Quinta-feira, Abril 23, 2009

Pequena história do progresso

Naquele tempo, havia os edifícios de vidro que quase tocavam a face do céu, e eram como os dedos esqueléticos de incontáveis mãos parcialmente soterradas. Havia gente subindo e descendo, depressa, como houvesse sempre uma invasão eminente. E, nos elevadores, enquanto subiam ou desciam, concentrados na idolatria dos números, ouviam sempre uns outros, de insistência resignada, que, em momentos de muito calor e cansaço, murmuravam um monólogo, uma meditação pouco coerente, uma vaga coleção de imagens distantes, conciliadoras, que mal se traduziam numa idéia. A porta se abria no primeiro ou no último andar, e eles fugiam, e a porta fechava, e os outros ficavam para trás, fantasmas.

Como não fossem embora, tentou-se toda sorte de estratégia: através dos auto-falantes, lançavam música dentro dos elevadores, com a esperança de que as vozes fossem abafadas. Mas de algum modo elas se sobrepunham à música de rádio, às big bands, às orquestras sinfônicas. Os que tinham os nervos fracos abandonaram os elevadores e optaram pelos longos lances de escada. A princípio, imaginavam encontrar alívio, mas logo, misturados ao som do eco de seus sapatos nos infinitos degraus, ouviam os outros, e perdiam as contas dos andares, e tinham a impressão de estar descendo escadas há dias, há anos, descendo escadas por uma vida toda, até que sentavam num andar perdido, e adormeciam.

Desistiu-se, então, dos grandes edifícios. Vieram as casas, as pequenas construções. Supunham-se felizes e trabalhavam, até que, nos banheiros, privados e públicos, as vozes retornaram. Não tardou e estavam pelos armários das cozinhas, por trás dos potes com sal, nos guarda-roupas, entre as gravatas. Por vezes, em uníssono, pareciam ser a própria voz do Universo, pois se faziam mais audíveis tanto mais se aproximava de janelas abertas. Toda a gente se sentava nas calçadas, sob a lua e as estrelas, exaustos, tapando os ouvidos.

Um dia, pôs-se fogo nas cidades. Formaram-se pequenas vilas. O vento corria mais fresco entre as torres da Igreja. Mas as crianças começaram a sentar-se ao redor do poço d’água, no coração das vilas, porque ouviam vozes vindo lá do fundo, e não queriam deixar de ouvi-las.

De tudo, resto aqui, nesta caverna. Lá fora, põe-se o sol, e a luz brinca uma última vez nas águas do riacho, antes da noite. Ainda ouço a grande voz do Universo. Aqui dentro ela ressoa mais majestosa, e eu me concentro e desejo que, aos poucos, eu já não escute nada além dela, que ela seja, aqui, enfim, a própria substância da minha mente.




Não cai bem publicar nada no dia em que se comemora o nascimento e a morte de Shakespeare, mas como há um eco shakespeariano na última linha deste conto, fica como uma homenagem.

Terça-feira, Abril 21, 2009

Self-definition

APRIL FOOL, n. The March fool with another month added to his folly.


Retirado do The Devil's Dictionary.

Domingo, Abril 19, 2009

Thing Language

by Jack Spicer

This ocean, humiliating in its disguises
Tougher than anything.
No one listens to poetry. The ocean
Does not mean to be listened to. A drop
Or crash of water. It means
Nothing.

It
Is bread and butter
Pepper and salt. The death
That young men hope for. Aimlessly
It pounds the shore. White and aimless signals. No
One listens to poetry.



Este oceano, embaraçoso em seus disfarces,
mais forte que tudo.
Ninguém dá ouvidos à poesia. Ao oceano
Não importa ser ouvido. Uma gota
Ou queda d’água. Significa
Nada.

É pão e manteiga,
Pimenta e sal. A morte
Que os jovens rapazes desejam.
Sem propósito, golpeia a praia.
Brancos, despropositados sinais.
Ninguém dá ouvidos à poesia.


Roubei o poema acima do blog da Carla Hilário (como os atentos já perceberam, nunca abri um livro de poemas na vida; sempre que li poesia, li em blogs de pessoas queridas). A tradução vai muito, muito mal. Quem sabe o Ruy Vasconcelos se dispõe a traduzir o poema como se deve?

