Sexta-feira, Julho 30, 2010

Questões ao redor de uma cabeça


Os pássaros negros da noite lúcida
pousaram, um a um, sobre minha cabeça.
Sobre o braço do sofá, insciente e muda,
processa o dia, sua estranha, vaga tristeza.

Quando o palhaço lançá-la à sepultura,
verme algum lhe devorará o oculto mundo,
o outro mundo, incriado, em cuja arquitetura
vão inscritos os meus desejos. Num segundo,

contudo, terá este quadro nunca existido?
Só o silêncio herdará a circunscrita história
de um universo intuído por um sentido?

Os pássaros negros pela noite sem memória
conduzem minha cabeça, entupida de sonho.
O que nunca terá sido, disso me componho.


Consolação, 29 de julho de 2010.

5 Comentários:

Blogger Pedro Sette-Câmara disse...

Excelente.

6:38 PM  
Blogger Leonardo T. Oliveira disse...

Também gostei bastante. Me lembrou muito aquele poema do Jorge Luis Borges, "Argumentum Ornithologicum".

11:19 PM  
Blogger Odorico Leal disse...

Olá, Pedro, obrigado pela visita.

Leonardo, lembro desse texto do Borges, mas acho que é um texto em prosa. Vou dar uma lida. Obrigado pela visita.

Abraço,

10:38 AM  
Blogger Leonardo T. Oliveira disse...

É mesmo, é um trechinho em prosa. Bom, na verdade não lembra tanto..., tirando o pássaro e a tangibilidade do conteúdo mental.

Abraço!

12:15 AM  
Blogger Márcia Luz disse...

Gosto muito de poesia com esse "ar" meio escuro, de pessimismo e esperança velados.

9:34 AM  

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