Cioran

"Por mais contraditórios e intensos que sejam nossos estados, normalmente os dominamos, conseguimos neutralizá-los: a 'saúde' é a capacidade que possuímos de guardar uma certa distância deles. Uma pessoa equilibrada sempre consegue escamotear suas profundezas ou atravessar seus próprios abismos. A saúde - condição da ação - supõe uma fuga diante de si, uma deserção de nós mesmos. Não há ato verdadeiro sem o fascínio do objeto. Quando agimos, nossos estados interiores só importam por sua relação com o mundo exterior. Não têm valor intrínseco. Desse modo, nos é permitido dominá-los. Se nos acontece estarmos tristes, nós o estamos por causa de uma determinada situação, de um incidente ou de uma realidade precisa. O doente procede de maneira inteiramente diferente. Vive seus estados neles mesmos, sua tristeza tristemente, sua melancolia melancolicamente e toda tragédia ele a adota, experimenta tragicamente. É apenas sujeito, e nada mais. Se se identifica com os objetos de seu horror ou de sua compaixão, esses objetos só constituem para ele modalidades diversas de si próprio. Ser doente é coincidir totalmente consigo mesmo".
E.M.Cioran, autor que conheci por esses dias e de quem tenho gostado muito, embora, pelo pouco que li, pareça estúpido quando o assunto é Deus. Esse trecho é de um ensaio sobre The Crack Up, de Scott Fitzgerald. Faz-me pensar no verso do Thom Yorke: "Don't get sentimental, it always ends up drivel". Ok Computer, aliás, é o álbum em que Thom começa a escrever letras com um critério mais próximo da objetividade sentida do que da subjetividade gelatinosa. Artista é aquele que fraseia nossa miséria melhor do que as pessoas comuns. É preciso saúde. Escreve-se melhor sentado do que de joelhos.

"Por mais contraditórios e intensos que sejam nossos estados, normalmente os dominamos, conseguimos neutralizá-los: a 'saúde' é a capacidade que possuímos de guardar uma certa distância deles. Uma pessoa equilibrada sempre consegue escamotear suas profundezas ou atravessar seus próprios abismos. A saúde - condição da ação - supõe uma fuga diante de si, uma deserção de nós mesmos. Não há ato verdadeiro sem o fascínio do objeto. Quando agimos, nossos estados interiores só importam por sua relação com o mundo exterior. Não têm valor intrínseco. Desse modo, nos é permitido dominá-los. Se nos acontece estarmos tristes, nós o estamos por causa de uma determinada situação, de um incidente ou de uma realidade precisa. O doente procede de maneira inteiramente diferente. Vive seus estados neles mesmos, sua tristeza tristemente, sua melancolia melancolicamente e toda tragédia ele a adota, experimenta tragicamente. É apenas sujeito, e nada mais. Se se identifica com os objetos de seu horror ou de sua compaixão, esses objetos só constituem para ele modalidades diversas de si próprio. Ser doente é coincidir totalmente consigo mesmo".
E.M.Cioran, autor que conheci por esses dias e de quem tenho gostado muito, embora, pelo pouco que li, pareça estúpido quando o assunto é Deus. Esse trecho é de um ensaio sobre The Crack Up, de Scott Fitzgerald. Faz-me pensar no verso do Thom Yorke: "Don't get sentimental, it always ends up drivel". Ok Computer, aliás, é o álbum em que Thom começa a escrever letras com um critério mais próximo da objetividade sentida do que da subjetividade gelatinosa. Artista é aquele que fraseia nossa miséria melhor do que as pessoas comuns. É preciso saúde. Escreve-se melhor sentado do que de joelhos.

3 Comentários:
bom te ouvir.
saudades dos nossos e-mails.
escreve qualquer hora.
beijo grande.
Sensacional esse trecho do Cioran! Ele é muito bom, né? Sabia que nasceu na Transilvânia? Não é à toa que odeia tanto a vida e a luz do sol... Anyway, excelente posting, assim como os demais que vem escrevendo ultimamente!
Cioran é uma catarse!
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