Quarta-feira, Julho 23, 2008

Why so serious?

O Coringa de Jack Nicholson é o melhor Coringa possível para o Batman de Tim Burton e o Coringa de Heath Ledger é o melhor Coringa possível para o Batman de Christopher Nolan. À parte isso, nenhuma das duas atuações vale a pena de morrer por elas. Aliás, não consigo lembrar nenhuma atuação que valha morrer. Consigo lembrar de uns três poemas que sim, depois de escritos, o sujeito podia cheirar um Empire State Building de cocaína, como o The Brigde, de Hart Crane, que não cheirou, mas pulou de um navio em alto mar ("adeus, pessoal", teria dito antes de se jogar para morrer no mar, como, antes dele, Shelley).

Quarta-feira, Julho 16, 2008

De volta à civilização ocidental

Já está à venda De sombras e vilas, o livro de estréia de Cláudio Neves, poeta que, nascido no Rio de Janeiro, mora em Fortaleza há quase uma década. A editora é a 7Letras, o prefácio é de Paulo Henriques Britto. Posto aqui, em primeira mão, um dos poemas do livro. Li esse poema pela primeira vez há uns sete anos atrás, quando o Cláudio foi meu professor no Colégio 7 de Setembro, aqui em Fortaleza. Foi o sujeito que me apresentou a Yeats, Stevens e Rilke, a turminha da pesada que me afastou para sempre da brilhante carreira na advocacia que mamãe preparava para mim. Colégio serve para alguma coisa às vezes. Bem, do poema eu gostei desde a primeira leitura, naqueles anos de escola. E, relendo agora, gosto ainda mais. Mas é só uma pequena amostra do livro. O poeta tem mais de sete faces. O problema de conhecer o sujeito é que qualquer comentário soa tendencioso. Melhor deixá-los a sós com o poema:


Variações sobre o silêncio


O teu silêncio
encanta as sombras,
esfria a tarde,
proíbe as nuvens.

(E aquela fica
eternamente
na forma de um poodle)

*

Há um silêncio branco
se sorris,
um outro negro
se não falas.

(E aquele, azul
como uma chama,
de quando, súbito,
te calas.)

*
O teu silêncio é andrógino,
inconcluso,
como o vazio de antes dele,
como a suspeita de um silêncio
antes de tudo.


*
O teu silêncio está na tua forma
como a lua no mar,
como a margem no rio,
o quarto no espelho,
a geometria no espaço.

Como a curva
no vôo de um pássaro.

Terça-feira, Julho 15, 2008

Fora com a civilização ocidental

Burocracia é o modo do Estado paralisar o indivíduo. É o modo do Estado manter o indivíduo quieto, terrivelmente amedrontado diante de pilhas e pilhas de papéis e filas e corredores. O sujeito pode até ter uma grande idéia, mas no momento seguinte lhe ocorre a visão da papelada e liga a TV e dorme assistindo Will & Grace. Se eu soubesse a burocracia que se sofre para tirar uma nova carteira de identidade, por ter perdido a passada, eu sequer teria tirado a primeira. Deve ser mais fácil viver até os 25 anos sem tirar a merda da carteira de identidade do que tirar outra. Uma burocracia como essa me deixa tão nauseado que só posso concluir que a civilização ocidental deu errado. Uma civilização em que para se tirar uma carteira de identidade é preciso superar uma fila que madruga é uma civilização fracassada. Para que se agarrar a isso? Melhor passar para o lado do Derrida e torcer para que os árabes explodam tudo. Que um dia, diante de uma burocracia dessas, ainda me jogo da janela, num salto para a liberdade no Nada, e deixo um bilhete suicida: "Morro, não por crise de identidade, mas para não tirar uma segunda via."

Sexta-feira, Julho 11, 2008

Um tipo de espelho diferente do de Sthendal

"Tendo-lhe sido sugerido por um jovem amigo que Picasso era um "pintor de distorções deliberadas", que pintava "mulheres de nariz rosado e pés gigantescos", Kafka respondeu:

Não penso assim. Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram nossa consciência. Arte é um espelho que 'se adianta', como um relógio às vezes."

De uma resenha da Zadie Smith, sobre um ensaio biográfico sobre Kafka, no The New York Review of Books.

Quarta-feira, Julho 09, 2008

Em Fortaleza

Belo Horizonte é bom, mas faz falta subir, quase sempre de Circular, o viaduto da 13 de Maio. Porque faz falta ver, quando o viaduto cansado dobra a espinha no espaço, lá longe, as torres da Catedral, por um instante apenas, sempre insuficiente, sempre irresgatável, para depois ser entregue de mão beijada ao colo da Igreja de Fátima. Em Fortaleza Irreal, Sundown City, home of robot angels & ancient demons.

Quarta-feira, Julho 02, 2008

It's raining today

It's raining today
and I'm just about to forget the train window girl
That wonderful day we met
She smiles through the smoke from my cigarette
It's raining today
But once there was summer and you
And dark little rooms
And sleep in late afternoons
Those moments descend on my windowpane
I've hung around here too long
Listenin' to the old landlady's hard-luck stories
You out of me me out of you
We go like lovers
To replace the empty space
Repeat our dreams to someone new
It's raining today
And I watch the cellophane streets
No hang-ups for me
'Cause hang-ups need company
The street corner girl's a cold trembling leaf
It's raining today
It's raining today


Scott Walker (1969)