Segunda-feira, Junho 29, 2009

A Partida



Sábado fui assistir ao filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman, roteirista do excelente Confissões de uma Mente Perigosa. Antes, perdi tempo ponderando se gastava ou não 70 realidades para ouvir o Caetano Veloso, sexta que vem. Decidi que era melhor não, que o baiano recebeu 1.700.000 R$ da lei de incentivo à cultura para esta turnê, o que torna esse preço obviamente abusivo. Soma-se a isso o fato de que ele anda a cantar Força Estranha, provavelmente a música mais insuportável do cancioneiro nacional. Mas ficou a chateação na minha cabeça, porque, afinal, eu queria ouvir o Caetano Veloso, porque Transa é dos discos que mais ouvi na vida. Mas, enfim, caro demais. Terei de esperar outra oportunidade, que, claro, pode nunca vir, uma vez que o cantor já está em idade avançada.

Com essas reflexões, cheguei ao cinema, em cima da hora, às quatro em ponto, para descobrir que o filme de Kaufman não estava passando lá, como eu acreditava. Estava em sessão em outro cinema, do outro lado da cidade. Duplamente contrariado, decidi não me abalar. Olhei para os cartazes dos filmes disponíveis. Havia o filme sobre Jean Charles, que pretendo ver, mas que não casava com meu espírito naquele sábado. Havia outro cujo cartaz o descrevia como um The O.C. gay, o que não casa com meu espírito em sábado algum, ou domingo ou dia de semana. Havia, afinal, o vencedor do Oscar de filme estrangeiro deste ano, A Partida. Começava em meia hora. Comprei o ingresso e fui caminhar pela Praça da Liberdade, matar o tempo.

Havia na praça um ipê rosa florido, cujas flores tinham começado a cair, de modo que o gramado ao redor da árvore estava todo rosa. Os casais de namorados aproveitavam a cenografia natural para tirar fotografias, com alguma dose, espero eu, de ironia, que só se pode ser romântico hoje parodiando o romantismo, que é um modo de dizer: “se vivêssemos num mundo menos fodido, eu poderia mesmo parecer um idiota por você, mas com a mente estragada por propaganda, isso é o máximo que eu posso fazer”. Logo depois do casal, amigas adolescentes deitaram-se juntas em forma de estrela, e outra bateu o retrato. Havia uma feira de cultura na praça. Pensei em dar uma volta e olhar as barraquinhas, mas tinha gasto quase todos os trinta minutos olhando o ipê de sucesso e o movimento ao redor dele. Voltei para o cinema, comprei um schweppes citrus e entrei na sala.

Este é o momento do texto em que eu devia fazer uma pequena sinopse e resenha do filme, mas quem tem paciência para fazer isso de graça? Estou escrevendo isto por pura diversão, porque gosto de rememorar e escrever. Vou falar do que me tragou para dentro do coração do filme, para pessoas que já o viram. Os que não viram, tratem de ver, porque é daqueles que nos fazem nunca mais querer assistir a uma produção idiota ou a um episódio de seriado mongol, com os quais eu tantas vezes sou indulgente, o que é, na verdade, ser indulgente com a pior parte de mim, a parte viciosa, compulsiva, fast-foodiesca do meu espírito. É daqueles, afinal, que nos fazem querer ser pessoas melhores do que nós somos – que é, para mim, a função da arte, e que não tem relação alguma com didatismo. Há muita arte por aí que apenas nos devolve a nós mesmos, como alguém que joga uma trouxa de roupa suja em cima da gente. E parte dessa arte é boa. Pessoalmente, eu prefiro a arte que nos expulsa de nossa desorientação ansiosa e hedonista, e, sem simplificar a vida, se esforça para nos apontar valores. Porque você só é um ser humano se você possui valores – caso contrário, você é o cadáver adiado que procria, de que falou o Fernando Pessoa. Em outro mundo, seria mais fácil encontrar valores indo à Igreja. Mas os padres são, na maioria, pessimamente articulados, e repetem frases feitas que, caso eu já não tenha experienciado o significado delas, eu nunca vou conseguir compreender – porque só a partir do momento em que você compreende o que é sentir-se humilde de verdade, quando o mundo de alguma forma, através de mil circunstâncias e expedientes, te quebra no meio, é que você pode compreender completamente o significado do termo humildade numa frase. Antes disso, é apenas um conceito abstrato, que eu posso racionalmente compreender, mas que não posso viver – e o que não vive não habita o coração de ninguém. Diante disso, é natural e necessário que os artistas, que são aqueles que nasceram com o talento de extirpar de nós a convencionalidade das linguagens que fazem com que não percebamos nem o mundo fora de nós nem o mundo de dentro, voltem-se para uma busca corajosa de valores, sempre sem simplificar a vida, porque, a esta altura, com Michael Jackson morto com comprimidos no estômago, ninguém suporta mais all this postmodernistic bullshit.

