
Sábado fui assistir ao filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman, roteirista do excelente Confissões de uma Mente Perigosa. Antes, perdi tempo ponderando se gastava ou não 70 realidades para ouvir o Caetano Veloso, sexta que vem. Decidi que era melhor não, que o baiano recebeu 1.700.000 R$ da lei de incentivo à cultura para esta turnê, o que torna esse preço obviamente abusivo. Soma-se a isso o fato de que ele anda a cantar Força Estranha, provavelmente a música mais insuportável do cancioneiro nacional. Mas ficou a chateação na minha cabeça, porque, afinal, eu queria ouvir o Caetano Veloso, porque Transa é dos discos que mais ouvi na vida. Mas, enfim, caro demais. Terei de esperar outra oportunidade, que, claro, pode nunca vir, uma vez que o cantor já está em idade avançada.
Com essas reflexões, cheguei ao cinema, em cima da hora, às quatro em ponto, para descobrir que o filme de Kaufman não estava passando lá, como eu acreditava. Estava em sessão em outro cinema, do outro lado da cidade. Duplamente contrariado, decidi não me abalar. Olhei para os cartazes dos filmes disponíveis. Havia o filme sobre Jean Charles, que pretendo ver, mas que não casava com meu espírito naquele sábado. Havia outro cujo cartaz o descrevia como um The O.C. gay, o que não casa com meu espírito em sábado algum, ou domingo ou dia de semana. Havia, afinal, o vencedor do Oscar de filme estrangeiro deste ano, A Partida. Começava em meia hora. Comprei o ingresso e fui caminhar pela Praça da Liberdade, matar o tempo.
Havia na praça um ipê rosa florido, cujas flores tinham começado a cair, de modo que o gramado ao redor da árvore estava todo rosa. Os casais de namorados aproveitavam a cenografia natural para tirar fotografias, com alguma dose, espero eu, de ironia, que só se pode ser romântico hoje parodiando o romantismo, que é um modo de dizer: “se vivêssemos num mundo menos fodido, eu poderia mesmo parecer um idiota por você, mas com a mente estragada por propaganda, isso é o máximo que eu posso fazer”. Logo depois do casal, amigas adolescentes deitaram-se juntas em forma de estrela, e outra bateu o retrato. Havia uma feira de cultura na praça. Pensei em dar uma volta e olhar as barraquinhas, mas tinha gasto quase todos os trinta minutos olhando o ipê de sucesso e o movimento ao redor dele. Voltei para o cinema, comprei um schweppes citrus e entrei na sala.
Este é o momento do texto em que eu devia fazer uma pequena sinopse e resenha do filme, mas quem tem paciência para fazer isso de graça? Estou escrevendo isto por pura diversão, porque gosto de rememorar e escrever. Vou falar do que me tragou para dentro do coração do filme, para pessoas que já o viram. Os que não viram, tratem de ver, porque é daqueles que nos fazem nunca mais querer assistir a uma produção idiota ou a um episódio de seriado mongol, com os quais eu tantas vezes sou indulgente, o que é, na verdade, ser indulgente com a pior parte de mim, a parte viciosa, compulsiva, fast-foodiesca do meu espírito. É daqueles, afinal, que nos fazem querer ser pessoas melhores do que nós somos – que é, para mim, a função da arte, e que não tem relação alguma com didatismo. Há muita arte por aí que apenas nos devolve a nós mesmos, como alguém que joga uma trouxa de roupa suja em cima da gente. E parte dessa arte é boa. Pessoalmente, eu prefiro a arte que nos expulsa de nossa desorientação ansiosa e hedonista, e, sem simplificar a vida, se esforça para nos apontar valores. Porque você só é um ser humano se você possui valores – caso contrário, você é o cadáver adiado que procria, de que falou o Fernando Pessoa. Em outro mundo, seria mais fácil encontrar valores indo à Igreja. Mas os padres são, na maioria, pessimamente articulados, e repetem frases feitas que, caso eu já não tenha experienciado o significado delas, eu nunca vou conseguir compreender – porque só a partir do momento em que você compreende o que é sentir-se humilde de verdade, quando o mundo de alguma forma, através de mil circunstâncias e expedientes, te quebra no meio, é que você pode compreender completamente o significado do termo humildade numa frase. Antes disso, é apenas um conceito abstrato, que eu posso racionalmente compreender, mas que não posso viver – e o que não vive não habita o coração de ninguém. Diante disso, é natural e necessário que os artistas, que são aqueles que nasceram com o talento de extirpar de nós a convencionalidade das linguagens que fazem com que não percebamos nem o mundo fora de nós nem o mundo de dentro, voltem-se para uma busca corajosa de valores, sempre sem simplificar a vida, porque, a esta altura, com Michael Jackson morto com comprimidos no estômago, ninguém suporta mais all this postmodernistic bullshit.
