Crítica
Crítica literária é um ofício penoso, tanto quanto tradução de poesia (parece que qualquer ofício relacionado à poesia que não seja propriamente poesia está fadado a ser encarado com desconfiança, quando não algum desprezo). Eu discordo dessa desconfiança e desse desprezo - quando o assunto é poesia. Principalmente nesses dias de reforma ortográfica, quando a tendência é instrumentalizar a língua ao máximo, extirpar dela tudo o que seja marca do passado, como se se pudesse extirpar o próprio passado, índice de progressismo imbecil, que é o único apetite que alimenta os universitários e o presidente do país (minha teoria é que Lula está, sim, por trás da reforma ortográfica - seu desejo real é abolir a conjugação, para discursar e babar sem restrição lingüística).
Mas concordo com a desconfiança e com o algo de desprezo quando o assunto é crítica musical. Porque, e esse era meu ponto, mesmo um T.S.Eliot se dizia bastante inseguro na hora de julgar jovens poetas - logo Eliot, um dos poetas mais - com o perdão da palavra - experimentalistas a escrever em inglês. Nos seus tempos de editor, pedia para que jovens lessem, antes dele, os novos poetas, e só então lhe entregassem os poemas, para ver o que ele próprio achava. Porque poesia é um troço esquisito. Tem muito a ver com a velha idéia do Baudelaire, do casamento do eterno e do transitório, e por vezes um sujeito pode estar muito atento ao eterno e sem muito ouvido para o transitório. E, nisso, cometer enganos.
Agora, na crítica musical, e aqui eu entro descaradamente de gaito num terreno para o qual não tenho bússola alguma, é uma questão, no fim das contas, de ter alma ou não. Porque, por mais abertos que sejamos, muitas vezes, ao ler um poema, nosso instinto viciado interrompe o fluxo da percepção sensorial, que envolve som e sentido, com batidas na porta, para perguntar exclusivamente pelo sentido. Ou mais proverbialmente: "que porra é essa que esse bicho tá dizendo". Já, quando se trata de música, por conta da melodia e do ritmo mais acentuados, se a música é música mesmo e não Kaiser Chiefs, a coisa toda da percepção dá-se num nível mais - novamente com o perdão da palavra - puro, com nossa ânsia de significado menos afoita - mais nobre, menos sacoleira. Em resumo: não há batidas na porta. Então, se o crítico musical falha em perceber a beleza ou, mais modernisticamente, a eficiência ou, mais pós-modernisticamente, a fuderosidade da música, o índice aí é de estupidez do crítico, pura e simplesmente. E coloque aí qualquer sentido que se queira dar à estupidez.
Tudo isso para expressar minha desconfiança e meu desprezo por Stephanie Zachareck, a crítica musical da revista Rolling Stone, que, em 3 de novembro de 1994, resenhou o álbum Grace, do Jeff Buckley, que é, está desde sempre claro, o melhor álbum dos anos noventa, em termos do que um dia se chamou de rock alternativo, mas que hoje atende simplesmente por música pop (é o melhor, seguido por Time out of Mind, de Bob Dylan). A crítica inteira, que você pode ler aqui, é, naturalmente, cheia de furos, quase sempre produtos daquele modo mental condescendente, que críticos às vezes gostam de assumir, e do tédio forjado de quem já viu e ouviu tudo.
Mas há uma passagem que chega a ser brilhante pela incapacidade. Se alguém desejasse muito, de todo o coração, dizer uma asneira que o tempo e a sensibilidade de uma geração pudesse rapidamente contradizer com generoso estrondo, não seria capaz de superar a senhorita Zachareck. Com a palavra:
The young Buckley's vocals don't always stand up: He doesn't sound battered or desperate enough to carry off Leonard Cohen's "Hallelujah."
Okey-dokey.
Já eu digo: He's done a pretty good job. May he rest in peace.
Crítica literária é um ofício penoso, tanto quanto tradução de poesia (parece que qualquer ofício relacionado à poesia que não seja propriamente poesia está fadado a ser encarado com desconfiança, quando não algum desprezo). Eu discordo dessa desconfiança e desse desprezo - quando o assunto é poesia. Principalmente nesses dias de reforma ortográfica, quando a tendência é instrumentalizar a língua ao máximo, extirpar dela tudo o que seja marca do passado, como se se pudesse extirpar o próprio passado, índice de progressismo imbecil, que é o único apetite que alimenta os universitários e o presidente do país (minha teoria é que Lula está, sim, por trás da reforma ortográfica - seu desejo real é abolir a conjugação, para discursar e babar sem restrição lingüística).
Mas concordo com a desconfiança e com o algo de desprezo quando o assunto é crítica musical. Porque, e esse era meu ponto, mesmo um T.S.Eliot se dizia bastante inseguro na hora de julgar jovens poetas - logo Eliot, um dos poetas mais - com o perdão da palavra - experimentalistas a escrever em inglês. Nos seus tempos de editor, pedia para que jovens lessem, antes dele, os novos poetas, e só então lhe entregassem os poemas, para ver o que ele próprio achava. Porque poesia é um troço esquisito. Tem muito a ver com a velha idéia do Baudelaire, do casamento do eterno e do transitório, e por vezes um sujeito pode estar muito atento ao eterno e sem muito ouvido para o transitório. E, nisso, cometer enganos.
Agora, na crítica musical, e aqui eu entro descaradamente de gaito num terreno para o qual não tenho bússola alguma, é uma questão, no fim das contas, de ter alma ou não. Porque, por mais abertos que sejamos, muitas vezes, ao ler um poema, nosso instinto viciado interrompe o fluxo da percepção sensorial, que envolve som e sentido, com batidas na porta, para perguntar exclusivamente pelo sentido. Ou mais proverbialmente: "que porra é essa que esse bicho tá dizendo". Já, quando se trata de música, por conta da melodia e do ritmo mais acentuados, se a música é música mesmo e não Kaiser Chiefs, a coisa toda da percepção dá-se num nível mais - novamente com o perdão da palavra - puro, com nossa ânsia de significado menos afoita - mais nobre, menos sacoleira. Em resumo: não há batidas na porta. Então, se o crítico musical falha em perceber a beleza ou, mais modernisticamente, a eficiência ou, mais pós-modernisticamente, a fuderosidade da música, o índice aí é de estupidez do crítico, pura e simplesmente. E coloque aí qualquer sentido que se queira dar à estupidez.
Tudo isso para expressar minha desconfiança e meu desprezo por Stephanie Zachareck, a crítica musical da revista Rolling Stone, que, em 3 de novembro de 1994, resenhou o álbum Grace, do Jeff Buckley, que é, está desde sempre claro, o melhor álbum dos anos noventa, em termos do que um dia se chamou de rock alternativo, mas que hoje atende simplesmente por música pop (é o melhor, seguido por Time out of Mind, de Bob Dylan). A crítica inteira, que você pode ler aqui, é, naturalmente, cheia de furos, quase sempre produtos daquele modo mental condescendente, que críticos às vezes gostam de assumir, e do tédio forjado de quem já viu e ouviu tudo.
Mas há uma passagem que chega a ser brilhante pela incapacidade. Se alguém desejasse muito, de todo o coração, dizer uma asneira que o tempo e a sensibilidade de uma geração pudesse rapidamente contradizer com generoso estrondo, não seria capaz de superar a senhorita Zachareck. Com a palavra:
The young Buckley's vocals don't always stand up: He doesn't sound battered or desperate enough to carry off Leonard Cohen's "Hallelujah."
Okey-dokey.
Já eu digo: He's done a pretty good job. May he rest in peace.