O filme me pega de jeito, desde o início, porque toca numa ferida que sempre me doeu: o fracasso. O violoncelista, Daigo Kobayashi, cuja orquestra em que tocava acaba de ser dissolvida, tem de olhar de frente para o fato de que é impossível conseguir vaga em outra orquestra, porque sabe que há muitos outros violoncelistas melhores do que ele procurando emprego. Aqui não cabe o discurso otimista, que, naturalmente, apenas nos deprime, que prega que, se você fizer o seu melhor, tudo vai dar certo. Não. Não é assim. Nós nos esticamos e, em certo ponto, nós partimos, como Gatsby se parte tentando alcançar a luz verde do outro lado da baía. Daigo diz para si mesmo e para a mulher que ama: eu devia ter percebido há mais tempo as limitações do meu talento. A partir disso, é que se pode recomeçar. É nesse ponto em que se escolhe entre a possibilidade de partir para uma nova vida de fato, sem perspectivas de que ela será melhor ou mais satisfatória, embora seja natural e saudável que tenhamos esperança, e o fracasso maior de ser incapaz de desvencilhar-se de velhas fixações, de estar amarrado no topo da sua amargura, com o abutre das ilusões vindo lhe comer o fígado todas os dias. Daigo resolve voltar para a cidade onde nasceu, no interior do Japão, e onde a mãe, que morreu sem o filho por perto, lhe deixara uma casa, abarrotada com os discos do pai que abandonara a família, quando Daigo era ainda criança.

Nesse ponto, há um fato que o filme não se encarrega de ressaltar, o que seria de mau gosto, mas que não se esquiva de sugerir: Daigo ressente-se do pai ausente por os ter abandonado. Mas Daigo também abandonou a mãe. Ela morre sozinha, enquanto o filho estudava na Europa. Claro, pode-se dizer que é natural que os filhos deixem a casa em que cresceram, é natural que os pais fiquem, com o tempo, sozinhos, no momento mesmo em que, debilitados, precisariam de assistência e retribuição do afeto dedicado no passado. É natural, nos dizem, mas, infelizmente, não é natural. Se fosse natural, não sofreríamos tanto. É cultural (e, claro, quando dizem que é natural, apenas se toma o cultural como natural, já que, para nós, essa equação é verdadeira). E Daigo sofre, e o fato de compreender isso o ajudará a perdoar o pai, que é uma lição muito mais profunda e verdadeira do que o parricídio postulado por supostos filósofos contemporâneos. Matar o pai é fácil e não nos leva a lugar nenhum – apenas nos afasta de nós mesmos. Perdoar o pai é bem mais difícil, e introjeta, de alguma forma harmônica, em nós, toda a complexidade de experiências tortuosas que preferiríamos apenas esquecer, porque, como diz o T.S. Eliot, nos Quatro Quartetos, o gênero humano não suporta tanta realidade. Mas precisamos suportar. Ou vivemos com o passado ou não vivemos de modo algum.

A questão, entretanto, que amarra todas as outras no filme é a profissão que Daigo encontra na cidade em que nasceu. O jovem Daigo ajudará as pessoas que partiram na sua última travessia: aprende com um velho o ritual tradicional naquela cultura de limpar o corpo da pessoa falecida, diante de seus familiares, de vesti-la e maquiá-la, prepará-la para a partida. Aqui, quando nascemos, nos banham de água benta, para nos lavar do pecado original. Lá, com um significado de algum modo próximo, embora, naturalmente, não semelhante (o filme não se aprofunda nisso), faz-se isso no limiar da outra vida (ou do Nada, para os céticos que têm extraordinários poderes de observação, a ponto de só enxergarem o que se lhes apresenta à luz do dia, posto sobre a mesa, com um manual de instruções e um prazo de garantia). A profissão acarretará uma série de conflitos: um velho amigo da cidade a rejeita como imprópria, o que o leva a rejeitar Daigo, embora não hesite em convocar o ritual na hora da morte de sua mãe; a mulher de Daigo, por sua vez, sente nojo do marido que toca no corpo dos mortos e o abandona.