Tradução é jardinagem. Por vezes sinto uma vontade da natureza, de descer do ônibus no caminho de Belo Horizonte a Ouro Preto e ir deitar no alto de uma imensa montanha, entre árvores. Seria como escrever uma epopéia. Um retorno mais suave do que o retorno a um castelo infestado de traidores, a uma esposa com os dedos e as mãos arruinadas. Mas não tenho fôlego. Há o monóxido de carbono. Resta a tradução de pequenas peças líricas, a jardinagem.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Ouro Preto

No Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, o que mais me impressionou, mais do que as obras de Aleijadinho, foram os utensílios, a mobília dos séculos XVII, XVIII. Cada objeto era como uma pequena honraria à vida do sujeito: os relógios, as porcelanas, as poltronas. Tudo desenhado e talhado para atravessar gerações, absorvendo valores, memórias. Meu amigo Feldman, o judeu, disse algo muito certo: a medida que a civilização se torna mais materialista e menos essencialista, paradoxalmente, mais a realidade se virtualiza, e o próprio materialismo, assim, se enfraquece. O materialismo deixa de o ser, para dar o passo bizarro final: só nos interessa o fantasma. Possuir o objeto enfada. This is a fake plastic earth indeed.

Mas, entre Belo Horizonte e Ouro Preto, aquelas montanhas.

E a lua, como um presente inesperado.

The most lovely day.

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Por que o Brasil não tem ainda um Radiohead

Por motivos que não cabem a Odorico Leal explicar, o mito romântico do artista genial e torturado por demônios interiores, supostamente extinto da poesia desde Mallarmé, realiza-se no rock alternativo - entendendo-se por rock alternativo a tradição que começa mais ou menos com Joy Division, passando por The Smiths, The Cure, Sonic Youth e Pixies, chegando ao Nirvana e aos Smashing Pumpkins, e desembocando, finalmente, no Radiohead. Quando o mito não se realiza, temos os Strokes da vida - que divertem, mas não transcendem: só nos devolvem a nós mesmos mais sujos e gastos. Isso explica por que o rock alternativo nacional é ruim: as pessoas que formam bandas no Brasil, em geral, não sofrem. Sofrem por falta de dinheiro, por amargura, por despeito, por tudo que as pessoas normais sofrem no dia a dia, mas não sofrem como um artista genial e torturado sofre - aquela velha dor cósmica, uma sensação de profundo desapontamento em relação à civilização, que se revela mesmo nas picuinhas. Quando um Bob Dylan levava uma esnobada de uma garota, era todo o Universo que entrava em crise - daí nasce uma "You are a big girl now". Mas as pessoas que formam bandas de rock alternativo no Brasil são felizes. Relacionam-se bem, no geral; encontram namoradas que consideram bonitas, com tatuagens, piercings e acessórios de cunho sexual; interagem com o pessoal descolado das artes plásticas, do cinema, do teatro; são amigos do peito dos caras que organizam festivais independentes. Levam, enfim, uma vida de jovens saudáveis. Em poucas palavras: eles curtem a vida. E, assim, só compõem porcaria. Não há como ser feliz e compor algo que preste no rock alternativo. Por um motivo simples: sendo uma arte tão sem rei nem lei, tão deformada, tão reles, tão suja, é preciso que haja um impulso de sentimentos essenciais devastadores, catalizados contra o mundo e contra si mesmo, que dê substância à canção. Sem isso, há apenas um idiota alternando notas mais ou menos previsíveis. Se é para compor com um dó maior e um lá menor, é preciso que se justifique isso com auto-destruição. De outro modo, é samba - é o caso dos Los Hermanos.

Falei em rock alternativo, para ser mais restrito, mas citei o Dylan para sugerir que é algo um pouco mais abrangente, embora não cubra toda a música pop. Madonna pode ficar rica com um sorriso nos lábios.

E por que falei isso, God only knows.

Terça-feira, Abril 07, 2009

Fitzgerald

Most of us could be photographed from the day of our birth to the day of our death and the film shown, without producing any emotion except boredom an disgust. It would all look like monkeys scratching.

A maioria de nós poderia ser fotografada desde o dia de nosso nascimento até o dia de nossa morte, e o filme não produziria outra emoção além de tédio e repulsa. Tudo se assemelharia a macacos se coçando.

The cleverly expressed opposite of any generally accepted idea is worth a fortune to somebody.

O oposto de qualquer idéia aceita de modo geral, expresso de modo inteligente, vale uma fortuna para alguém.

Girl like a record with a blank on the other side.

