Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

There and back again

"In a hole in the ground there lived a hobbit. Not a nasty, dirty, wet hole, filled with the ends of worms and an oozy smell, nor yet a dry, bare, sandy hole with nothing in it to sit down on or to eat: it was a hobbit-hole, and that means comfort."

Quando Lord of the Rings estreou no cinema, acho que eu tinha por volta de uns 18 anos. Nessa época, eu estava mais preocupado em ler Crime e Castigo. Cheguei até a ler A Idade da Razão, do Sartre. De modo que não estava lá muito inclinado a me divertir com um filme sobre elfos e anões e etc. Assisti ao primeiro, achei divertidinho, mas não assisti ao resto da série nem fui atrás de ler o livro. E, suprema idiotice, considerava meio half-wit um amigo meu que nunca lia nada, mas que devorou toda a trilogia em um mês (esse meu amigo é bem curioso - leva uma vida bastante banal, é um hobbit respeitável - mas adora histórias de aventuras e soube que ultimamente anda fascinado com livros sobre o Santo Graal).

Bem, as voltas que o mundo dá na nossa cabeça. Estava na casa do vocalista da minha banda e por acaso ele tinha lá o Hobbit em inglês. Abri sem muito interesse e li o primeiro parágrafo aí em cima. Não consegui parar de ler. Cheguei a me arrepiar quando li isso:

"This is a story of how a Baggins had an adventure, and found himself doing and saying things altogether unexpected. He may have lost the neighbours' respect, but he gained - well, you will see whether he gained anything in the end."


O que me deixa meio pensativo: eu teria gostado se tivesse lido aos 18 anos? Ou não teria gostado, já que não me empolguei tanto com o filme, e estava numa fase nojenta de pseudo-intelectual blasé que acaba de entrar na universidade? Ou será que o filme é ruim e eu teria gostado do livro? Ou ainda: será que o Senhor dos Anéis não é nem de perto tão bom quanto o Hobbit?

Muitas perguntas, mas nenhuma delas interessa. Fico, sim, surpreso de ter vivido até os 24 anos sem consciência de que The Hobbit é o livro mais bonito jamais escrito. Mas, por outro lado, fico feliz de só ter lido agora que vou abandonar meu hobbit hole, onde não tenho de lavar roupa, nem preparar comida, e há sempre uma série divertida na tv a cabo. Provavelmente me perguntarei muitas vezes "why, why did I leave my hobbit hole?", enquanto estiver nas Misty Mountains de Minas Gerais. Mas será bom, de algum jeito (uma das disciplinas que vou cursar chama-se "poetas canônicos" e é ministrada por um inglês excêntrico, pelo que me contou minha orientadora - esse título "poetas canônicos" balança meu coração).

Lendo o Hobbit, uma das coisas que me incomoda, e que meio que acabei de fazer no parágrafo acima, é a suposta simbologia. Um amigo me disse: "Quando você terminar, quero que me diga o que significa o dragão". Isso tira a graça toda. Eu não quero que signifique nada, quero que seja um dragão mesmo. Um dragão é suficientemente fascinante. Não precisa significar nada. Ainda mais um dragão como Smaug, bastante articulado. E os dwarfs não são os judeus. São apenas os dwarfs. E The Battle of Five Armies não é metáfora para nenhuma grande guerra mundial. Até porque foi uma batalha bem mais elegante, envolvendo criaturas bem mais heróicas.

Anyway. Bilbo Baggins é o melhor. Vai haver uma adaptação para o cinema, ao que parece. Provavelmente não fará frente ao livro, porque uma das melhores coisas do livro é o tom narrativo do Tolkien (fiquei surpreso de ler que, para se adaptar melhor ao Senhor dos Anéis, Tolkien considerou mudar o discurso do livro, eliminando as ocasiões em que o narrador se dirige diretamente ao leitor, o que constituiria um crime estilístico).

Bem, agora que estou empolgado com dragões e guerreiros e florestas encantadas, vou atrás de ler o Beowulf. Saiu recentemente uma edição que parece bastante digna. Só duvido que conste nas bibliotecas de Sundown City.