Para quem assistiu ao brilhante Six Feet Under, é inevitável não estabelecer um contraste entre o modo como aquele ritual trata o morto e a morte, e o modo das funerárias americanas, como a retratada no seriado. Em um episódio, a filha mais nova, cujo pai, dono da casa funerária, morrera num acidente de carro (outro pai ausente, com cuja memória os filhos precisam aprender a lidar... e a perdoar), rouba um pé de um defunto desconjuntado, para vingar-se, colocando-o no armário de um ex-namorado que fizera com que ela chupasse seu dedão do pé, para depois espalhar a proeza pela escola. O que é inacreditável na trama desse episódio é que ela não soa inacreditável. Podemos ver isso acontecendo “nas melhores famílias”. A bem dizer, isso nem exatamente nos assusta. Passamos pela vida tratando as pessoas como instrumentos: elas são modos de alcançarmos um objetivo, que quase sempre se relaciona com a vaidade e o prazer. Um pé de um defunto, para nós, é apenas um pé de um defunto.

O filme toca nesse ponto no contexto cultural do próprio Daigo, contexto que sofre dos mesmos conflitos do nosso: a dificuldade de adaptar tradições, que nos tornam pessoas e não instrumentos, à modernidade, que nos torna entediados e supersexualizados. Porque o fato bizarro é esse: são as tradições que devem se adaptar à modernidade, como se a modernidade fosse o dado natural. Rompe-se mesmo a lógica do tempo. Era de se esperar que a modernidade se adaptasse à tradição, se aconchegasse nela, sem destruí-la. Mas aqui não há mais volta. Uma geração de homens, num determinado momento histórico, foi gananciosa demais, e se estivéssemos lá, provavelmente teríamos feito o mesmo. Os dodôs todos morreram. Como diz o Daniel Liberalino: é impossível revirginar a puta. A modernidade é nossa tradição: ela se desenvolve a revelia de nossos desejos e nostalgias, de nossas dores e esperanças (é essa afinal a mensagem por trás da série O Exterminador do Futuro). A modernidade é um trator que ligamos no automático, diante do qual nos deitamos, à espera de que ele passe por cima de nós e nos despedace de uma vez, como numa cena do péssimo Fim do Mundo, de Shamalayan. A questão que se coloca hoje é como se levantar antes de ser fatiado como presunto, e como, uma vez de pé, tomarmos o controle do trator.

A Partida não tem respostas gerais para isso, mas há uma sugestão. Daigo, a princípio enojado, aprende, aos poucos, pela observação cotidiana, a respeitar os mortos – como uma parábola de Lázaro às avessas, ao tocá-los, é ele quem volta à vida (e prova, enfim, o sabor da vida, que o velho, seu patrão, lhe ensina a degustar). Antes dessa experiência, Daigo nos diz, logo no começo do filme, sua vida fora inexpressiva. A maioria de nós não se sentiria de outra forma, caso olhasse para trás, para o tumulto de dias que resultaram em tão pouco dentro de nós –tão pouco para nos consolar, tão pouco para nos fazer querer continuar vivos. Talvez, olhando para os mortos, para as palavras dos mortos, não as deixando para trás (sorry, Dylan), e para os que estão mortos-em-vida para nós (e quase sempre vivem conosco, dentro da nossa casa, e comem à mesma mesa e lembram-se dos mesmos lugares da infância), talvez, quando chegasse a hora da nossa partida, haveria ainda muito por lavar e purgar, mas haveria também algo a preservar – da nossa memória, da parte melhor de nós, se pelo menos a alimentássemos.

Domingo, Junho 28, 2009

O País dos Mourões




Iam caindo: à esquerda e à direita iam caindo;
Alexandre e Francisco, meus bisavós tombaram,
o primeiro com sua farda de gala, seus botões de ouro
e sua patente de coronel
e o outro com sua barba nunca mais alisada e sua bengala
de castão de ouro.