O filme me pega de jeito, desde o início, porque toca numa ferida que sempre me doeu: o fracasso. O violoncelista, Daigo Kobayashi, cuja orquestra em que tocava acaba de ser dissolvida, tem de olhar de frente para o fato de que é impossível conseguir vaga em outra orquestra, porque sabe que há muitos outros violoncelistas melhores do que ele procurando emprego. Aqui não cabe o discurso otimista, que, naturalmente, apenas nos deprime, que prega que, se você fizer o seu melhor, tudo vai dar certo. Não. Não é assim. Nós nos esticamos e, em certo ponto, nós partimos, como Gatsby se parte tentando alcançar a luz verde do outro lado da baía. Daigo diz para si mesmo e para a mulher que ama: eu devia ter percebido há mais tempo as limitações do meu talento. A partir disso, é que se pode recomeçar. É nesse ponto em que se escolhe entre a possibilidade de partir para uma nova vida de fato, sem perspectivas de que ela será melhor ou mais satisfatória, embora seja natural e saudável que tenhamos esperança, e o fracasso maior de ser incapaz de desvencilhar-se de velhas fixações, de estar amarrado no topo da sua amargura, com o abutre das ilusões vindo lhe comer o fígado todas os dias. Daigo resolve voltar para a cidade onde nasceu, no interior do Japão, e onde a mãe, que morreu sem o filho por perto, lhe deixara uma casa, abarrotada com os discos do pai que abandonara a família, quando Daigo era ainda criança.
Nesse ponto, há um fato que o filme não se encarrega de ressaltar, o que seria de mau gosto, mas que não se esquiva de sugerir: Daigo ressente-se do pai ausente por os ter abandonado. Mas Daigo também abandonou a mãe. Ela morre sozinha, enquanto o filho estudava na Europa. Claro, pode-se dizer que é natural que os filhos deixem a casa em que cresceram, é natural que os pais fiquem, com o tempo, sozinhos, no momento mesmo em que, debilitados, precisariam de assistência e retribuição do afeto dedicado no passado. É natural, nos dizem, mas, infelizmente, não é natural. Se fosse natural, não sofreríamos tanto. É cultural (e, claro, quando dizem que é natural, apenas se toma o cultural como natural, já que, para nós, essa equação é verdadeira). E Daigo sofre, e o fato de compreender isso o ajudará a perdoar o pai, que é uma lição muito mais profunda e verdadeira do que o parricídio postulado por supostos filósofos contemporâneos. Matar o pai é fácil e não nos leva a lugar nenhum – apenas nos afasta de nós mesmos. Perdoar o pai é bem mais difícil, e introjeta, de alguma forma harmônica, em nós, toda a complexidade de experiências tortuosas que preferiríamos apenas esquecer, porque, como diz o T.S. Eliot, nos Quatro Quartetos, o gênero humano não suporta tanta realidade. Mas precisamos suportar. Ou vivemos com o passado ou não vivemos de modo algum.
