Domingo, Junho 28, 2009

O País dos Mourões




Iam caindo: à esquerda e à direita iam caindo;
Alexandre e Francisco, meus bisavós tombaram,
o primeiro com sua farda de gala, seus botões de ouro
e sua patente de coronel
e o outro com sua barba nunca mais alisada e sua bengala
de castão de ouro.

Antes, caíam hierárquicos e cronológicos:
Manuel Martins Chaves na prisão do Limoeiro,
Ana, Eufrosina e Úrsula Mourão, da Canabrava dos Mourões,
em suas camarinhas cheias de santos,
Antônio, com seus bordados de general nos campos do Paraguai,
um picado de cobra, outro sangrado a punhal, outro varado à bala, outro
de maleita,
à esquerda e à direita foram todos caindo,
primeiro os que já eram lenda na memória dos velhos,
depois os avós de meus avós,
porque antes tombavam hierárquicos e cronológicos.

Foi assim que tombou, ao lado de seu rifle,
o Coronel José de Barros Mello, chamado "O Cascavel", meu tetravô,
e depois o Major Galdino, entre seu bacamarte e suas gaiolas de pássaros, depois, meu outro avô, o capitão de cenho espesso sobre a tribo
ao talhe de seu tronco frondejando
a cabeça de Mellos e Mourões.

A esquerda e à direita iam tombando,
Úrsula, Francisca e tantas outras,
até cair meu pai.

Depois, começou a romper-se a ordenação da morte
e tombavam os tios e as crianças:
Etelberto, com seus negros cabelos lisos,
Raimundo prometera devolver à terra o que da terra houvera e tombou nela;
Elisa, Elvina e tu,
com teus oito anos e tua cabeça castanha;
tombaram um por um: Ignácia e Ladislau viveram cem anos e também morreram; tombou Quintino e nunca mais
pela estrada de Águas Belas alazão levará
coronel tão galante e nunca mais na lua
da sela clavinote
tão certeiro;
tombou
Quintino e antes dele porque a morte ia deixando de ser hierárquica e cronológica tombou no Maranhão Francisco apunhalado.


Abre-se assim aquela que é, na minha pessoalíssima opinião, a obra máxima da poesia brasileira, para não dizer da língua portuguesa, junto com Camões e Pessoa (que me perdoem os que admiram muito Bruno Tolentino e Herberto Helder). Aliás, eu prefiro Gerardo Mello Mourão a Pessoa. O ritmo da poesia de Gerardo varre da minha mente a sintaxe pessoana e a secura dos versos de Drummond. Lendo Gerardo, como dizia Álvaro de Campos sobre Whitman, não sei se leio ou se vivo. Em contraposição à toda poética da negatividade que permeou as grandes vozes líricas da primeira metade do século, a poesia de Gerardo é afirmativa: quer possuir o mundo, os cheiros, as cidades: poesia de vastos apetites. E é de uma afirmação que nasce da apreensão da morte: o poema se abre com a invocação dos mortos, dos que caíram à esquerda e à direita. Em nenhum momento, Gerardo simplifica a existência para cantá-la: é sempre fiel ao real, à multiplicidade da experiência. Parece que Gerardo foi o único que compreendeu a essência mesma da poesia: quando o leio, o que sinto é ancestralidade - como se eu entendesse pela primeira vez o que os gregos deviam sentir lendo Homero: o ritmo do mundo, a vida e a morte, o cair e o levantar: o homem feito das terras, dos mares, dos ventos. Uma das grandes tristezas da minha vida é não ter ido ao Rio de Janeiro, onde ele morava no fim da vida, conhecer Gerardo pessoalmente. Não tinha dinheiro. Mas deveria ter ido de algum jeito: pegando carona na estrada. Só para agradecê-lo e apertar, uma vez na vida, a mão de um verdadeiro Deus.

1 Comentários:

Blogger Alexandra disse...

viva gerardinho!

5:59 PM  

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