Antes, caíam hierárquicos e cronológicos:
Manuel Martins Chaves na prisão do Limoeiro,
Ana, Eufrosina e Úrsula Mourão, da Canabrava dos Mourões,
em suas camarinhas cheias de santos,
Antônio, com seus bordados de general nos campos do Paraguai,
um picado de cobra, outro sangrado a punhal, outro varado à bala, outro
de maleita,
à esquerda e à direita foram todos caindo,
primeiro os que já eram lenda na memória dos velhos,
depois os avós de meus avós,
porque antes tombavam hierárquicos e cronológicos.

Foi assim que tombou, ao lado de seu rifle,
o Coronel José de Barros Mello, chamado "O Cascavel", meu tetravô,
e depois o Major Galdino, entre seu bacamarte e suas gaiolas de pássaros, depois, meu outro avô, o capitão de cenho espesso sobre a tribo
ao talhe de seu tronco frondejando
a cabeça de Mellos e Mourões.

A esquerda e à direita iam tombando,
Úrsula, Francisca e tantas outras,
até cair meu pai.

Depois, começou a romper-se a ordenação da morte
e tombavam os tios e as crianças:
Etelberto, com seus negros cabelos lisos,
Raimundo prometera devolver à terra o que da terra houvera e tombou nela;
Elisa, Elvina e tu,
com teus oito anos e tua cabeça castanha;
tombaram um por um: Ignácia e Ladislau viveram cem anos e também morreram; tombou Quintino e nunca mais
pela estrada de Águas Belas alazão levará
coronel tão galante e nunca mais na lua
da sela clavinote
tão certeiro;
tombou
Quintino e antes dele porque a morte ia deixando de ser hierárquica e cronológica tombou no Maranhão Francisco apunhalado.


Abre-se assim aquela que é, na minha pessoalíssima opinião, a obra máxima da poesia brasileira, para não dizer da língua portuguesa, junto com Camões e Pessoa (que me perdoem os que admiram muito Bruno Tolentino e Herberto Helder). Aliás, eu prefiro Gerardo Mello Mourão a Pessoa. O ritmo da poesia de Gerardo varre da minha mente a sintaxe pessoana e a secura dos versos de Drummond. Lendo Gerardo, como dizia Álvaro de Campos sobre Whitman, não sei se leio ou se vivo. Em contraposição à toda poética da negatividade que permeou as grandes vozes líricas da primeira metade do século, a poesia de Gerardo é afirmativa: quer possuir o mundo, os cheiros, as cidades: poesia de vastos apetites. E é de uma afirmação que nasce da apreensão da morte: o poema se abre com a invocação dos mortos, dos que caíram à esquerda e à direita. Em nenhum momento, Gerardo simplifica a existência para cantá-la: é sempre fiel ao real, à multiplicidade da experiência. Parece que Gerardo foi o único que compreendeu a essência mesma da poesia: quando o leio, o que sinto é ancestralidade - como se eu entendesse pela primeira vez o que os gregos deviam sentir lendo Homero: o ritmo do mundo, a vida e a morte, o cair e o levantar: o homem feito das terras, dos mares, dos ventos. Uma das grandes tristezas da minha vida é não ter ido ao Rio de Janeiro, onde ele morava no fim da vida, conhecer Gerardo pessoalmente. Não tinha dinheiro. Mas deveria ter ido de algum jeito: pegando carona na estrada. Só para agradecê-lo e apertar, uma vez na vida, a mão de um verdadeiro Deus.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Um pouco mais de Paul Valéry



La jeunesse est finie dès que ce que je pense s'imprime dans ce que je fais - tandis que ce que je fais s'incruste dans ce que je pense.

A juventude acaba a partir do momento em que aquilo que eu penso se imprime no que eu faço, ao passo que aquilo que faço se encrosta naquilo que eu penso.

Les théories d'un artiste le séduisent toujours à aimer ce qu'il n'aime pas et à n'aimer pas ce qu'il aime.

As teorias de um artista o seduzem sempre a amar aquilo que ele não ama e a não amar aquilo que ele ama.

La peinture permet de regarder les choses en tant qu'elles ont été une fois contemplées avec amour.

A pintura permite olhar para as coisas do modo como elas foram uma vez contempladas com amor.

