Terça-feira, Junho 23, 2009

Variações narrativas para um barco sem mar

Nem sempre há um começo.
Nem sempre é lícito narrar,
Dizer : daqui até aquelas serras,
Tudo era mar,
Água do dilúvio,
E foi secando.
Há tardes em que um barco
Suspenso de cabeça pra baixo
No meio de uma floresta atlântica
No coração de um país adormecido,
É um barco sem mar,
Sem começo.
Um barco que é uma interrupção
Ou o improvável despojo
De uma outra paralela
Onde os barcos fluem, impalpáveis, no ar.
Um barco quando muito à espera
De um deus que feche a fenda,
A estrada incerta
Que um outro deus abriu num sonho.
Mas nem sempre é lícito narrar,
Nem sempre há um começo,
Uma palavra no começo.
Explica-me isso, meu amor.

Inhotim, 2008.

1 Comentários:

Blogger lvp disse...

um diálogo, o poema seria uma possibilidade de resposta. mas ele já soa impossível, porque os textos já são outros, sempre outros.

12:44 PM  

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