porque fazem sentido, mas acabei lendo Homem Comum, do Philip Roth. Meu primeiro contato com o livro tinha sido dos piores. Numa livraria de aeroporto, abro o livro ali pela metade e caio numa descrição do sujeito investindo nada cavalheirescamente na traseira de uma secretária de 19 anos. Fecho o livro com enfado, porque li O Complexo de Portnoy não faz muito tempo e, tolo, penso: "Ainda com esses enrabamentos e felações e etc?". Um mês depois, abro o livro de novo, agora na Siciliano do Iguatemi, na introdução. Sigo lendo a descrição do enterro do sujeito e, talvez pela influência de uma temporada de Six Feet Under que acabei de assistir, com a minha mente pródiga em imagens de funerais, me emociono. Ou por causa disso ou porque Philip Roth é um escritor muito bom. Depois de terminar o livro, que ganhei da minha namorada, tendo a achar que os episódios de Six Feet Under tiveram alguma influência, mas Philip Roth é definitivamente um grande escritor para mim. Que ele é para os outros, eu meio que já sabia. Para mim, ainda estava em suspenso. Não está mais. Só talvez não fosse o melhor momento de lê-lo, adaptado ao espírito natalino como eu estava. Enfim. O livro é curto, mas há tanto sofrimento, tanto remorso que você quase implora para que o sujeito encontre alguma redenção, por mais precária que seja, mesmo que venha de um baú de ossos. E ela, afinal, vem, na cena do cemitério. Tanto no consolo nos ossos dos pais (ao contrário do atormentado Hamlet, que só encontra mais amargura na caveira), que nunca o julgariam de modo tão pesado e definitivo como o julgaram os filhos, e na conversa com o coveiro. Esse trecho todo é sensacional. O coveiro descrevendo pragmaticamente como cavar um buraco que servirá de cova. Nessa cena, Roth entrega muito pouco. Toda a ressonância da descrição no espírito do sujeito tem de ser desvendada pelo leitor. Nessa curiosidade do personagem em saber como se enterram os mortos, há algo da dignidade que os personagens hemingwaynianos tanto buscavam. É isso que o homem comum quer saber quando pergunta ao coveiro como faz o serviço: quer saber como enterrar os mortos, como deixar as coisas para trás e aproveitar minimamente o pouco que lhe resta, sem ser carcomido ainda vivo por remorso. É preciso deixar alguma coisa para os vermes. Belo livro, belo livro. Vou ler As Viagens de Gulliver, de Swift, agora. Começar o ano com um espírito um pouco mais satírico, menos melancólico.

Sábado, Dezembro 15, 2007

Sundown City

O blog está abandonado às moscas, porque ando ocupado acompanhando a polêmica da CPMF. Fora isso, tive de fazer sucessivas viagens a Belo Horizonte, por conta da seleção de mestrado da UFMG. Por sinal, passei. Pelo jeito, vou mesmo viver lá por dois anos, o que por hora me parece horrível. Não quero ir embora de Sundown City. Apesar de ter achado bonita a universidade e imaginar que, andando ali pela trilha que leva para a faculdade de Música, numa manhã de quarta-feira, eu não me sentiria completamente miserável. Só que vou para a faculdade de Letras. Não tem nenhuma trilha bonita no bosque até lá. Mas tem a biblioteca, que deve ser melhor que a da UFC. O projeto é passar dois anos lendo tudo o que um sujeito deveria ler para se considerar civilizado e depois...Depois, não sei. Dormir talvez. Dormir é sempre uma possibilidade atraente.

E, por via das dúvidas, Feliz Natal.