Terça-feira, Junho 23, 2009

Variações narrativas para um barco sem mar

Nem sempre há um começo.
Nem sempre é lícito narrar,
Dizer : daqui até aquelas serras,
Tudo era mar,
Água do dilúvio,
E foi secando.
Há tardes em que um barco
Suspenso de cabeça pra baixo
No meio de uma floresta atlântica
No coração de um país adormecido,
É um barco sem mar,
Sem começo.
Um barco que é uma interrupção
Ou o improvável despojo
De uma outra paralela
Onde os barcos fluem, impalpáveis, no ar.
Um barco quando muito à espera
De um deus que feche a fenda,
A estrada incerta
Que um outro deus abriu num sonho.
Mas nem sempre é lícito narrar,
Nem sempre há um começo,
Uma palavra no começo.
Explica-me isso, meu amor.

Inhotim, 2008.

Domingo, Junho 21, 2009

La Mer

Do mais cerebral dos poetas modernos, um fragmento sobre o corpo no mar, que me deu saudades da praia do Cumbuco:

Parece que me reencontro e me reconheço quando volto a esta água universal. Nada conheço nos campos dos ceifadores, nas vindimas. Nada para mim nas Geórgicas. Mas jogar-se na massa e no movimento, agir até os extremos, da nuca aos dedos do pé; voltar para esta substância pura e profunda; beber e expirar o divino azedume, é para o meu ser um jogo comparável ao amor - ação em que todo meu corpo se faz signo e todo força, como uma mão se abre e se fecha, fala e age. Aqui, todo o corpo se doa, recomeça, concebe-se, desgasta-se e deseja esgotar seus possíveis. Ele a abraça, quer agarrá-la, guardá-la, enche-se de vida e de sua livre mobilidade; o corpo a possui, engendra com ela mil idéias estranhas. Através dela, eu sou o homem que quero ser. Meu corpo torna-se o instrumento direto do espírito, e no entanto autor de todas as suas idéias. Tudo aclara-se para mim. Eu compreendo ao extremo aquilo que o amor poderia ser. Excesso do real! As carícias são conhecimento. Os atos dos amantes seriam os modelos das obras.

Paul Valéry

Sábado, Junho 20, 2009

O vaidoso culpado

O vaidoso culpado. Por um lado, esforça-se por vários meios para despertar a admiração alheia – seja de um público ou de uma pessoa, o que, para ele, é sempre o mesmo; por outro lado, martiriza-se por não corresponder às apostas de felicidade que depositam nele. O martírio alimenta a vaidade, e a vaidade, o martírio. É claro que o vaidoso não consegue amar, porque não considera nenhum objeto à altura de si mesmo, crendo-se sempre único e precioso demais para, por sua vez, ser o objeto de amor particular de qualquer pessoa. Desse modo, mal afeiçoa-se à alguém, logo se põe a diminuí-lo aos seus olhos e mesmo aos olhos da própria pessoa, até transformá-la em algo inofensivo, domesticado, conhecido - banal. O vaidoso culpado, contudo, além de não conseguir amar, tampouco é capaz de aceitar que é amado. Procede ao mesmo mecanismo de rebaixamento do outro que é o modo próprio do vaidoso, mas acrescenta a isso uma auto-consciência vigilante que lhe suga toda a energia: junto com o rebaixamento do outro, protagoniza um espetacular linchamento de seu próprio personagem, por vezes apenas consigo mesmo, e, por outras, deixando transparecer para o público alguns relances dramáticos desse conflito interior, não resistindo à tentação de sugerir que se trata de uma batalha grandiosa e heróica dentro de si. O vaidoso culpado, assim, é, naturalmente, um viciado – tanto na vaidade quanto na auto-flagelação, sendo esta, está claro, a maior de todas as suas vaidades. Disso tudo, infere-se que o meramente vaidoso, bom ou mal, é um ser humano, porque ao menos é autêntico e confiante na sua vaidade. Podemos contar com a vaidade dele, como podemos contar com a bravura de Aquiles. Já o vaidoso culpado é sempre uma meia furada, um cheque sem fundo, um saco vazio: é falso, simultaneamente, na sua vaidade e na sua culpa.
Make-Believe




Depois que o poema acaba
o poeta não é poeta:
é estudante, é gente, é nada.
Antes nunca viessem os créditos
e fôssemos sempre espectadores.
Antes a suspensão voluntária da descrença
valesse vida afora.
Quando nos dissessem que as árvores
na floresta noturna
mudam de lugar para confundir os viajantes,
acreditaríamos.
Acreditaríamos com a regra da arte
de não sermos mesquinhos dos olhos,
de não levarmos demasiado a sério
a sucessão minuciosa dos minutos,
as queixas denotativas da gravidade.
Porque fico pensando na morte.
Fico pensando em quando nos contassem
que ninguém desapareceu,
que aquela que colhia
as flores do jardim
partiu apenas numa viagem demorada,
para luzir além-estrelas,
num outro conto de fadas.

