Naquele tempo, havia os edifícios de vidro que quase tocavam a face do céu, e eram como os dedos esqueléticos de incontáveis mãos parcialmente soterradas. Havia gente subindo e descendo, depressa, como houvesse sempre uma invasão eminente. E, nos elevadores, enquanto subiam ou desciam, concentrados na idolatria dos números, ouviam sempre uns outros, de insistência resignada, que, em momentos de muito calor e cansaço, murmuravam um monólogo, uma meditação pouco coerente, uma vaga coleção de imagens distantes, conciliadoras, que mal se traduziam numa idéia. A porta se abria no primeiro ou no último andar, e eles fugiam, e a porta fechava, e os outros ficavam para trás, fantasmas.
Como não fossem embora, tentou-se toda sorte de estratégia: através dos auto-falantes, lançavam música dentro dos elevadores, com a esperança de que as vozes fossem abafadas. Mas de algum modo elas se sobrepunham à música de rádio, às big bands, às orquestras sinfônicas. Os que tinham os nervos fracos abandonaram os elevadores e optaram pelos longos lances de escada. A princípio, imaginavam encontrar alívio, mas logo, misturados ao som do eco de seus sapatos nos infinitos degraus, ouviam os outros, e perdiam as contas dos andares, e tinham a impressão de estar descendo escadas há dias, há anos, descendo escadas por uma vida toda, até que sentavam num andar perdido, e adormeciam.
Desistiu-se, então, dos grandes edifícios. Vieram as casas, as pequenas construções. Supunham-se felizes e trabalhavam, até que, nos banheiros, privados e públicos, as vozes retornaram. Não tardou e estavam pelos armários das cozinhas, por trás dos potes com sal, nos guarda-roupas, entre as gravatas. Por vezes, em uníssono, pareciam ser a própria voz do Universo, pois se faziam mais audíveis tanto mais se aproximava de janelas abertas. Toda a gente se sentava nas calçadas, sob a lua e as estrelas, exaustos, tapando os ouvidos.
Um dia, pôs-se fogo nas cidades. Formaram-se pequenas vilas. O vento corria mais fresco entre as torres da Igreja. Mas as crianças começaram a sentar-se ao redor do poço d’água, no coração das vilas, porque ouviam vozes vindo lá do fundo, e não queriam deixar de ouvi-las.
De tudo, resto aqui, nesta caverna. Lá fora, põe-se o sol, e a luz brinca uma última vez nas águas do riacho, antes da noite. Ainda ouço a grande voz do Universo. Aqui dentro ela ressoa mais majestosa, e eu me concentro e desejo que, aos poucos, eu já não escute nada além dela, que ela seja, aqui, enfim, a própria substância da minha mente.
Não cai bem publicar nada no dia em que se comemora o nascimento e a morte de Shakespeare, mas como há um eco shakespeariano na última linha deste conto, fica como uma homenagem.