Uma garota como um disco sem nada do outro lado.

Segunda-feira, Abril 06, 2009

Guarda e passa

No ano da morte de Gerardo Mello Mourão, Daniel Piza escreveu uma pequena nota no blog que sustenta na página virtual do Estadão:

“Seu livro Os Peãs é carregado de erudição (Gerardo, ex-seminarista, falava nove idiomas, inclusive o holandês e o mandarim, pois morou na China por muitos anos), e tem alguns bons versos, como o refrão ‘Hei de lavrar nessas terras a escritura de meu canto’.”

É para esgotar a paciência de qualquer leitor de poesia a autoridade com que esse sujeito diz que Mourão tinha ‘alguns bons versos’. Alguns bons versos! Vá ler a sério Homero, Virgílio, Dante, antes de comentar um poeta como Gerardo Mello Mourão. O jornalismo definha disso: de qualquer um sentir-se no direito de escrever sobre qualquer tema com suposta autoridade.

Toda a pequena nota mal consegue reprimir o preconceito. A pretexto de ‘lágrima’, o sujeito simplesmente repassa, como papagaio, a idéia consensual entre alguns imbecis que publicam revistas literárias de vanguarda Brasil afora – Gerardo é nazista, fascista, elitista, passadista, etc. Eu me pergunto como alguém pode ter lido de fato a poesia de Gerardo e acusá-lo de passadista.

Causa-me vertigens.

E a editora Lazuli contrata o tipo para escrever prefácio a um livro do poeta.

A plague, a plague on both your houses!

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Sonic Youth

Quinta-feira, Abril 02, 2009

Abril

Até os 13 anos, não conhecia Odorico. Eu era feliz, até os 13 anos. Mais do que feliz: era uma força da natureza, um aventureiro por estradas de terra, um desbravador de casas abandonadas. Acima de tudo, era o melhor jogador de futebol do mundo. É verdade que o mundo limitava-se a pouco além da rua Monsenhor Hipólito – ainda assim, era mais repleto de caminhos. Tinha meus fiéis escudeiros, que é sempre bom os ter quando se vive fora da lei: Gustavo e Jardel. O tempo os tenha. Também nunca conheceram Odorico, e eram felizes. Todas as manhãs, subia a rua de bicicleta para o colégio, mochila nas costas. Quando sim quando não, um vira-lata de pêlo alaranjado me seguia até a casa sem forro de vovó Isaura, onde eu guardava meu Rocinante. Vovó vendia leite todas as manhãs, e me dava bolo frito, e eu comia com gosto. Amava todas as meninas daquela rua. Aos 13 anos, entrei num ônibus para viajar para longe, confiante, com peito aberto, embora mamãe chorasse, porque nunca pensei, nem por um segundo, que o mundo fosse mais forte do que eu. No dia em que conheci Odorico, ele vestia farda e esperava o mesmo transporte escolar, na esquina de casa, em Fortaleza. Embora não tivéssemos nada em comum – Odorico nunca andava de bicicleta e era quase sempre um menino calado, sem entusiasmo, o tipo mesmo que envergonharia a minha velha gangue – ficamos como inseparáveis. Íamos juntos de ônibus à praia, caminhávamos tardes inteiras pelo shopping e, mais tarde, ouvíamos os mesmos discos e líamos os mesmos livros. Com os anos, isolado de qualquer outra companhia, a tristeza de Odorico foi me contaminando. Fui ficando silencioso como ele, cansado. Fui ficando abstraído. Hoje, já nem conversamos. Continuamos inseparáveis, mas porque resignados um ao outro. Ele se senta ao meu lado, nas tardes de estudo na biblioteca, e eu não lhe digo nada, e ele não me diz nada. Às vezes me vem uma lembrança de uma tarde de disputa furiosa, na rua cheia de lama da infância. Tenho vontade de falar sobre isso. Mas Odorico é tão limpo, e ficaria gripado só de pensar em chuva. Então afasto o pensamento, e continuamos lendo, lendo, até os olhos cansarem e a noite chegar. O mal é que ele não tem culpa de nada. Deve ter nascido assim, com uma doença na alma, um peso nas pálpebras. Às vezes me sinto como que responsável por ele, quero alegrá-lo. Como se Deus me tivesse posto no mundo para isso. Mas, outras vezes, embora eu nunca lhe diga, eu queria muito nunca ter conhecido Odorico.