15 de junho de 2008

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Telêmaco



Fui às terras de além-mar,
Porque Ítaca apodrecia.
Viajei para longe, e a má
Sorte foi sempre companhia.

Calipso nunca vi por lá,
Nem sereias. Toda gruta: vazia.
Ciclope não pude cegar:
A praia, deserta; o mar, calmaria.

Onde os deuses e a vingança?
Onde Vênus que nunca cansa
De nos seduzir ao naufrágio?

Já não se parte o frágil
Fio da vida, e Ítaca, minha,
De um falso rei definha!

27 de abril de 2008

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Anjo



Anjo, tuas asas doentes
Já começam a feder:
É preciso amputá-las.
Serás homem. É ruim,
Ao primeiro pensamento
Que te rebaixa, não ter
As nuvens ao alcance;
Corrompe dividir a terra
Com vermes e serpentes;
Antes a companhia celeste:
O condor, a águia, mesmo
As andorinhas. É ruim,
Mas é preciso amputá-las,
Ou apodreces até o caroço.
Há cirurgias – mal incomoda
O pós-operatório. Só não sei
Como reages. Há sempre
Os psicólogos. Nós vivemos
Assim desde Adão. Lembras?
(Agora vais aprender lições
De esquecer). Na primavera
Próxima, talvez já te foste
Daqui. É assim ser homem:
Imitar mal as estações...
Talvez riste disso, talvez não...
Mas vais rir agora, Anjo,
E não peça perdão.

26 de abril de 2008
Pessoa


Aleister Crowley e Fernando Pessoa, jogando xadrez.


Fernando, onde está Fernando?
Deixaram-no ao pátio, fumando,
Há uma hora atrás. Uma hora?
Mas não está lá...Terá ido embora
Para aquelas terras que não há
De que tanto fala e cala? Que má
Sina ter dessa sorte de sonho...
Dizia: “Na noite eu disponho
As estrelas, de modo que os navios
Se percam, e nem todos os fios
De Ariadne lhes devolvam à praia”.
Não gostava de Ariadne. A quem ia
Perdido, ela apontou a estrada.
“Estrada falsa”, dizia, “leva a nada:
Melhor vai quem vai perdido,
E é sempre o que nunca tem sido!”
Fernando, onde está Fernando?
Deixaram-no ao pátio, fumando,
E agora se foi. Foi para onde vão
Os navios-fantasma da escuridão.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Ophélia




És agora a presença dos rios,
O espírito no vento, na margem dos rios.
Guardas os amantes noturnos,
Porque não rompeste com o amor:
Amarás sempre, através deles,
Os que se deitam nas margens dos rios
Do mundo. Tuas canções
Não escutam, mas pressentem
Na agitação calma das águas,
No murmúrio das folhas, na pulsação
Da noite e dos corpos.
Ophélia,
Cantora da noite dos rios,
As ninfas te esperavam – sois
A rainha prometida,
vieste,
E as ninfas se alegraram:
Já não afogam poetas...
Afoga-me, Ophélia.
Afoga-me. Quero cantar as águas
No teu regaço. Eu também enlouqueci.

4 de junho de 2008

Terça-feira, Junho 16, 2009

A favor de Quixote




Hamlet, ao menos, era filho de Rei:
E eu, nascido para o que nunca serei?
Herói de última hora, minha guerra
cancelaram. Vago sombrio na terra:
não matei, nem morri. Minha Ophélia
não soube de mim. E no que eu lia
a tragédia do príncipe deprimido,
minha vida se tinha ido, e comprimido
não receitam para tamanha desgraça.
Ah, mas tudo passa! Sim, tudo passa,
mas olha que nós passamos mais,
e mais depressa, e nunca temos paz.
Antes ser Quixote, nosso irmão e igual:
Viveu nossa pobreza, morreu do nosso mal!

21 de abril de 2008, na Rua das Mangabeiras.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Do começo


Raquel Feliciano


Nunca se chega ao fim.
O que há no verão que brilha
Vence as estações escuras:
Vive em mim. Nada fica,
Porque nada passa.
Um dia o coração explodirá:
Eis, renascidas, as galáxias.