A questão, entretanto, que amarra todas as outras no filme é a profissão que Daigo encontra na cidade em que nasceu. O jovem Daigo ajudará as pessoas que partiram na sua última travessia: aprende com um velho o ritual tradicional naquela cultura de limpar o corpo da pessoa falecida, diante de seus familiares, de vesti-la e maquiá-la, prepará-la para a partida. Aqui, quando nascemos, nos banham de água benta, para nos lavar do pecado original. Lá, com um significado de algum modo próximo, embora, naturalmente, não semelhante (o filme não se aprofunda nisso), faz-se isso no limiar da outra vida (ou do Nada, para os céticos que têm extraordinários poderes de observação, a ponto de só enxergarem o que se lhes apresenta à luz do dia, posto sobre a mesa, com um manual de instruções e um prazo de garantia). A profissão acarretará uma série de conflitos: um velho amigo da cidade a rejeita como imprópria, o que o leva a rejeitar Daigo, embora não hesite em convocar o ritual na hora da morte de sua mãe; a mulher de Daigo, por sua vez, sente nojo do marido que toca no corpo dos mortos e o abandona.
Para quem assistiu ao brilhante Six Feet Under, é inevitável não estabelecer um contraste entre o modo como aquele ritual trata o morto e a morte, e o modo das funerárias americanas, como a retratada no seriado. Em um episódio, a filha mais nova, cujo pai, dono da casa funerária, morrera num acidente de carro (outro pai ausente, com cuja memória os filhos precisam aprender a lidar... e a perdoar), rouba um pé de um defunto desconjuntado, para vingar-se, colocando-o no armário de um ex-namorado que fizera com que ela chupasse seu dedão do pé, para depois espalhar a proeza pela escola. O que é inacreditável na trama desse episódio é que ela não soa inacreditável. Podemos ver isso acontecendo “nas melhores famílias”. A bem dizer, isso nem exatamente nos assusta. Passamos pela vida tratando as pessoas como instrumentos: elas são modos de alcançarmos um objetivo, que quase sempre se relaciona com a vaidade e o prazer. Um pé de um defunto, para nós, é apenas um pé de um defunto.
O filme toca nesse ponto no contexto cultural do próprio Daigo, contexto que sofre dos mesmos conflitos do nosso: a dificuldade de adaptar tradições, que nos tornam pessoas e não instrumentos, à modernidade, que nos torna entediados e supersexualizados. Porque o fato bizarro é esse: são as tradições que devem se adaptar à modernidade, como se a modernidade fosse o dado natural. Rompe-se mesmo a lógica do tempo. Era de se esperar que a modernidade se adaptasse à tradição, se aconchegasse nela, sem destruí-la. Mas aqui não há mais volta. Uma geração de homens, num determinado momento histórico, foi gananciosa demais, e se estivéssemos lá, provavelmente teríamos feito o mesmo. Os dodôs todos morreram. Como diz o Daniel Liberalino: é impossível revirginar a puta. A modernidade é nossa tradição: ela se desenvolve a revelia de nossos desejos e nostalgias, de nossas dores e esperanças (é essa afinal a mensagem por trás da série O Exterminador do Futuro). A modernidade é um trator que ligamos no automático, diante do qual nos deitamos, à espera de que ele passe por cima de nós e nos despedace de uma vez, como numa cena do péssimo Fim do Mundo, de Shamalayan. A questão que se coloca hoje é como se levantar antes de ser fatiado como presunto, e como, uma vez de pé, tomarmos o controle do trator.
A Partida não tem respostas gerais para isso, mas há uma sugestão. Daigo, a princípio enojado, aprende, aos poucos, pela observação cotidiana, a respeitar os mortos – como uma parábola de Lázaro às avessas, ao tocá-los, é ele quem volta à vida (e prova, enfim, o sabor da vida, que o velho, seu patrão, lhe ensina a degustar). Antes dessa experiência, Daigo nos diz, logo no começo do filme, sua vida fora inexpressiva. A maioria de nós não se sentiria de outra forma, caso olhasse para trás, para o tumulto de dias que resultaram em tão pouco dentro de nós –tão pouco para nos consolar, tão pouco para nos fazer querer continuar vivos. Talvez, olhando para os mortos, para as palavras dos mortos, não as deixando para trás (sorry, Dylan), e para os que estão mortos-em-vida para nós (e quase sempre vivem conosco, dentro da nossa casa, e comem à mesma mesa e lembram-se dos mesmos lugares da infância), talvez, quando chegasse a hora da nossa partida, haveria ainda muito por lavar e purgar, mas haveria também algo a preservar – da nossa memória, da parte melhor de nós, se pelo menos a alimentássemos.








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