Quinta-feira, Setembro 09, 2010

Trabalhar, trabalhar

"Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras-de-sentir. Agora, tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me não desvie disto o meu perigoso feitio demasiado multilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si".

Fernando Pessoa, em carta a Armando Côrtes-Rodrigues, datada de 19 de janeiro de 1915.

O perigoso feitio multilateral sobre o qual Pessoa escreve lhe alimentava perversamente o gênio. Nele suas emoções e pensamentos perdiam a integralidade e a sustentação. Era seu drama interno. A arte estava em canalizar as correntes dissipadoras que lhe atravessavam para a realização estética. Tinha de manter-se à altura do ideal - o alargamento da consciência da humanidade, que, materializado na obra, era o único espaço em que todas as contradições podiam ter sentido pleno, universal. Temos sentimentos e pensamentos que, apenas dentro de nós, nunca poderiam encontrar nexo. Só o encontram em um espaço mais amplo do que a nossa cabeça. Como parte do mundo cultural. Tudo isso implicava manter-se sempre auto-consciente em relação àquela adaptabilidade nociva. Vigiá-la. Como se o senhor Hyde e o doutor Jekyll se separassem, afinal, em dois corpos distintos, e a vida de Jekyll tivesse de ser uma eterna vigilância, como o stalker de sua própria loucura sem forma. Há em geral uma tendência a acreditar que feitios multilaterais ou qualquer outro tipo de confusão mental e emocional é o combustível da arte. E, em parte, é. Mas, como qualquer truly romantic sabe, a arte não está no caos, mas no desejo pessoal de superá-lo. Abraçar o caos - resignar-se com a incompreensão do mundo, a violência das paixões, as contradições sociais e com a própria tristeza doentia, desistir e entregar-se à idéia de que nada pode ser explicado ou ao menos valorizado ou simplesmente não tomar qualquer partido em relação a isso e viver em uma entediada indiferença, é matar qualquer impulso verdadeiramente criativo dentro de si - seja para a arte ou para a vida.

3 Comentários:

Blogger drex alvarez disse...

Dá gosto ver que as altíssimas expectativas que o gajo se impunha foram plenamente realizadas.

Ser pretensioso para alguns faz todo o sentido.

Abraço,

9:41 PM  
Blogger Ruy Vasconcelos disse...

parece que isto segue extremamente bem expresso.

5:41 PM  
Anonymous Mariana Pithon disse...

lEsse foi um dos posts mais lúcidos e bonitos que li em seu blog, pequeno pessoano!
Quase aluguei um quarto na Rua dos Douradores aqui em Lisboa. Que pena que era um pouco mais caro do que podia. sinto muito sua falta enquanto presença real, afirmativas soltas no ar, confabulações acerca da arte moderna e do mundo. Lisboa é linda e acho que serei muito feliz aqui. Existe uma verdade e uma doçura na ação das pessoas que se aproximam das coisas simples que nos faz um dia plenamente perceber que tudo compensou e que as minhas mãos nunca ficarão vazias ante a força do meu espírito.

Carinho!

5:15 AM  

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