22 de outubro de 2008, na biblioteca.
Sobre a morte e as últimas palavras

"...no fundo, nós vivemos, a cada dia, desde que nascemos, tentando dizer as últimas palavras, dizer as palavras essenciais, dizer alguma coisa, balbuciar. O que é a arte senão essa necessidade de dizer as últimas palavras?"

Otto Lara Resende, nesta entrevista com Nelson Rodrigues.
Uma confusão de dias bons



It was a very good year

When I was seventeen it was a very good year
It was a very good year for small town girls and soft summer nights
We'd hide from the lights on the village green
When I was seventeen

When I was twenty-one it was a very good year
It was a very good year for city girls who lived up the stair
With all that perfumed hair and it came undone
When I was twenty-one

When I was thirty-five it was a very good year
It was a very good year for blue-blooded girls of independent means
We'd ride in limousines their chauffeurs would drive
When I was thirty-five

But now the days are short, I'm in the autumn of the year
And now I think of my life as vintage wine from fine old kegs
From the brim to the dregs, and it poured sweet and clear
It was a very good year

It was a mess of good years


Escrita por Ervin Drake, em 1961, e ferida de imortal beleza por Frank Sinatra.

Em tempo: em um episódio dos Simpsons, a canção é parodiada por Homer, cantando "I Drank Some Very Good Beer".
Tango till they're sore

Na primeira audição de Rain Dogs, uma das coisas que me chamou a atenção é que, com exceção de Downtown Train, Tom Waits consegue escapar da maldição dos anos 80. O álbum não soa nada anos 80. Nunca tinha visto isso acontecer com discos dessa década. Há discos dos anos 60 e dos anos 70 que não se referem imediatamente à produção e ao espírito da época. Nunca tinha visto isso nos anos 80. Porque não tinha dado atenção a Tom Waits.

Domingo, Junho 14, 2009

Tom Waits



The moon is yellow silver
On the things that summer brings
It's a love you'd kill for
And all the world is green
He's balancing a diamond
On a blade of grass
The dew will settle on our graves
When all the world is green



E apenas agora, aos 26 anos, velho e acabado, compreendo que Tom Waits é o único bar para onde alguém pode se arrastar em certas noites incertas. Culpo, naturalmente, meus amigos, pela iluminação tardia. Quando se escuta muito Bob Dylan, tende-se a olhar com suspeita para qualquer outro singer-songwriter. Mas Tom Waits não é epígono, é uma figura tão fabulosa quanto Dylan - chega a ser um arquétipo do mesmo nível, um personagem do imaginário americano. Se não houvesse All The World Is Green o mundo seria muito mais sujo e imoral. Para além disso, musicalmente, Waits é muito mais fascinante do que qualquer outro - nunca se sabe o que esperar, exceto o improvável. E mal comecei a ouvir. Há um teatro gigantesco para conhecer, e a comédia já começa na porta de entrada.

"Don't plant your bad days, they grow into weeks, weeks grow into months, and before you know it, you've got yourself a bad year. Take it from me. Choke those little bad
days. Choke them down to nothing
." Tom Waits.

"Não plante seus dias ruins: eles crescem e viram semanas, semanas viram meses, e antes que você perceba, você colheu para você um ano ruim. Aprenda comigo. Sufoque esses diazinhos ruins. Sufoque-os até que não sejam nada!"

Sexta-feira, Junho 12, 2009

Vaso Chinês

O meu amor ficou no passado.
Escreverei versos arcaicos
para ludibriar o Tempo.
Que os historiadores do futuro me descubram
precursor de mim.
Escreverei pharmácia e outrossim
e com sorte me jogam no século dezenove.
Porque sonhei que meu amor vivia em Paris
e era santa e era meretriz
e eu poeta meditabundo,
e da janela do nosso quarto
víamos a fumaça subir sobre os telhados
da capital da Luz. Paris!
Meu amor está perdido em Paris.
Escreverei versos arcaicos.
E quando lançado como tralha imprestável
para junto dos parnasianos do tempo de Baudelaire,
tomarei meu amor nos braços,
e ela dirá: "Vem, meu poeta extraviado,
que te sonhei no futuro,
e era estranho ser teu passado!"
Ô, historiadores do futuro, sejamos imprecisos!
Não se trata de manipulação política
para dar a coroa aos vencedores.
É questão de amor.

7 de junho de 2008, na pensão.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Lançamento: Dicta